Opinião

O ‘all in’ do FC Porto e ninguém de cara à banda

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos pergunta se o procedimento utilizado para isolar Luis Diaz e Uribe, que não viajaram para a Seleção da Colômbia, não deveria ter sido o mesmo para isolar Pepe e Sérgio Oliveira, depois do contacto com o ‘positivo’ Cristiano Ronaldo

Segundo rezam as notícias, no dia 1 deste mês, Uribe e Luis Diaz informaram o FC Porto que tiveram contacto com uma pessoa infectada com Covid-19 e, acto contínuo, foram acionados os mecanismos protocolares nestas situações e os dois jogadores entraram em isolamento e foram retirados da convocatória da selecção da Colômbia, que tinha compromissos relativos aos jogos de qualificação para o Mundial, com a Venezuela e o Chile.

Como diz o povo, com a saúde não se brinca e, portanto, com a Covid também não se deve brincar.

Todos sabemos muito bem que os clubes tentam, como lhes compete, defender os seus interesses até à medula e são imensas as situações em que, com a proximidade de compromissos importantes, e independentemente de haver lesões que impedem a cedência dos jogadores às Seleções nacionais, os clubes conseguem reter os seus atletas, ou por acordo ou porque conseguem vencer eventuais focos de conflito, não obstante a protecção que a FIFA e a UEFA dão às Selecções Nacionais, quando estão em causa as suas janelas de competição.

Ninguém pode aceitar ou acreditar que haja um clube à superfície da Terra, com o futebol debaixo de um terrível condicionamento por causa da pandemia, a aproveitar-se do contexto-Covid para gerar supremacias.

O FC Porto cumpriu, portanto, com o que está protocolado, na protecção do seu interesse específico, mas com maior dose de responsabilidade em nome da protecção dos seus jogadores, dos colegas, da Selecção colombiana e, no fundo, da saúde pública.

Contudo, surgiu a notícia segundo a qual Cristiano Ronaldo testou positivo, no estágio da Selecção Nacional, com vista aos jogos com a Espanha, França e Suécia.

A Selecção Nacional, hoje em dia, conta com poucos jogadores que actuem na Liga portuguesa e, neste âmbito, o FC Porto é o clube mais representado, com Pepe e Sérgio Oliveira.

Já todos sabemos que o futebol criou um conjunto de regras que regulam a sua actividade e foi isso que determinou, debaixo da tutela das autoridades de saúde, o regressos treinos e à competição, desbloqueando as verbas relativas aos direitos televisivos.

Foi entendido por todos ser razoável — para salvar o negócio — correr o risco da ‘entrada em campo’. No entanto, as regras dentro da ‘bolha’ estão absolutamente convencionadas e protocoladas e a recente selfie tirada por Cristiano Ronaldo juntamente com os colegas de Selecção configurou uma situação de atropelo ao comportamento que é preciso ter (mesmo) em ‘bolha’.

Facto: um jogador testado positivamente, mesmo que assintomático, por força da prova que esse documento fotográfico revelou, teve contacto com outras pessoas, neste caso com outros atletas. Não há nenhum protocolo que legitime, dentro da ‘bolha’, o não cumprimento das regras de distanciamento social.

Por isso, pergunta-se: o FC Porto, perante a evidência dos factos, não deveria ter accionado os mesmos procedimentos preventivos com Pepe e Sérgio Oliveira, da mesma forma como o fez com Luiz Dias e Uribe?

O que muda, final, é a protecção da saúde pública ou é o interesse desportivo e financeiro?

Parece evidente que há critérios diferentes dentro do Futebol (exemplos de desconformidade entre os rigores das autoridades regionais de saúde e cumulativamente da DGS para certos casos em detrimento de outros) e critérios também diferenciados fora dele, nalguns casos a provocar a estupefacção da opinião pública e, convenhamos, a agilização dos comportamentos, que nos atiraram para a… ‘calamidade’.

A directora-geral da Saúde, Graça Freitas, tentou explicar e convencer-nos de que todos os cidadãos são abordados da mesmo forma nos chamados inquéritos epidemiológicos e que há duas avaliações de risco, uma preliminar e mais rápida e outra mais minuciosa, de acordo com contactos de risco maior ou menor.

Esta suposta ‘igualdade de tratamento’ é uma falácia e, como sempre, há uma tendência generalizada de se ser forte com os fracos e fraco com os fortes.

Não custa muito a acreditar que, no caso de Cristiano Ronaldo, o inquérito minucioso se decida pelo contacto de baixo risco, mas no nosso mui proverbial romantismo, este caso parece adensar a imagem de um pais de ‘bolhas’ e ‘jeitinhos’.

O FC Porto (não) ficou sem Luis Diaz e Uribe, podendo-os recuperar para o clássico e não ficou sem Pepe e Sérgio Oliveira. Um autêntico ‘all in’.

Era o que faltava alguém colocar o dedo no ar ou ficar com a cara à banda. A pandemia também teve este condão de aumentar os medos. O que não mudou foi a rotina de se tentar que não se mostrem as evidências e as contradições.

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