Opinião

Sessão de Cinema: “Os Despojos do Dia”

Anthony Hopkins e Emma Thompson: memórias de um filme estreado em 1993

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Continua a ser, por certo, um dos filmes mais populares de Anthony Hopkins e Emma Thompson: “Os Despojos do Dia” evoca os bastidores de uma mansão onde ocorre um encontro secreto antes da Segunda Guerra Mundial.

Através de títulos como “Quarto com Vista sobre a Cidade” (1985) ou “Regresso a Howards End” (1992), o produtor Ismail Merchant e o realizador James Ivory criaram um estilo muito particular de dramas e melodramas. Quase sempre inspirando-se em clássicos da literatura anglo-saxónica, a sua colaboração — os filmes Merchant/Ivory — conciliaram a nostalgia dos clássicos com o prestígio comercial.

Disponível numa plataforma de streaming, “Os Despojos do Dia”, lançado em 1993, terá ficado como o símbolo mais popular do seu trabalho. Trata-se, neste caso, da adaptação de um romance de Kazuo Ishiguro, vencedor do Booker Prize de 1989.

Apetece dizer que se trata de um filme histórico, mas não no sentido de “reconstituição” de um determinado facto. Ou melhor: há, realmente, um acontecimento marcante, ocorrido nas vésperas da Segunda Guerra Mundial — uma reunião de altos dignitários da esfera política britânica —, mas as personagens principais estão nos bastidores. Isto porque o protagonismo pertence ao mordomo e à governanta da mansão onde decorre a reunião; mesmo longe de qualquer intervenção nesse encontro secreto, vão compreendendo a gravidade do que está em jogo…

Sempre sensível às tensões entre as classes, este é um cinema enraizado, antes do mais, no talento dos seus actores. Anthony Hopkins e Emma Thompson são notáveis na composição das personagens centrais, de tal modo que, para muitos espectadores, “Os Despojos do Dia” continua a ser o seu filme mais emblemático.

Este é, afinal, um objecto típico de uma certa “qualidade britânica”, ironicamente reflectindo uma peculiar confluência de contribuições artísticas. Assim, Merchant (1936-2005) era de origem indiana, enquanto Ivory (n. 1928) é natural de Berkeley, California, tendo, aliás, iniciado a sua carreira nos EUA; quanto a Ishiguro (n. 1954), embora sendo um dos nomes grandes da actual literatura britânica, nasceu no Japão.

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