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Blogue Direita Política defende combate às Fake News

Luís Manso

Luís Manso

Jornalista

Um dos espaços com maior destaque nas redes sociais é o Direita Política. Tem um blogue e tem no Facebook dezenas de milhar de seguidores. Usa argumentos, a partir do que salta da atualidade, para criticar a esquerda. Chegou a partilhar a notícia falsa, do suposto relógio milionário de Catarina Martins. A publicação acabou por ser apagada, assim que se descobriu que se tratava de uma Fake News. À SIC, por email, Beatriz Sousa, uma das responsáveis pelo blogue assegura que este é um espaço de verdade: "Jamais produzimos ou queremos contribuir para as Fake News em Portugal", garante.

O Direita Política esteve no centro da polémica, aquando da disseminação da imagem do suposto relógio de 20 milhões de euros, identificado, erradamente, no braço de Catarina Martins, do Bloco de Esquerda.

O site foi criado em 2008, por João Fernandes, responsável por uma loja informática. Quatro anos depois, cedeu o espaço a outros, também interessados em política, na defesa do que entendem ser a resposta da direita, aos problemas do país. São vários, os que que aqui colaboram, entre textos e partilhas.

O caso do relógio surge de uma experiência, pensada por um gestor, de 61 anos. Manuel Vilarinho Pires usou um simples programa de edição de imagem para montar uma fotografia assente numa mentira. Ao Diário de Notícias, o gestor diz que, com isto, quis "mostrar às pessoas que acreditam em boatos que é fácil enganá-las". Longe de pensar que a fotomontagem se ia disseminar e chegar a capa de jornal. De acordo com este jornal, Vilarinho Pires é um militante do PSD que não se revê neste tipo de ataque. "É uma ameaça à democracia", diz.

Nas respostas enviadas por email à SIC, o Direita Política assume o erro. Assume que é um erro espalhar as fake news, porque é na verdade que se deve trilhar o caminho dos argumentos. "Não se pode é criar nas pessoas a ideia de que as Fake News são obra da direita e que a esquerda é santa e imaculada", esclarece Beatriz Sousa.

SIC: Quando surgiu, em que contexto e o que motivou os projetos onde colabora?

Beatriz Sousa - Direita Política: Desde há vários anos que escrevo sobre política e outros assuntos nas redes sociais. Os convites vão sempre surgindo de várias páginas e blogues sendo que por motivos familiares e profissionais posso escrever com maior ou menor assiduidade. Participo no Direita Política da mesma forma que participo noutros blogues, de forma descontraída, sem prazos e com satisfação pessoal.

Quais os projetos e que linha política defendem?

O Direita Política é um site tipo blogue que é atualizado diariamente, contando com a colaboração de várias pessoas, ou bloguers se assim quiser chamar.

No Direita Política temos como objetivo a defesa dos políticos de direita e a denúncia sobre o que, na nossa opinião, está de errado nos partidos de esquerda e especialmente nesta governação à esquerda.

A esmagadora maioria dos nossos artigos são de comentário e outra parte divulgamos os alegados atos de corrupção que previamente saem na comunicação social. Infelizmente, nem eu nem praticamente todos os bloguers do país têm informação antecipada ou privilegiada. Não somos profissionais.

Que papel tem os espaços digitais e as redes sociais no debate social e político?

Tendo em conta que uma grande parte da população usa a internet, os blogues e redes sociais têm muita importância na vida das pessoas. Mas na minha opinião isso não altera as suas raízes.

Se uma pessoa é do partido A não vai deixar de o ser por causa da internet, se uma pessoa é do Benfica, não vai deixar de ser por causa do caso dos emails. Se influencia? Acho que sim e acho que a internet pode ajudar a clarificar muitos assuntos. Da mesma forma que a comunicação social.

Existe uma filtragem de conteúdos?

Temos uma equipa de 16 moderadores neste momento embora isso varie sempre com o tempo, saem uns e entram outros.

Temos um grupo no facebook onde conversamos regularmente sobre os assuntos do blogue, sobre o que está bem e o que está mal. E alguns desses moderadores são muito rigorosos com os conteúdos apagando ou alterando por diversas vezes imagens ou textos que verifiquem que alguém da equipa inseriu ou partilhou algo que não seja correcto. E sem aviso prévio.

Há inclusive um moderador que usa muitas vezes a frase “não somos a esquerda, aqui não vale tudo”. O maior problema para a filtragem de conteúdos é o de termos por vezes muitas pessoas a inserir e a partilhar conteúdos e quem participa no blogue há mais anos não ter tempo tempo suficiente para rever e moderar os conteúdos.

As Fake News são uma realidade nas redes sociais. Tem tido um papel preponderante em algumas recentes eleições. Que papel podem ter nas próximas legislativas?

