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Rui Rio apresenta recandidatura à liderança do PSD

TIAGO PETINGA

Rio considera que "seria muito prejudicial" para o partido e para o país se os sociais-democratas mudassem de líder,

O presidente do PSD, Rui Rio, apresentou esta sexta-feira publicamente a recandidatura à liderança do partido que chefia desde 2018, numa conferência de imprensa que decorreu num hotel do Porto.

O líder do PSD defendeu que "seria muito prejudicial" para o partido e para o país se os sociais-democratas mudassem de líder, dizendo existir uma "clara inversão" de ciclo político.

No início da apresentação pública da recandidatura, Rio lamentou "uma incompreensível tendência autofágica, divisões internas que o bom senso aconselharia a evitar".

"Estamos mais perto de ganhar ao PS e eu não quero ter a responsabilidade de ver essa oportunidade destruída. Por isso, perante os militantes do meu partido e perante os largos milhares de portugueses que, em mim e no PSD, depositam a sua esperança, eu tenho a obrigação de me recandidatar", justificou.

Numa intervenção inicial de cerca de quinze minutos, Rio voltou a lamentar que o partido tenha marcado já o seu calendário interno - diretas em 4 de dezembro e congresso entre 14 e 16 de janeiro - antes de saber se o Orçamento do Estado é aprovado, considerando que tal "constituiu um aventureirismo que a sensatez prudentemente evitaria".

"Penso, no entanto, que, apesar destes aspetos negativos - que em nada são da minha responsabilidade - os portugueses não entenderiam uma não recandidatura do líder (...) Sinto que seria muito prejudicial para o partido e, principalmente, para Portugal, se o PSD mudasse de presidente, no justo momento em que o povo deu sinais visíveis de uma grande abertura para votar no PSD, iniciando uma clara inversão do atual ciclo político", afirmou.

Rio começou por recordar os resultados do partido nas recentes autárquicas, considerando que foram alcançados "contra quase tudo e quase todos".

"Ganhar as próximas eleições legislativas e substituir a governação socialista está, hoje, seguramente, bem mais perto de nós, como todo o partido e todo o país soube reconhecer. Compete-nos, agora, saber também aproveitar a dinâmica de vitória", defendeu, considerando que só falta ao PSD cumprir "a última etapa" que será "ganhar as eleições legislativas".

O líder do PSD reiterou que serão os militantes que "livremente devem escolher o seu presidente" e não as estruturas dirigentes nacionais ou locais.

"O PSD tem de ser um partido de homens e mulheres livres, não pode ser uma coutada seja de quem for, muito menos de quem, tantas vezes, se move essencialmente pela defesa do seu lugar pessoal", alertou.

Não está em causa escolha de "bom tribuno" ou de "eficaz angariador de votos partidário"

O presidente do PSD defendeu que nas próximas eleições diretas do partido se vai escolher "o próximo primeiro-ministro", deixando críticas implícitas ao seu adversário Paulo Rangel.

"Não estamos perante a escolha de um bom tribuno, nem de um eficaz angariador de votos partidários. Estamos perante a responsabilidade da escolha de alguém que tenha capacidade de resiliência, coerência de percurso, experiência e vocação executiva, e inequívocos atributos de liderança", afirmou Rui Rio.

Para Rio, "o que está verdadeiramente em causa é a escolha do principal governante de Portugal".

"De alguém que os portugueses reconheçam com o perfil adequado ao exercício do cargo que vai estar em disputa entre o Partido Social Democrata e o Partido Socialista", sublinhou.

Rio voltou a citar a máxima do fundador Francisco Sá Carneiro, "primeiro Portugal, depois o partido e por fim nós próprios"

"É com esta máxima e mente, e com o desejo de que o PSD saiba reencontrar a unidade interna que tantos têm procurado destruir, que resolvi voltar a candidatar-me a presidente do PSD", disse.

No final da sua intervenção de cerca de 15 minutos, Rio deixou críticas à governação socialista, apontando degradação "seja na economia, na saúde, na justiça, na energia", seja nos serviços públicos, considerando que tal exige "um PSD forte e credível".

"Um PSD diferente do PS e da sua persistente aliança à esquerda com partidos que chocam de frente com o modelo de sociedade social-democrata, e que só aspiram a alimentar as suas clientelas com mais despesa pública, que todos temos de pagar", criticou.

