Opinião

A pandemia deu cabo de Trump? 

TOM BRENNER

Luís Costa Ribas

Luís Costa Ribas

Impressões da América

A maioria dos americanos pensa que a resposta de Donald Trump à pandemia foi incompetente. Se todos os que pretendem votar o fizerem, Trump não é reeleito. Mas a sua campanha e o seu partido apostam na supressão do voto.

As sondagens não deixam dúvidas: a maioria dos americanos reprovam o desempenho de Donald Trump no combate à pandemia e não confiam nos seus pronunciamentos sobre o assunto.

Não é surpreendente. Desde proclamar a hidroxicloroquina como cura (não é), a promover e ingestão de desinfetantes (perigo grave), Trump deixou claro não saber do que fala e fingir que um problema que não sabe solucionar não existe.

Há muito tempo que Trump e o Partido Republicano receiam os eleitores. Em março, numa entrevista ao canal Fox News, Trump afirmou que os democratas “pretendem níveis de votação (afluência às urnas) que, se nós concordássemos, um republicano nunca mais seria eleito neste país”.

Moral da história, se as pessoas não concordam contigo, não as deixes votar.

E é isso que tem acontecido, com iniciativas republicanas que tornam o voto menos universal, logo as eleições menos democráticas, incentivando a governação pela minoria.

Desde logo, manifestaram uma oposição férrea ao voto por correspondência. Os democratas, em geral mais receosos do coronavírus, vão provavelmente votar mais por correspondência; os republicanos mais ferrenhos, que acreditam tratar-se a pandemia de um embuste para prejudicar Trump, vão provavelmente votar mais presencialmente.

O sabotagem do voto por correspondência começou pelos próprios correios do Estados Unidos, dirigidos por Louis DeJoy, um aliado de Trump. A pretexto de tornar os correios financeiramente mais eficazes, DeJoy ordenou medidas que provocaram atrasos na entrega de correspondência, fazendo temer que milhões de boletins de voto não deem entrada nos serviços competentes dentro dos prazos legais para serem contados.

Em resposta, numerosos municípios decidiram instalar caixas especiais (tipo caixa de correio) destinadas à recolha de boletins de voto por correspondência, sendo que a recolha é feita pelo município e não pelos correios, para assegurar que são recebidos a tempo e horas.

De imediato governadores republicanos tomaram medidas para impedir ou limitar o funcionamento das caixas.

No caso mais exemplar, o governador do Texas autoriza apenas uma caixa especial para recolha de boletins em cada condado. Uma caixa no condado de Harris (zona de Houston) um enclave democrata com quase 5 milhões de habitantes; uma no condado de Loving com 169 habitantes.

Outros estados republicanos com vasta população negra que geralmente vota em candidatos democratas, alteraram a lei eleitoral para exigir, além do recenseamento a apresentação do BI num país onde não há BI nacional. Quem precisa dele tem de pedir uma carta de condução para efeitos de identificação. Após a entrada da lei em vigor, numerosos postos de emissão desses documentos nas comunidades não brancas foram encerrados.

Na Florida, onde um referendo aprovou a restauração do direito de voto a ex-reclusos, a legislatura estadual republicana aprovou restrições de facto para evitar que isso acontecesse.

O menu da supressão de voto e longo e antidemocrático, possibilitado por um acórdão do Supremo Tribuna que considerou desatualizada e desnecessária a parte crucial de uma lei que protegia os eleitores dos abusos de estados com um passado racista.

A mais recente manobra republicana, está à vista nos estados de Michigan, Wisconsin, Carolina do Norte e Pensilvânia, com governadores democratas e legislaturas estaduais republicanas – todos cruciais para a eleição presidencial.

Nesses estados, as legislaturas retiraram, ou tentaram retirar, poderes aos governadores, considerando-os excessivos, sem que essa preocupação se tivesse manifestado quando os governadores eram republicanos. As legislaturas mantiveram-se republicanas devido à manipulação dos distritos eleitorais permitindo que uma minoria de votos controle a maioria dos lugares eleitos.

Na Pensilvânia o atentado à democracia pode ir mais longe. Dado que a Constituição não obriga a que a seleção de grandes eleitores para o Colégio Eleitoral respeite os resultados da votação, os republicanos ameaçam nomear grandes eleitores favoráveis a Trump, mesmo o seu adversário democrata, Joe Biden, seja o mais votado. Apesar do posterior recuo, ficou a ameaça.

O potencial para uma eleição caótica é real, devido a fragilidades constitucionais e à incapacidade de adaptar uma constituição do Séc. XVIII à realidade do Séc. XXI. Voltaremos ao assunto. Mas a resposta à pergunta em título é simples: nada vai demover Donald Trump e o seu partido de tentarem manter-se no poder, a tudo o custo, com a maioria dos votos ou sem ela.