Na minha opinião as fake news não terão grande relevância nas próximas legislativas. Estamos consideravelmente, e felizmente, longe da realidade dos EUA e do Brasil, onde as fake news estão presentes todo o tempo, e existem em todos os quadrantes políticos.

Em Portugal seria bom não extremar posições, na esquerda e na direita, para que cada vez menos existam invenções, seja na internet ou na comunicação social. Acho que sairíamos todos a ganhar com isso.

Produzem ou contribuem, de alguma forma, para as Fake News em Portugal?

Jamais produzimos ou queremos contribuir para as Fake News em Portugal. Nunca criamos imagens, artigos ou notícias falsas e se em alguma ocasião partilhamos algo que não responde à verdade e algum moderador é alertado para esse facto, o conteúdo é apagado sem aviso prévio a quem partilhou.

Da mesma forma que os jornais ditos tradicionais, também erram por vezes e assumem esse erro. E muito bem.

A polémica com o falso relógio da deputada do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, acabou por realçar a influencia das Fake News, disseminada em alguns espaços online de direita. Como explica este caso e de que forma pode ou não ser aceite?

O caso do falso relógio da deputada Catarina Martins não pode ser aceite de nenhuma forma. Julgo que todas as páginas que partilharam a imagem a apagaram assim que o erro foi detectado.

Não se pode é criar nas pessoas a ideia de que as Fake News são obra da direita e que a esquerda é santa e imaculada. Basta lembrar a imagem de Cavaco Silva com um cartão da pide, com o seu nome e foto. Foi produzida por alguém da esquerda para denegrir a sua imagem e não vimos ninguém a ficar escandalizado. E nem foi apagada sequer, circula há anos nas redes sociais.

Se queremos um debate sério sobre fake news então temos de ser todos honestos. As fake news não são nem de direita, nem de esquerda, nem da internet, nem da comunicação social. São de todos.

Sendo verdade que esta Fake News acabou por circular em sites e redes sociais de direita. Como comenta?

O autor da imagem, que julgo ser de direita já veio explicar o caso e segundo as suas palavras terá criado a imagem inclusive para provar que conseguia criar uma fake news com facilidade e chamar a atenção para a facilidade de enganar as pessoas.

O que aconteceu é que a maior parte das pessoas sempre que vê Catarina Martins associa-a à actual solução governativa, que para a direita, foi uma jogada de bastidores entre três partidos derrotados nas legislativas de 2015 e não se preocuparam em verificar a sua veracidade.

No entanto ao contrário da esquerda, assim que o erro foi detectado, toda a gente condenou a imagem e a apagou. Julgo que já não se encontra a imagem em mais lado nenhum.

Como explica um aparente sucesso das Fake News?

Hoje em dia as pessoas acabam por não se preocupar com a veracidade da informação que lêem. O que querem é sobretudo uma boa história e especialmente um bom escândalo. Veja-se quais são as notícias do dia mais vistas nos canais de televisão.

Proponho até fazer uma experiência, lançar uma notícia sobre uma descoberta magnífica na área da ciência e a seguir lançar uma mentira sobre o Ronaldo. Qual é que teria mais audiências? As fake news têm um sucesso aparente mas na minha opinião o sucesso é garantido pelas histórias sensacionalistas.

Que papel pode ter, cada vez mais, os meios digitais alternativos na informação dos portugueses?

Na minha opinião os jornalistas profissionais têm de estar no topo da informação, sempre. Mas é indesmentível que os blogues têm desde há vários anos um papel de muito relevo. Fomentar uma guerra entre a comunicação social e a internet não é benéfico para ninguém.

A internet e os blogues vão ter cada vez mais importância e o ideal será haver um clima de paz e respeito mútuo entre ambas as partes, mesmo que não se concorde por algumas vezes com os conteúdos.

Muitos jornalistas podem pensar que os blogues estão a tirar trabalho ou relevância à comunicação social tradicional mas não esse o objectivo dos bloguers. Os blogues já existem há mais de 15 anos e as redes sociais há mais de 10, é preciso saber conviver com tudo.

Que futuro vê para Portugal nos próximos 10 anos?

O futuro de Portugal nos próximos 10 anos dependerá muito do que a actual oposição fizer. Se por um lado sabemos bem com o que podemos contar relativamente aos partidos que apoiam o governo ainda não sabemos bem com o que contar relativamente à oposição.

Quem diria há 10 anos atrás que 10 anos depois o PS iria levar o país à bancarrota e apenas 4 anos depois ia voltar a ser governo com as mesmas pessoas pessoas no comando?

Quem diria que os partidos mais à esquerda da assembleia da república iam aceitar tão facilmente uma política austera e pró-Europa depois de tantos anos com uma narrativa anti-austeridade e anti-europa?

É difícil prever como estará Portugal nos próximos 10 anos mas os sinais e os indicadores não são favoráveis na minha opinião.

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