Opinião

D10S na Terra, D10S no Céu

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José Manuel Freitas

José Manuel Freitas

Comentador SIC Notícias

Às terças e sextas o futebol marca presença maioritária no Match Point, mas o Desporto em geral terá sempre aqui o seu espaço. Na escrita de José Manuel Freitas.

O lado mais belo, criativo, eloquente e excessivo do futebol morreu na quarta-feira. Porque Diego Armando Maradona, aquele que é para muitos (incluo-me nesse gigantesco grupo), até que o Mundo dê a volta, o mais fantástico futebolista de sempre, não pôde contar, como sempre contou, com o seu generoso coração – que ele tantas vezes tão mal tratou – para prosseguir na Terra a missão que lhe foi confiada pelos deuses: continuar a ser genial, mesmo que fosse apenas com um sorriso.

D10S foi excessivo em tudo. Como futebolista, felizes daqueles que tiveram a felicidade de o poder ver jogar, pois daquele pé esquerdo saíram alguns dos mais belos poemas que se puderam escrever… com uma bola; mas as gerações que não puderam deliciar-se com o prazer do jogo em cima da hora têm à sua disposição material em profusão para as alegrar horas a fio.

Foi excessivo, igualmente, na forma como não pode servir de exemplo a quem tem o futebol de alta competição por desígnio. Levado por outros, pois sozinho era humilde de mais para o fazer, encontrou os perigosos caminhos da droga, dessa maldita cocaína que tantas vítimas continua a fazer e quantas famílias continua a destruir; porém, D10S jamais recusou o seu pecado. Assumiu-o e teve o discernimento necessário para um dia afirmar - qual menino pobre, como nasceu, acabado de sair da Vila Fiorito -, a Emir Kusturika, no filme por este realizado, uma frase que fica na história: “Imagina tu o jogador que eu não teria sido se não me tenho metido na cocaína…” Sublime. Genial. Arrasador.

D10S também foi excessivo nas guerras que travou contra os todo-poderosos da FIFA e UEFA, fossem Blater ou Platini, deixando tantas vezes a nu os podres que minaram as duas organizações detentoras da liderança do futebol. E até foi excessivo no modo como adorava Fidel de Castro. Não que isso fosse algum crime – disse que era completamente esquerdista de pé, fé e cérebro -, mas porque os poderes instalados a outro nível não aceitavam ser possível que um astro se desse com um político que era contra o domínio norte-americano.

E foi ainda excessivo no modo como dava corpo à sua generosidade. Fosse a ajudar a família – venerava os pais -, ainda que a relação com as filhas do seu casamento só nos últimos tempos tivessem regressado a um curso normal, os mais necessitados ou aquele menino em Nápoles, na fase áurea da sua carreira, não tendo problema algum em mostrar dotes num terreno quase baldio e indo contra as diretrizes de Corrado Ferlaino, presidente do clube que ele ajudou a conquistar troféus nunca sonhados: duas Ligas e uma Taça UEFA.

Diego Armando Maradona foi, em dose mínima, tudo isto na Terra. O que será no Céu ninguém, mesmo ninguém saberá, mas no meu imaginário vive a ideia de que poderá ser igual ao que foi. Talvez porque D10S defendeu em vida que se voltasse a viver gostava de voltar a ser o Diego Maradona que foi. Com os mesmo defeitos e virtudes? Seguramente. Ou talvez não, quem sabe. Porque não interessa o que ele fez na vida, mas sim o que fez pelas nossas vidas.

O lado mais belo, criativo, eloquente e excessivo do futebol morreu na quarta-feira. O generoso coração de Diego Armando Maradona, o mais genial futebolista que pisou a Terra, cansou-se e ponto final. Mas D10S – e isso também faz com que continue diferente depois da vida de excessos que levou – é imortal. Nem que seja num segundo para recordar um sorriso seu! Ou uma finta! Ou um golo! Porque D10S será sempre o mais humano de todos os deuses...

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