Opinião

A pandemia vai acabar com o dinheiro

Esta história acaba aqui ?

Foto Roman Synkevych, Unsplash

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

O título só pode ser considerado uma pequena provocação porque não coloquei um ponto de interrogação no fim. Como reflexão faz todo o sentido e pode vir a ser uma realidade.

Caiu aqui um daqueles estudos que chegam com frequência às caixas de correio electrónico dos jornalistas. Desta vez o EUROPEAN PAYMENT REPORT 2020 da multinacional Intrum de Serviços de Gestão de Crédito.

Nele se afirma que 48% dos portugueses acreditam que o dinheiro físico, moedas e notas, vai desaparecer em 5 anos. Um aumento de 200%,desde 2019, gerado obviamente pelo aumento também do uso de meios eletrónicos, não só porque estão disponíveis, mas porque têm medo de mexer em notas e passar moedas de mão em mão. Até somos conservadores, a média europeia é de 57% de cidadãos que acreditam que vamos largar o porta moedas.

Eu quase abandonei o dinheiro físico assim que pude. Até os cafés aqui na SIC pago com MB Way com um pequeno truque, compro senhas para muitos dias de uma só vez. Na mercearia onde vou uso QR codes e quase só na farmácia me vejo ainda obrigado a usar o cartão de plástico no terminal de pagamento. Muito de vez em quando, levanto 40 ou 60 euros para o caso… mesmo muito de vez em quando, algumas notas passam meses na minha carteira.

Há uns bons anos, por ter uns trocos que queria gastar, saiu-me o que deve ter sido a piada mais falhada da minha vida. Cheguei ao balcão do café na SIC, ainda em Carnaxide, e, ao pagar, perguntei a uma rapariga nova do outro lado do balcão se ainda aceitavam “aquilo” referindo-me às moedas que estava a depositar ao lado da chávena do café. Claro que ela me ignorou, tendo educadamente preferido essa atitude a dizer o que lhe passava pela cabeça e que seria ainda menos elogioso.

Independentemente do estudo agora publicado, até acredito que se o fizesse hoje seria compreendido, sem provocar propriamente risos. Muitos dos que nos governam têm a intenção de acabar mesmo com o dinheiro físico, e já a tinham muito antes da pandemia.

Ao contrário da fama, o dinheiro físico é a forma mais insegura de fazer pagamentos e sobretudo de transportar. Uma vez que mude de mãos não há como o detectar. Se alguém tiver as minhas notas na sua carteira e muito sangue frio, não tenho forma de provar que fui roubado por aquela pessoa. Uma vez que ande aí à solta não há como o seguir. A forma de rastrear transações ilícitas em dinheiro passa sobretudo pelos registros de contas bancárias. Daí a importância do segredo bancário e a possibilidade de o quebrar em nome da lei. Além do nosso conforto e segurança, a razão porque os Estados pretendem, e ao mesmo tempo hesitam, acabar com o dinheiro físico é porque será muito mais fácil seguir todos os percursos, transações, desvios e receber os devidos impostos.

Todos somos livres de fazer asneiras, e são feitas aos milhares todos os dias, mas o uso consciente de transações em dinheiro eletrónico é muito mais seguro.

A moda de investir em moedas virtuais de pequenos e grandes investidores contribui para banalizar a ideia

A moda de investir em moedas virtuais de pequenos e grandes investidores contribui para banalizar a ideia

Foto Thought Catalog, Unsplash

Uma das razões do sucesso de criptomoedas é a crença de que todas as transações legais ou ilegais são possíveis, e livres de impostos.

Não querendo um Estado todo poderoso, que possa ir à minha conta bancária levantar o dinheiro de uma multa, como parece que já acontece em alguns casos na China, não me agrada também que estas moedas possam criar mais uma forma de os ricos fugirem aos impostos, continuando a usar as estradas e os serviços públicos que todos os outros pagam.

Duvido muito que a moeda que o Facebook queria fazer, que já passava por um autêntico banco central privado, possa algum dia avançar. Os mais poderosos estados bateram o pé a tempo. As criptomoedas oferecem as tecnologias para que cada passagem de mãos seja registrada e transmitida passo a passo, segundo a segundo. Ainda esta semana, face ao óbvio aumento de transações e investidores nacionais em Bitcoin e noutras moedas virtuais, o Banco de Portugal emitiu um aviso de que não há qualquer tipo de proteção ou garantia legal em relação a estes investimentos, e que a maioria das entidades envolvidas estão fora da sua jurisdição. Para já, são pouco mais do que formas de investimento especulativo, ninguém tem que aceitar pagamentos com estes meios. Mas estão na moda, e os muitos dos pequenos investidores vão querer algum grau de regulação que lhes traga mais confiança. A raiz, Blockchain, é capaz de manter uma criptomoeda de forma anónima mas pode também fazer o registo seguro das nossas transações e identificar os intervenientes. Pode fazer com que os Estados adotem o sistema pelas razões opostas às que pretendiam muitos dos criadores. A pandemia ainda vai contribuir para fazer de nós perfeitos pagadores.

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