Opinião

Óscares 2021 — que candidatos?

"Mank", de David Fincher: memórias de Hollywood no começo da década de 1940

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Ninguém desvaloriza a fundamental experiência, social e sensorial, de assistir a um filme num grande ecrã, mas é um facto que todos estamos a ver cada vez mais filmes online — os Óscares não se vão alhear da nova conjuntura industrial e comercial.

Como é habitual por esta altura do ano cinematográfico, a imprensa americana começa a fazer as suas contas sobre os próximos Óscares: proliferam listas e artigos com títulos e personalidades que poderão chegar, pelo menos, a uma nomeação para os prémios da Academia de Hollywood.

Entre os candidatos que começam a ganhar força na corrida às estatuetas douradas encontramos, por exemplo: Mank, de David Fincher, sobre o envolvimento de Herman J. Mankiewicz na escrita do argumento do clássico “O Mundo a Seus Pés” (1941); “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin, evocando as atribulações da Convenção Nacional Democrata de 1968; “Da 5 Bloods - Irmãos de Armas”, de Spike Lee, reencontro dramático com as memórias da guerra do Vietname; “Lamento de uma América em Ruínas”, de Ron Howard, um drama familiar protagonizada pela veterana Glenn Close [trailer]; e ainda “Tenet”, a mais recente aventura digital de Christopher Nolan…

Que candidatos são estes? Pois bem, com a heróica excepção do filme de Nolan, todos se apresentam como acontecimentos online. Dito de outro modo: as plataformas de streaming irão, por certo, ter grande destaque na corrida aos Óscares (agendados para 25 de abril de 2021).

A conjuntura tem tanto de insólito como de perturbante. Até porque a Academia alterou as suas regras, permitindo a candidatura de filmes estreados online. Por um lado, ninguém desvaloriza a fundamental experiência, social e sensorial, de assistir a um filme numa sala pública com um grande ecrã; por outro lado, é um facto que o consumo virtual do cinema ganhou uma importância decisiva na vida industrial e comercial dos filmes (ainda antes da pandemia, convém não esquecer).

Evitemos as profecias de bolso. Ninguém tem ideias seguras, muito menos definitivas, sobre a evolução de tudo isto. Mas é também um facto indesmentível que, dos circuitos financeiros às dinâmicas culturais, o cinema na Net passou a ser um elemento incontornável do imaginário cinematográfico. Entidades como a Netflix, a Amazon ou a HBO querem conquistar os seus Óscares de prestígio — e há que reconhecer que têm produtos para justificar a sua ambição.