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Beber uma garrafa de vinho por semana faz tão mal como fumar 10 cigarros?

As conclusões são de um estudo científico que, tal como os autores pretendiam, lançou a polémica no Reino Unido sobre os efeitos do consumo do álcool na saúde pública.

Max Rossi

O estudo, sobre as causas do cancro, compara e põe no mesmo patamar de responsabilidades o consumo de tabaco e do álcool: ingerir uma garrafa de vinho por semana aumenta o risco de cancro na mesma proporção que fumar até 10 cigarros.

Apresentada assim nas notícias dos media ingleses e internacionais, a conclusão do estudo provocou imediata reação da comunidade científica.

Em causa não está a importância da investigação, mas a metodologia seguida e algumas das conclusões a que chegou a equipa da Universidade de Bangor, no Reino Unido, autora do estudo, publicado na revista BMC Public Health.

Ao comparar consumo de tabaco e consumo de vinho nas causas do cancro (beber uma garrafa de vinho por semana é igual a fumar até 10 cigarros), os cientistas pretendiam sobretudo chamar a atenção para os problemas do consumo abusivo de álcool.

Ou seja, sabendo que a população está mais alertada para os malefícios do tabaco, os autores do ligaram o fumo ao vinho para cumprir o objetivo de colocar em cima da mesa o debate sobre problemas relacionados com o consumo exagerado de álcool.

A forma como, nos resultados apresentados, foram comparadas taxas de incidência de cancro atribuídas ao consumo de tabaco e de álcool, nos homens e nas mulheres, levantou dúvidas nos meios científicos. Mas a verdade é que a notícia chegou aos grandes meios de comunicação, que era precisamente um dos objetivos da equipa.

Os autores do estudo sublinham que a comparação entre tabaco e vinho é uma forma de chamar a atenção para os riscos de cancro causados pelo consumo exagerado de álcool.

Segundo o estudo, a ingestão de uma garrafa de vinho por semana é a causa mais provável do cancro de 10 em cada mil homens que não fumam. Para quem consome três garrafas por semana, esse número sobe de 10 para 19. Os cancros mais prováveis são os gastrointestinais, como colorretal e de estômago.

No caso das mulheres, os números são ainda mais elevados: para cada mil mulheres não fumadoras, 14 podem ter como causa de cancro o hábito de beber vinho toda semana. Assim como nos homens, se o consumo semanal aumentar para três garrafas, a probabilidade de cancro chega a 36 para cada mil. O cancro cuja probabilidade é maior é o da mama.

Para homens e mulheres no Reino Unido, o risco de cancro ao longo da vida é cerca de 50%. “Estima-se que beber uma garrafa de vinho por semana representa um acréscimo de 1% para homens e 1,4% para mulheres em comparação com quem não bebe nem fuma”, explicou Jane Green, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, ao The Telegraph.

A probabilidade de cancro causado pelo álcool ou pelo fumo pode variar. Para alguns indivíduos, uma garrafa de vinho por semana pode não ter o mesmo efeito que o consumo de 5 a 10 cigarros”.

Segundo Theresa Hydes, uma das autoras do estudo, o trabalho agora publicado traduz apenas o risco a nível populacional já que, individualmente, a probabilidade de cancro causado pelo álcool ou pelo fumo pode variar. Ou seja, para alguns indivíduos, uma garrafa de vinho por semana pode não ter o mesmo efeito que o consumo de 5 a 10 cigarros.

Os cientistas destacam que a comparação é uma maneira de chamar a atenção e de facilitar o entendimento dos riscos de saúde representados pelo consumo abusivo de álcool.

“O consumo excessivo de álcool está ligado ao cancro da boca, garganta, esófago, intestino, fígado e mama. Mas em contraste com o tabagismo, isso não é amplamente compreendido pelo público. Ao usar cigarros como analogia, esperamos comunicar essa mensagem de maneira mais eficaz para ajudar as pessoas a fazerem escolhas de saúde mais informadas”, explicou Theresa Hydes, ao Daily Mail.

O acesso a este tipo de informação e a facilidade de entendimento proporcionada pela comparação pode, segundo os especialistas, influenciar a opinião pública, contribuir para baixar o consumo de álcool e, consequentemente, reduzir os danos ligados ao alcoolismo.

“Ver o álcool sob a mesma perspetiva dos cigarros pode resultar numa diminuição no consumo e danos relacionados. Especialmente para as mulheres”, afirmou Bob Patton, da Universidade de Surrey, em declarações sobre o estudo à BBC. O estudo teve grande repercussão nos media ingleses e internacionais. Isso contribuiu para aumentar as reações e as críticas a alguns aspetos do trabalho.

Segundo Minouk Schoemaker, do Instituto de Pesquisas sobre o Cancro, as conclusões do estudo realizados pela equipa da Universidade de Bangor, são interessantes, mas a metodologia seguida levanta algumas dúvidas.

Segundo aquela especialista, além de ser difícil separar completamente os efeitos do álcool e do cigarro, o estudo não terá levado em consideração nem a duração do tabagismo nem o tempo de desistência do hábito. Outra crítica sublinha o fato de o trabalho ter analisado somente o cancro, deixando de fora outras doenças muito comuns em fumadores, como as cardiovasculares ou pulmonares.

Minouk Schoemaker afirma também que a pesquisa se baseou em dados de 2004 e não levou em conta outros fatores de risco para o cancro, como a idade, genética, histórico familiar e alimentação.

“O quadro geral do risco de cancro é extremamente complexo e com nuances, por isso é importante ter em conta que este novo estudo está sujeito a várias suposições”.

Em declarações à BBC, aquela especialista lembrou também que muitos fumadores consomem mais de dez cigarros por dia, e não por semana, o que significa que o número de cigarros (até 10) “equivalentes” ao álcool (uma garrafa de vinho) é pequeno.

Regis Duvignau

O estudo demonstra que, em relação ao risco de cancro (e a uma série de outras doenças), o tabagismo é substancialmente mais perigoso do que o consumo de álcool”.

Embora o trabalho científico destaque os perigos do consumo de álcool, os resultados não deixam de sublinhar o facto de o tabagismo continuar a ser um dos grandes problemas de saúde pública.

Como afirmou John Britton, da Universidade de Nottingham, à BBC, “o estudo demonstra que, em relação ao risco de cancro, o tabagismo é substancialmente mais perigoso do que o consumo de álcool. E também é muito mais perigoso em relação a uma série de outras doenças. Se os fumadores estão preocupados com a saúde, a melhor coisa que podem fazer é deixar de fumar”.

Ou seja, apesar de algumas críticas, o estudo tem o mérito de trazer para o debate os problemas do consumo exagerado de álcool e de tabaco, responsável por inúmeras doenças em todo o mundo.

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