Opinião

O cartão vermelho de Vieira a António Costa

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos escreve que o cartão vermelho exibido pelo presidente do Benfica ao primeiro ministro “é uma forma bizarra de António Costa abandonar o terreno de jogo”. O comentador da SIC diz que, nesta peleja, só faltava mesmo “Luís Filipe Vieira assumir o papel de árbitro”. E remata: “é o país virado de pernas para o ar”.

Só mesmo na reta final da época passada Luís Filipe Vieira admitiu perder o campeonato para o FC Porto.

Perder o campeonato para o FC Porto, num contexto mais amplo através do qual se discutem hegemonias, e quando o clube portista acusa a maior crise financeira da sua história, colocaram o presidente do Benfica numa posição de grande desconforto.

Luís Filipe Vieira estava convencido de que, nos últimos anos, havia desenvolvido a estratégia certa para o Benfica voar alto, mas a verdade é que, num momento crucial de apresentação de credenciais, a equipa de futebol dos ‘encarnados’ falhou.

Esse falhanço determinou que Luís Filipe Vieira inflectisse a estratégia e deixasse cair algumas das bandeiras que havia utilizado nos últimos anos, nomeadamente a que assentava no primado da afirmação da equipa mais representativa do Benfica através do investimento e da aposta no Seixal.

Foi uma grande chapada, porque Vieira e todos os dirigentes desportivos estão treinados e habituados a utilizar o êxito no relvado para poderem gerir, sem grandes tensões, outro tipo de dossiês, alguns dos quais bem complexos.

Sem êxito desportivo, fica mas difícil e Vieira sabia que estava em ano de eleições e, não ganhando, ficava mais exposto. Exposição essa transformada em grande pressão por força dos processos judiciais que foram brotando do chão como cogumelos.

A acusação agora conhecida em torno da Operação Lex deixa Luís Filipe Vieira ainda mais pressionado.

É muita coisa junta: a (polémica) recuperação de Jorge Jesus, que arrastou com ela a exigência do reforço da equipa, um investimento brutal na reconstrução do plantel, em contraciclo com os efeitos provocados pela pandemia no âmbito da gestão financeira, os processos judiciais, entre os quais assume agora maior relevância, por via da acusação, a Operação Lex e, finalmente, as eleições que estão à porta, com uma oposição activa.

Luís Filipe Vieira precisa como nunca, de apoios internos e externos, e aquele que num primeiro momento lhe foi prestado pelo primeiro-ministro António Costa e pelo presidente da CML, Fernando Medina, através da inclusão dos seus nomes na Comissão de Honra no contexto da recandidatura à presidência do Benfica, suscitou um debate no país, não apenas sobre o papel do poder político em relação ao futebol, mas também sobre eventuais condicionamentos no princípio constitucional da separação de outros poderes.

A discussão foi tão ampla e generalizada que a escapatória encontrada foi a de Luís Filipe Vieira aceitar retirar os nomes de António Costa e de Fernando Medina da Comissão de Honra e ainda os nomes de todos os detentores de cargos públicos.

Este mundo anda mesmo esquisito, a cabeça dos homens anda mesmo muito perto dos pés, de maneira a poder ser pontapeada.

É caso para se dizer que todo este processo não tem pés nem cabeça ou, se se quiser, houve gente que meteu os pés pelas mãos. Não se trata, no entanto, de maus desempenhos de guarda-redes, defesas ou avançados. Estamos a falar do uso de cabeças como se fossem bolas e pontapés deliberados na cabeça — sobre os relvados ou sobre os tapetes dos gabinetes — só podem dar expulsão.

Este cartão vermelho de Luís Filipe Vieira a António Costa é uma forma bizarra de o primeiro-ministro abandonar o terreno de jogo. Não deixa de ser estranho um presidente de um clube de futebol, ainda por cima a contas com a justiça, assumir a posição de árbitro ou juiz e expulsar o primeiro-ministro da sua Comissão de Honra.

Isto não é apenas bizarro, é o mundo virado de pernas para o ar e é a constatação difícil de aceitar de uma profunda e preocupante indiferença sobre a forma como as instituições devem funcionar.

Quanto mais o Estado se agachar, mais o Futebol lhe vê as cuecas.

Ora um Governo de cuecas ou em cuecas não é exactamente a melhor imagem que o Estado deve dar de si próprio. Vamos lá a vestir e recuperar, se possível, um ar de respeitabilidade, porque os portugueses merecem mais e este strip-tease político-futebolístico foi demasiado escandaloso e ninguém fica bem nesta fotografia… de família.

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