Opinião

A iliteracia digital da autoridade

Atualizar o necessário por favor.

Fotografia, Markus Winkler on Unsplash

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Uma das razões porque o Estado pretende acabar com as transações em dinheiro e eventualmente com o dinheiro físico é para combater a fraude. Não é para nossa comodidade, embora isso deva contar. É para combater a fraude porque o dinheiro físico não é passível de seguimento, as notas são em geral anónimas, e também porque é incrivelmente mais barato atender e cobrar tudo e mais alguma coisa aos contribuintes online, que com balcões físicos.

Não aderindo a teorias da conspiração quanto ao seguimento do dinheiro, e sendo naturalmente comodista, espero que o Estado pelo menos me facilite os meus deveres sobretudo quando o próprio Estado ganha com isso. Acresce que o dinheiro digital, se assim lhe posso chamar, é muito mais seguro que o dinheiro físico. Precisamente porque lhe podemos seguir o rasto.

Ora esta semana fomos surpreendidos com declarações impressionantes por parte da PSP. Se formos multados por violar o confinamento temos que pagar em dinheiro vivo. De tal forma, que se não dispusermos da devida quantia, podemos ser acompanhados por um agente da PSP ou GNR até um Multibanco próximo.

Eu, por exemplo, evito andar com mais de 20 ou 40 Euros no bolso, por vezes não tenho nada embora, porque posso sempre precisar, tento andar com uma reserva, mínima. Passo semanas, senão meses, sem tocar numa moeda ou numa nota. Alegam que os os terminais Multibanco de que de facto dispõem só estão preparados para receber multas de trânsito. E quem paga depois tem que pagar custos acrescidos.

A entidade que passa a multa é que devia dar desconto pela inépcia dos serviços, sim, porque é um serviço que estão a prestar à comunidade.

Nem sequer adianta tentar fazer transferência bancária no telemóvel do próprio multado, os agentes precisam de um papelinho, isso mesmo, precisam de um papel físico como comprovativo do pagamento imediato. É anacrónico e presta-se à fraude, lamento mas é a verdade.

Ainda por cima, o problema não está nos terminais que são indiferentes ao tipo de transação mas, mais provavelmente, não têm contas bancárias e os devidos procedimentos para o recebimento adequadas à situação contratados. Para os bancos até deve ser um bom negócio.

Já a obrigatoriedade de andar com um comprovativo de morada, como um pagamento de água ou electricidade, para passeios higiénicos é caricata. Espero sinceramente que não precisem também do papelinho, porque eu recebo as minhas faturas em formato electrónico.

Quero acreditar que, se as mostrar no meu telemóvel a um agente de autoridade, este terá o bom senso de aceitar. Como estamos em época de crise, que justifica algumas restrições excepcionais, nem vou estar a contestar a duvidosa obrigatoriedade de transportar um comprovativo de morada.

Espero que estas instituições saibam também que o Cartão de Cidadão tem a morada, e que esta até pode ser lida pelos aparelhos das autoridades sem consentimento expresso. Mas era preciso que tivessem os meios para isso...

  • 2:33