Ao vivo na redação: Alan podia ser apenas um simples carpinteiro igual a tantos outros, mas não é

Uma história para ver hoje no Jornal da Noite da SIC

No quarto mais perigoso país do Mundo há militares portugueses que tentam manter a estabilidade e ajudar as populações a terem uma “vida normal”.

Os enviados da SIC à República Centro Africana, Pedro Freitas e Luís Pinto, são convidados para antecipar a grande reportagem “A emboscada” que estreia mais logo no Jornal da Noite. Uma conversa moderada por Pedro Cruz, da SIC.

Alan podia ser apenas um simples carpinteiro igual a tantos outros, mas não é. É um herói da guerra, daqueles que não precisam de usar armas - as vítimas também podem ser heróis. Sobrevive nas ruas de Bangui, capital do quarto mais perigoso país do mundo, a República Centro Africana, onde é comum enterrar crianças e vê-las passar fome, sede e ser abusadas sexualmente.

Não gosta de falar do muito que viu, desde que o conflito civil regressou à porta de casa, em 2013. Sobretudo à noite quando se deita recupera involuntariamente as imagens das emboscadas, de cadáveres em avançado estado de decomposição no meio da estrada, fulminados por uma bala perdida. E o sono não chega. Há 2 anos que Alan perdeu a paz: a irmã e o cunhado foram assassinados por grupos rebeldes e deixaram órfãs 3 crianças, entre as quais Justo, de 10 anos que hoje trata como filho, tal como os outros 2 sobrinhos.

Não se queixa do peso da vida. Diz, sorrindo, que "vive bem" e que, apesar da violência e das dificuldades comuns a quase toda a população, é "feliz com a família". Viver bem na República Centro Africana é, todavia, uma hipérbole - ninguém vive bem, sem água potável, quase sem comida e em guerra. Em 6 anos foram assinados 8 acordos de Paz, um dos quais chegou a durar menos de 24 horas. Este último tem 1 ano. "Um acordo de paz, infelizmente, não significa paz" refere à SIC Mankeur Ndiaye, representante especial do secretário-geral das Nações Unidas na República Centro-Africana, António Guterres.

O governo controla 1/5 do território, o resto é dominado por 14 grupos armados que olham para as riquezas do país, sobretudo o ouro, diamantes e urânio, como fontes de financiamento da atividade criminosa. Os rebeldes islâmicos "Seleka" ​e as ​milícias cristãs "Anti-balaka" têm incendiado este território perdido no coração de África, obrigando as Nações Unidas a intervir. 13 mil capacetes azuis de vários países, incluindo de Portugal, tentam estabilizar um país rico em minério mas, por exemplo, sem uma única incubadora no hospital de referência de Bangui, onde há 1 médico por cada 20 mil pessoas e onde morrem, em média, 103 crianças por cada mil que nascem.

Nesta terra encarnada, sucedem-se as violações dos direitos humanos. As Nações Unidas tentam alterar mentalidades e a própria cultura local que, em pleno século XXI, não vê com especial censurabilidade os abusos sexuais de crianças, a partir dos 10 anos. Esta é uma das várias complexas missões dos 180 militares portugueses presentes na República Centro Africana. Numa das últimas viagens ao norte do país, o primeiro batalhão de infantaria paraquedista esteve sob fogo cerrado. Foi emboscado e obrigado a reagir com artilharia pesada para dominar, com sucesso, o inimigo.

Emboscada é uma Grande Reportagem de Pedro Freitas, com imagem de Luís Pinto e edição de Rui Rocha.