Opinião

Na morte de Phil Spector

Helen Mirren e Al Pacino em "Phil Spector": um filme sobre a linha ténue entre factos e ficção

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Lendária figura da música popular, Phil Spector viveu os últimos anos na prisão, condenado pelo assassinato da actriz Lana Clarkson — em 2013, David Mamet realizou sobre um ele um magnífico filme marcado pelas ilusões e desilusões da fama.

Ao tomar conhecimento da morte do músico e produtor musical Phil Spector (no dia 16 de janeiro, contava 81 anos), não pude deixar de supor que o seu nome poderá ser muito recordado ao longo deste ano.

De facto, depois de um adiamento imposto pela pandemia, Peter Jackson deverá lançar em 2021 o documentário “The Beatles: Get Back”, construído a partir do imenso material (56 horas!) que sobrou da rodagem de um outro filme, “Let It Be” (1970), de Michael Lindsay Hogg, sobre as gravações do álbum homónimo, o derradeiro do quarteto de Liverpool. Ora, “Let It Be”, o álbum, foi remisturado por Spector, com resultados que fizeram história durante décadas, mas que não agradaram aos Beatles, em particular a Paul McCartney… Foi isso, aliás, que justificou a edição de “Let It Be… Naked” (2003), ou seja, o álbum devolvido às suas misturas originais.

Para lá da singularidade dos arranjos de Spector e do seu génio experimental — consagrado na expressão “Wall of Sound”, para definir a energia “sinfónica” das suas manipulações —, ele foi uma figura eminentemente trágica: como todos os obituários recordaram, estava preso, condenado em 2009 pelo assassinato da actriz Lana Clarkson, em 2003.

Em boa verdade, as décadas finais da vida de Spector nada têm a ver com a criação musical, uma vez que se foi afastando da indústria e do mercado depois do período de glória de 1960-70 — um dos seus derradeiros trabalhos seria a produção de “Menlove Ave.”, álbum póstumo de John Lennon, lançado em 1986.

Sobre o seu julgamento, vale a pena recordar um magnífico filme: uma elaboração ficcional a partir de dados documentais, com produção da HBO. Lançado em 2013, com argumento e realização de David Mamet, intitula-se “Phil Spector” e, como o próprio Mamet explicou, tratou-se de colocar em cena o contraste brutal entre uma figura mitológica e o seu envolvimento num dramático processo de julgamento.

O essencial do filme de Mamet tem a ver com as relações de Spector com a sua advogada, Linda Kenney Baden, personagens interpretadas, respectivamente, por Al Pacino e Helen Mirren. Sem menosprezar os sinais mais desconcertantes da figura pública de Spector (a começar pela exuberância caricatural das suas cabeleiras), Mamet fez um filme sobre a linha ténue que separa os factos da ficção e, por fim, as ilusões e desilusões da fama [trailer]. É, nesse aspecto, um trabalho próximo de vários títulos da sua obra teatral e cinematográfica, nomeadamente “Oleanna”, a peça que publicou em 1992 e filmou em 1994.

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