Rio reiterou a sua visão de "um PSD moderado, colocado no centro do espetro político nacional e com grande capacidade de diálogo".

"Um PSD virado para os portugueses e distante das pequenas lógicas partidárias ou da bolha político-mediática que vive de sondagens, que tudo comenta e analisa, mas que passa completamente ao lado dos reais problemas das pessoas", afirmou.

O presidente do PSD defendeu, para o país, um Governo "que não esteja agarrado ao PCP e ao Bloco de Esquerda e estagnado no tempo da luta de classes" e que entenda as empresas "não como opressoras dos trabalhadores", mas como entidades que criam emprego.

"Necessitamos de governantes que apoiem as pequenas e médias empresas, em vez de apoiarem as grandes sorvedoras de dinheiros públicos, às quais o PS está sempre pronto a nunca faltar com nada: seja sob a forma de injeções de impostos, como a TAP ou o Novo Banco, seja sob a modalidade de um encapotado perdão fiscal, como no recente caso da venda das barragens da EDP", criticou.

Como tem insistido em vários dos seus discursos, Rio defendeu que "o país precisa de um Governo e de uma maioria com coragem para reformar"

"Sem coragem e desprendimento pelo poder não há reformas, porque reformar implica arriscar. Implica pôr em causa interesses instalados que quem gere o sistema de que ele próprio vive, jamais tem condições de afrontar", disse.

Rui Rio foi eleito pela primeira vez presidente do PSD em 13 de janeiro de 2018 com 54% dos votos contra Santana Lopes e reeleito em 2020 com 53% numa inédita segunda volta contra Luís Montenegro.

Nas últimas diretas, no Porto (maior distrital do PSD), Rui Rio - que aqui foi presidente da Câmara durante 12 anos - conseguiu 64% dos votos contra Luís Montenegro na segunda volta.

Na apresentação, estão confirmadas as presenças do líder parlamentar, Adão Silva, do secretário-geral, José Silvano, dos vice-presidentes Isaura Morais e André Coelho Lima, dos vices da bancada Catarina Rocha Ferreira e Afonso Oliveira e dos deputados Maló de Abreu, Paulo Rios, Márcia Passos, Emília Cerqueira, Carlos Reis, Hugo Carvalho ou Carla Madureira.

O anúncio da recandidatura do atual presidente foi feito na terça-feira, através de um comunicado do seu vice-presidente e agora diretor de campanha Salvador Malheiro.

Um dia depois, no final de uma audiência com o Comité Olímpico de Portugal, na sede nacional em Lisboa, Rui Rio justificou a sua recandidatura pela "obrigação" de colocar o interesse do país e do partido à frente da sua vida pessoal.

Na ponderação de fatores, o presidente do PSD disse ter chegado à conclusão que "não era facilmente entendível pelos portugueses e pelos militantes" que dissesse "chega" neste momento.

"A maioria não entenderia e, de certa forma, exige-me, com alguma razão que esteja disponível para esse lugar", afirmou.

Questionado sobre uma alegada vantagem de Paulo Rangel, em termos de estruturas, Rio desvalorizou, dizendo que lhe era "completamente indiferente" essa contabilização.

"Quem vai decidir é o militante. Cada militante lá pensará e dirá gosto mais do A, gosto mais do B, gosto mais do C. Haverá alguns que não sabem e dirão 'diz-me lá em quem votas e eu voto também', mas a maioria são homens e mulheres livres que irão votar em função do que é melhor para o país e não em quem os mandam", afirmou.

Na quinta-feira, em Bruxelas, Paulo Rangel saudou o anúncio da recandidatura do presidente do partido por considerar ser "bom que haja alternativas democráticas" e "visões estratégicas que se confrontam no tempo certo".

"Reajo muito positivamente. Julgo que, para o PSD e para o país, é sempre bom que haja alternativas democráticas e, portanto, os militantes do PSD, que são militantes livres, agora em liberdade têm pelo menos duas - podem até aparecer mais - alternativas para escolher e isso acho que é muito positivo e saúdo muito o passo que vai ser dado", declarou Paulo Rangel.

E reforçou: "Saúdo mesmo com grande alegria democrática".

O PSD vai realizar eleições diretas para escolher o presidente no dia 4 de dezembro e o 39.º Congresso decorrerá entre 14 e 16 de janeiro, em Lisboa, e até agora apresentaram-se como candidatos Rui Rio e Paulo Rangel.

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