Opinião

Sessão de Cinema: “Shining”

Danny Lloyd: a criança ocupa um lugar central na teia dramática de "Shining"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Eis uma efeméride que importa assinalar: “Shining”, clássico do cinema de terror e um dos títulos mais populares da filmografia de Stanley Kubrick, foi lançado há quarenta anos. Nesta história baseada em Stephen King, tudo o que é real está assombrado por elementos surreais.

Diz a frase feita: “o tempo passa…” E é bem verdade: no caso do filme “Shining” estamos a assinalar o seu 40º aniversário (surgiu nos ecrãs portugueses a 20 de novembro de 1980). Em todo o caso, o seu impacto emocional e a sua inteligência narrativa mantêm-se incólumes — agora, podemos ver ou rever a obra-prima de Stanley Kubrick numa plataforma de streaming.

Stephen King, autor do romance em que o filme se baseia, nunca se mostrou muito entusiasmado com a abordagem de Kubrick. O seu cepticismo é legítimo, mas convenhamos que Kubrick fez aquilo que todos os grandes cineastas fazem face a uma obra literária, sejam quais forem os seus méritos: transformou-a em coisa “sua”, construindo uma ficção muito particular, reveladora da sua visão trágica dos destinos humanos, na altura já bem expressa em títulos como “Horizontes de Glória” (1957) ou “Laranja Mecânica” (1971).

Esta é a história de um casal que, com o seu filho, se instala no Overlook Hotel, na paisagem grandiosa das Rocky Mountains. Têm uma missão muito concreta: tomar conta do hotel durante o rigoroso inverno, período em que não há hóspedes. A pouco e pouco, vai-se instalando um assombramento que desafia todas as certezas: a estabilidade do casal, a consistência da família e, por fim, as virtudes redentoras do Bem. Com Jack Nicholson numa das suas mais complexas e sofisticadas composições, o trio central é completado por Shelley Duvall e o pequeno Danny Lloyd (sem esquecer que a criança ocupa um lugar central na teia dramática do filme).

Clássico absoluto do cinema de terror, “Shining” é um daqueles objectos de cinema em que imagens e sons são trabalhados com o máximo rigor e requinte. Vale a pena recordar que o próprio Overlook, com os seus espaços geométricos e os inquietantes corredores, funciona como um cenário que, afinal, existe também como verdadeira personagem — o cinema é, ou pode ser, essa arte de transfigurar o real em surreal.

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