Opinião

Para redescobrirmos Orson Welles

Orson Welles e Charlton Heston em "A Sede do Mal" (1958)

Oito décadas passadas sobre o lançamento de “O Mundo a Seus Pés”, Welles continua a ser uma referência moderna, quer dizer, actual e surpreendente.

Recentemente assinalados, os 80 anos do filme “Citizen Kane” (1941), primeira longa-metragem de Orson Welles (1915-1985), não podem deixar de suscitar um paralelismo com “Mank” (Netflix), o filme de David Fincher sob os seus bastidores. Mais exactamente, “Mank” recria a figura de Herman J. Mankiewicz, argumentista de “Citizen Kane” — e fá-lo com um espírito cinéfilo, dando a ver o cinema como resultado de uma complexa estrutura de produção.

Entre nós consagrado como “O Mundo a Seus Pés”, “Citizen Kane” é, de facto, um objecto genuinamente experimental. Aspectos como a construção não linear, em ziguezague temporal, ou a exploração da profundidade de campo das imagens, fazem da história do magnate da imprensa Charles Foster Kane (interpretado pelo próprio Welles) um conto moral exemplar sobre a construção da identidade humana.

Ora, de todos os clássicos que ajudaram a consolidar o cinema como uma linguagem específica, Welles é, talvez, dos que, mais do que nunca, importa redescobrir. Lembremos, por exemplo, as suas extraordinárias variações sobre Shakespeare, incluindo “Otelo” (1951) e “As Badaladas da meia-Noite” (1965). Ou a sua fulgurante reinvenção do clássico “thriller” policial em “A Sede do Mal” (1958). Ou ainda a incrível recriação de Kafka em “O Processo” (1962) [trailer].

Com uma criatividade em grande parte enraizada na sua experiência teatral, Welles é, na história global do cinema, um dos autores que mais e melhor soube integrar a herança do teatro, transfigurando-a em realidade cinematográfica. Rever os seus filmes não é, por isso, uma mera viagem nostálgica: as suas histórias, a maneira como ele as conta, evitando clichés e determinismos, possuem uma dimensão eminentemente moderna. Assim os filmes circulem.

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