Opinião

Quem conhece P. T. Anderson?

Gwyneth Paltrow e Philip Baker Hall em "Passado Sangrento" — na tradição do cinema "noir"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Autor de filmes culto como “Magnolia”, o americano Paul Thomas Anderson continua a ter alguns títulos da sua filmografia com escassa divulgação — o LEFFEST dedica-lhe um ciclo que inclui “Passado Sangrento”, a sua primeira longa-metragem nunca estreada entre nós.

Redescobrir as memórias do cinema passou a ser uma das vocações mais insólitas dos festivais de cinema. Porquê insólitas? Porque temos à nossa disposição mil e uma maneiras de aceder aos filmes “antigos”, sem que isso signifique que a memória cinéfila seja, realmente, um elemento forte no interior do imaginário colectivo.

Saudemos, por isso, o facto de o LEFFEST (Lisbon & Sintra Film Festival, dirigido por Paulo Branco, a decorrer até 25 de novembro), a par da tradicional secção competitiva, apresentar algumas sugestivas revisitações, com destaque para um ciclo de homenagem a Paul Thomas Anderson.

É bem verdade que P. T. Anderson (para usarmos a “assinatura” com que é frequentemente citado pela imprensa cinematográfica dos EUA) tem na sua filmografia alguns títulos que são verdadeiros fenómenos de culto. A começar, claro, por essa imponente saga existencial que é “Magnolia” (1999), sem esquecer o majestoso “Haverá Sangue” (2007), por certo uma das composições mais radicais de Daniel Day-Lewis.

Menos conhecidos são, sem dúvida, “Embriagado de Amor” (2002), comédia muito ácida com Adam Sandler, e “Vício Intrínseco” (2014), radical adaptação do romance de Thomas Pynchon que, além do mais, conta com um fabuloso Joaquin Phoenix “pré-Joker”. De qualquer modo, importa sublinhar a presença de “Passado Sangrento” (1996), a sua primeira longa-metragem, nunca estreada nas salas portuguesas.

No original “Hard Eight”, “Passado Sangrento” centra-se num velho e amargo jogador de casinos, interpretado por esse admirável veterano que é Philip Baker Hall, liderando um elenco que integra, entre outros, John C. Reilly, Samuel L. Jackson e Gwyneth Paltrow. Fiel à herança do cinema “noir” das décadas de 1940/50, P. T. Anderson faz um filme em que o desencanto existencial surge tratado com uma invulgar sofisticação estética, sustentada por uma brilhante utilização do “ecrã largo” (scope). Foi uma das grandes revelações do Festival de Cannes de 1996 [trailer] — passa em duas sessões do LEFFEST: Tivoli, dia 18, 14h15; Nimas, dia 24, 14h30.