Opinião

Mais ricos com legendas

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

The Undoing, Losing Alice, Lupin e The Queen Gambit. O que estas séries têm em comum e a importância da legendagem na globalização da cultura.

A edição desta semana da Time comete quase um sacrilégio. Começa por dizer qualquer coisa como “Esqueçam The Undoing, o melhor thriller sobre um casamento em muitos anos é o Losing Alice” (desculpem o anglicismo dos títulos, mas é assim que os conheço, não foram traduzidos para português porque não precisam).

Ora, The Undoing é uma série muito bem feita (sobretudo os dois primeiros episódios, depois para mim começa a escorregar um bocadinho) do fantástico David E. Kelley e com um naipe de atores impressionante, encabeçado por Nicole Kidman e Hugh Grant. Por cá pode ser vista na HBO.

Losing Alice conta com as belíssimas e excelentes atrizes Ayelet Zurer, Lihi Kornowski e no papel do inevitável e cobiçado marido com Gal Toren. Não lhe diz nada, não admira, mesmo que Ayelet Zurer seja uma das maiores estrelas de Israel e tenha participado em filmes de Steven Spielberg, tem um fantástico papel nesta série da Apple TV+.

Lihi Kornowski em “Losing Alice”

Lihi Kornowski em “Losing Alice”

Apple TV+

Os nomes desta nova e rica onda de séries israelita ainda não nos são familiares e está a ser mesmo muito difícil seguir as maravilhas que surgem nos nossos ecrãs. Escrever que uma série israelita é melhor que uma muito boa série americana é quase tão grave como dar o Óscar de melhor filme a um coreano, como aconteceu com Parasitas, em 2020.

A dificuldade de seguir tudo não vem só da multiplicação das plataformas, já escrevi sobre esse difícil problema de primeiro mundo que é a escolha entre Netflix, HBO, Apple, Filmin, etc.

Hoje apetece-me falar da globalização da cultura. Nunca se investiu tanto dinheiro em produção como desde que há uma guerra entre as Amazon e as Netflix pelos nossos muitos ecrãs, grandes e pequenos. A Time reconhece que Losing Alice não tem o lugar de destaque que merecia nos EUA, mas aponta Lupin, série francesa com um imigrante senegalês a reinventar as aventuras do cavalheiro/ladrão Arsène Lupin, como estando prestes a ultrapassar The Queen Gambit em número de espectadores.

O que estas séries têm em comum é que estão a reintroduzir a legendagem nos hábitos até dos utilizadores anglófonos, para poderem ser vistas no original, embora possam escolher a dobragem, que está disponível. Eu sempre fui contra a dobragem de filmes e séries, a não ser para crianças muito pequenas que não podem de todo acompanhar as legendas.

Antes de continuar, confesso que já dei uma perninha na dobragem de um filme de animação e é divertidíssimo. Mas, por princípio, dobrar tudo pode até ajudar ao emprego dos atores, mas lamento, é um desvirtuar da obra. Mais, contribui para a nossa iliteracia.

O que eu queria quando comecei a ler era fazê-lo suficientemente depressa para acompanhar as legendas das séries que via a preto e branco, só ao fim de semana, em casa do meu avô. Claro que contribuiu para melhorar as minhas capacidades para usufruir de livros impressos. Por outro lado, termos a abertura de ver as obras no original, além de respeitar o trabalho dos atores, abre os olhos e os ouvidos para outras culturas.

Sempre se disse que os portugueses tinham queda para as línguas, não sei se é bem verdade, mas temos ouvido e acho que boa parte disso vem de vermos filmes e séries com legendas e não dobrados, como por exemplo em Espanha ou França. A globalização - e com ela a possibilidade de assistirmos na sala ou no telemóvel ao que de melhor se faz em Espanha (quem não viu A Casa de Papel veja pelo menos El Embarcadero, que é bem melhor), em França, na Rússia (têm mesmo boas séries) na Coreia do Sul ou em Israel - é dos mais impressionantes feitos culturais da tecnologia.

Eu gosto de filmes e séries americanas, não vejam aqui nenhuma ideologia fanática. Mas qualquer hegemonia é prejudicial e nunca pensei que gigantes do capitalismo, como a Netflix, viessem a contribuir para o fim da hegemonia de Hollywood e verdadeiramente para uma cultura mais global. Parece que temos fortes indícios disso, ainda bem.

P.S.: já agora, com toda esta multiculturalidade não posso deixar de referir uma série… americana. Está discretamente na Apple TV a série Little America. São histórias felizes e contadas em meia hora de pessoas que, sendo estrangeiros, contribuem para fazer dos EUA o que são. Até o título é bilíngue, sendo que a segunda língua muda de episódio para episódio e boa parte do enredo passa-se, por regra, na língua original do ou da protagonista, diferente a cada história. É divertido, bem disposto e muitos americanos (ou talvez todos os xenófobos, em todos os países) deviam ser obrigados a ver a série completa para perceberem como aquele país cresce com o contributo da cultura dos outros.

Apple TV+

  • 2:33