Opinião

O bicho homem em quatro episódios

Gostava muito de partilhar o otimismo de Attenborough e de Bregman. Mas depois há episódios como o da Superliga. Ou o das vacinas concentradas no hemisfério Norte. E a esperança esvai-se. Como as superfícies geladas do Ártico no verão.

Episódio 1:

Durou pouco mais de 48 horas a (infeliz) ideia que 12 clubes tiveram de dividir o mundo do futebol entre eles (os ricos e poderosos) e todos os outros, criando uma competição europeia de elite. A Superliga é um nado morto. UEFA e FIFA puseram os pés à parede, o mundo político também (a começar em Boris Johnson, cuja oposição foi fundamental para os seis clubes da Liga Inglesa na origem do projeto serem os primeiros a deixá-lo cair) e pronto. O futebol profissional é um mundo bipolar (no sentido literal, não no psiquiátrico), que tanto é capaz de produzir momentos sublimes de superação e união como outros de ganância e egoísmo capazes de fazer envergonhar os postes das balizas.

Episódio 2:

A Organização Mundial da Saúde divulgou esta segunda-feira os números da vacinação mundial contra a covid-19. Segundo o diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, apenas uma em cada 500 pessoas foi vacinada contra a covid-19 nos países pobres, enquanto nos ricos uma em cada quatro já está parcial ou totalmente imunizada. Dito de outra maneira: a Covax (o mecanismo criado pela OMS para a distribuição de vacinas nos países de menores rendimentos) só distribuiu 39 milhões de doses em 114 países; só nos EUA já foram administradas 210 milhões enquanto no Reino Unido já foram vacinadas 42,8 milhões de pessoas. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou esta quarta-feira, num discurso (na abertura da cimeira ibero-americana) em que criticou os nacionalismos nesta matéria e apelou ao reforço financeiro da Covax, que o mundo está perante "a maior prova moral de sempre".

Episódio 3:

Este fim de semana vi finalmente o documentário “Uma vida no nosso planeta”, que David Attenborough lançou há exatamente um ano com o objetivo de chamar a atenção para o estado do planeta e para o desfecho que - tão certinho como o nascer (ou o por) do sol – nos aguarda se nada fizermos para estancar e reverter a destruição causada pelo “desenvolvimento” da Humanidade. O documentário termina de modo muito positivo, com uma comovente esperança e fé na Humanidade. Pode ser que os decisores políticos que se reúnem amanhã e depois em Glasgow, para mais uma cimeira do clima (esta promovida por Joe Biden, empenhado em percorrer em sentido inverso o caminho do seu antecessor na Casa Branca também no que respeita às alterações climáticas) tenham visto o documentário.

Episódio 4:

Vi também uma reportagem do programa "60 minutos" sobre a história de seis rapazes adolescentes da ilha de Tonga, no Pacífico, que em 1965 se perderam no mar alto e acabaram por ir dar a uma ilha deserta onde (sobre)viveram durante 15 meses, até serem encontrados. Ao contrário do que sucede na ficção de William Golding "O Deus das Moscas", os miúdos mantiveram-se unidos na adversidade e conseguiram mesmo não se matar uns aos outros. O historiador holandês Rutger Bregman, quando deu com a história, sentiu-se inspirado ao ponto de escrever um livro intitulado "Humankind, a hopeful history" ("Género Humano, uma história esperançosa" - em tradução livre). Diz o académico: "Durante séculos a cultura ocidental alimentou a ideia de que os seres humanos são criaturas egoístas. Esta imagem cínica da humanidade foi proclamada em filmes e romances, livros de História e investigações científicas. Mas nos últimos 20 anos algo extraordinário aconteceu: cientistas de todo o mundo mudaram para uma perspetiva mais esperançosa do Homem". A aventura com final feliz dos rapazes de Tonga deu a Bregman a firme convicção de que essa é a perspetiva certa.

Epílogo.

Gostava muito de partilhar o otimismo de Attenborough e de Bregman. Mas depois há episódios como o da Superliga. Ou o das vacinas concentradas no hemisfério Norte. E a esperança esvai-se. Como as superfícies geladas do Ártico no verão.