País

Conseguir visto para Portugal "é um negócio na Índia”

João Tiago

João Tiago

Jornalista

Luís Silva

Luís Silva

Repórter de Imagem

Alguns dos trabalhadores agrícolas provenientes do Sudeste Asiático chegam a pagar 10 mil euros para conseguirem procurar em Portugal uma vida melhor.

Na aldeia da Zambujeira do Mar, 18 pessoas partilham uma casa com cinco quartos. Num quarto, dois beliches acomodam quatro pessoas. Ao lado, uma antiga garagem mais dois. Enquanto, no primeiro andar, um casal com um filho tem direito a uma divisão própria, há ainda mais dois quartos, cujas portas não se abriram à SIC, onde dormem mais nove pessoas.

O indiano Lovedeep Singh é o titular do contrato de arrendamento. Recebe de cada trabalhador 130 euros mensais para pagar os 1.190 euros da renda contratada. O intermediário tenta explicar os mais de mil euros de diferença:

“Eu vivo em Portugal durante todo o ano. Tenho agora nestes dois pisos 18 pessoas que, daqui a uns temos, regressam à Índia ou ao Nepal ou ao Bangladesh. Como pagam agora mais do que custa a renda, eu, com esse dinheiro, consigo depois continuar a pagar a casa… pago todos os meses do ano”, contou à SIC.

O modelo, garante, serve para manter a casa, quando os trabalhadores sazonais regressam aos países de origem. É que, no Sudoeste Alentejano, faltam habitações disponíveis para albergar tantos trabalhadores sazonais.

“As pessoas vêm para cá trabalhar e, se não encontram espaço para viver, o que é que podemos fazer? Não temos alternativa.”

Apesar de Lovedeep Singh garantir ser intermediário apenas da casa em questão, a SIC apurou junto de senhorios que é titular de pelo menos mais dois contratos de arrendamento na aldeia.

Um deles diz respeito à casa onde Harmen Sekhon chegou há alguns meses. Divide o rés-do-chão de dois quartos com mais seis trabalhadores indianos. Cada um paga os mesmos 130€, até mesmo quando um oitavo morador dá entrada.

“Dormem duas pessoas nesta cama e aqui neste beliche outras duas", aponta, enquanto mostra as condições à equipa de reportagem da SIC.

No outro quarto, onde pouco mais cabe do que uma cama individual e outra de casal, dois moradores voltam a partilhar o leito. Harman não sente que a casa esteja sobrelotada. Na verdade, até confessa que se sentem "muito confortáveis porque são todos meus amigos, do nosso país e da nossa cidade, é como ter os meus irmãos a viver na minha casa.”

A noção de privilégio é reforçada por contar com uma rara sala em casa. Harman tem noção de que evita assim os contentores onde muitos trabalhadores acabam, por falta de opções.

A fiscalização às condições em que estes trabalhadores vivem no concelho de Odemira até tem aumentado. Há quatro meses, no Brejão, as autoridades ordenaram a retirada de barracas de plástico que albergavam alguns dos trabalhadores tailandeses. Esta quarta-feira estão cerca de seis por cada casa geminada numa antiga unidade de turismo rural reconvertida.

Há relatos de redes que exploram os canais migratórios que permitem à agricultura funcionar. E a isso Harman não escapou. Teve de reunir todo dinheiro da família para chegar a Portugal, há cerca cerca de nove meses.

"Paguei quase 10 mil euros para viajar para Portugal. É muito dinheiro. Cada agente cobra valores diferentes... 15 mil euros, 10 mil euros, oito mil euros… [conseguir visto para Portugal] é um negócio na Índia.”, relata.

O jovem indiano confessa não compreender bem esse negócio, mas também diz que não quer compreender. Agora que aqui está, está focado em devolver o dinheiro emprestado pela família. Com os cerca de 700 a 800 euros que ganha por mês a colher framboesas, gasta "quase 130 euros pela casa e cerca de 100 euros em compras de supermercado e o resto envio para a família”. São 400 euros por mês, o dobro de um salário na Índia. A este ritmo, precisará de dois anos para saldar a dívida. E diz-se feliz com essa perspetiva.

Afinal está onde quer, a trabalhar, alimentando o sonho de um dia, quem sabe, vir a ter direito a residência permanente.