Opinião

A história de um campeão 

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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Comentador SIC Notícias

Não sei se já ouviram falar do Jorge Pina, mas se a resposta é negativa, então aconselho a que leiam um pouco da história de vida deste verdadeiro campeão.

O Jorge nasceu em 1976, dono de todas as faculdades. Viveu e cresceu num bairro social, que o próprio recorda como uma fase difícil mas muito importante da sua vida.

Sem pudores e de forma tranquila, assume que era um jovem irreverente e que experimentou um pouco de tudo. Um pouco de tudo o que era mau e um pouco de tudo o que era muito mau.

Aos 11 ingressou no boxe, a sua paixão de sempre. Queria ser o novo Muhammad Ali. Queria e tentou. Tentou muito. Tentou sempre.

Comprometido, raçudo e obstinado, foi vencendo combate atrás de combate, foi somando vitórias atrás de vitória.

Representou o Sporting CP durante sete anos, tornando-se Campeão Regional e Nacional pelo clube. Venceu duas vezes o título individual de melhor do país (1997 e 1998) e a Taça de Portugal.

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Certa altura foi a Madrid disputar o título de Campeão Ibérico com o N1 espanhol. Fez um combate que apelidou de "quase perfeito". Pensava que ia ganhar, mas perdeu.

Ficou marcado. Ficou triste, revoltado, magoado. Sentiu-se traído. Mais tarde, quando lhe contaram que o adversário que o derrotara tinha entretanto terminado a carreira de forma prematura (corria o risco de cegar) revelou que não ficou triste. Ainda estava magoado, a pensar com o coração, a sentir o saber da injustiça.

Hoje revela, com uma leveza inacreditável, que - por causa disso ou não - a vida pregou-lhe uma enorme partida.

Em 2004, quando se preparava para o Mundial, lesionou-se com gravidade num treino. Ficou totalmente cego do olho esquerdo e quase cego do direito (vê apenas 10%). Fez várias cirurgias que de nada valeram. Diz, a sorrir, que de cada vez que fazia uma operação, via menos e menos. Cada tentativa de o curar, adoecia-o.

Quando recebeu a má notícia, a notícia que nunca mais recuperaria a visão e que a sua vida ia mudar drasticamente, perguntou apenas: "Posso correr?"

Os médicos, surpreendidos, responderam que sim. Disse e fez.Quando teve alta, foi diretamente para o Estádio Universitário de Lisboa, com objetivos renovados. Se não podia combater, queria vencer a correr.

O Jorge correu, correu e correu.

Correu tanto que, pouco depois, conseguiu os mínimos para os Jogos Paralímpicos de Pequim (2008) e depois para os de Londres (2012) e do Rio de Janeiro (2016). Pelo meio, muito treino, muita competição, tantas vitórias.

Para ir à Maratona (para)olímpica, tinha que fazer como tempo 3H20. Fez 2H50.

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Atualmente, com 45 anos, está a treinar para as Olimpíadas do Japão. Não pára, não desiste e não enfraquece. É um homem generoso, de fé (inabalável) e muito resolvido. É mesmo feliz. Tem um sorriso constante e genuíno. Contagiante.

Não é apenas impressionante, é inspirador. Avassalador até.

O Jorge diz que só começou a ver quando ficou cego. Que só começou a ganhar quando perdeu.

Conheço muita gente capaz, muita gente talentosa e muita gente boa... mas não conheço ninguém com a força, generosidade e atitude deste rapaz. É um caso à parte.

A "Associação Jorge Pina", que fundou em tempos para tirar jovens da rua (pela via do desporto) é apenas mais uma das muitas áreas em que intervém ativamente na sociedade. Para lá disso, é Embaixador da Ética Desportiva (PNED), conferencista, atleta de alta competição e ainda filho, marido e pai de duas meninas lindas de morrer.

O Jorge é um campeão, não pelas vitórias e pelos títulos que não pára de conquistar, mas pelos valores que transmite, pelo ser humano que é.

Um exemplo vivo de tudo o que de melhor existe na vida e no desporto.

#respect

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