Opinião

Bispo de Setúbal, presidente da CEP: a periferia chega ao centro 

Bispo José Ornelas

Diocese de Setúbal

"Ao elevar o bispo de Setúbal à presidência, o episcopado pode ter aberto espaço à narrativa das periferias sociais em tempo de crise"

A eleição do bispo José Ornelas para a presidência da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), num mandato de três anos, estava a desenhar-se há semanas, na sequência da aparente indisponibilidade de António Marto – com 73 anos de idade, restam-lhe apenas dois antes do pedido de resignação, embora seja provável que o Papa lhe prolongue o mandato.

Também no episcopado português se refletem duas sensibilidades dominantes. Por um lado, há uma adesão incondicional às mudanças propostas pelo Papa Francisco, ou, pelo menos, à disponibilidade ativa para as pensar, abrindo o espaço do discernimento. Por outro, teme-se o impacto deste vendaval nos alicerces da estrutura e pede-se mais prudência, embora se reconheça a necessidade de mudanças.

O aggiornamento reclamado no II Concílio do Vaticano, como atitude, ganhou várias velocidades nas (des)acelerações do mundo, que a Igreja tem dificuldade em acompanhar. E enquanto se ensaiam grandes debates por caminhos difíceis de transpor, ouve-se, em permanência, o grito das franjas em agudas tonalidades.

Neste contexto, José Ornelas, madeirense, 66 anos de idade, poderá testemunhar uma Igreja missionária, assertiva e simultaneamente dialogante, menos agarrada a bloqueios, bergogliana, sem medo de errar quando o que conta é o percurso das pontes, entendendo estas não apenas como tabuleiros de diálogo cultural.

Missionário, especialista em Ciências Bíblicas, Ornelas foi superior provincial e, posteriormente, superior-geral dos dehonianos, até chegar à diocese de Setúbal. Tem cosmovisão e a experiência da gestão na diversidade, com a sustentação bíblica que tantas vezes se revela escassa ou enclausurada.

Quando terminou o mandato na congregação dehoniana, ainda preparou uma ida para Angola. O Papa Francisco trocou-lhe as voltas e convidou-o para assumir Setúbal. Na altura, como revelou à Rádio Renascença, Ornelas quis saber o porquê de Setúbal. O Papa ter-lhe-á dito: "vais como missionário, porque senão não vale a pena". Este é o Papa que denunciou a existência de um sentimento de "casta" entre os prelados.

Setúbal é uma diocese com profundas assimetrias sociais, que não conseguiu evitar dissensões eclesiais e a implantação de movimentos de segregação na Igreja, empenhados em ganhar terreno para abrir trincheiras.

É um território com elevados índices de pobreza, que não deixa de exaltar com saudade o primeiro bispo, Manuel Martins, voz dos excluídos, figura marcante e incontornável, sem a qual não podemos, justa e rigorosamente, descrever as primeiras décadas da democracia portuguesa.

Ao elevar o bispo de Setúbal à presidência, o episcopado pode ter aberto espaço à narrativa das periferias sociais em tempo de crise, permitindo atenuar questiúnculas internas e recuperar a memória de Manuel Martins.

Lisboa, Porto, Braga e Leiria/Fátima, dioceses de maior tradição mediática, continuarão a ter o seu espaço. E com Ornelas na presidência da CEP, as periferias vêm ao centro. Não as meramente geográficas, preservadas no Conselho Permanente e na vice-presidência do bispo de Coimbra, mas sobretudo as sociais. Setúbal tem esse efeito simbólico.

É sobretudo a pessoa que faz este cargo, pela experiência, modo de estar e de interpretar a Igreja e o mundo, em cada solicitação jornalística e em cada moderação. De sorriso afável e disponível, José Ornelas, 66 anos, assume a presidência de uma Conferência Episcopal em subaproveitamento.

Há um enquadramento canónico para estas estruturas locais da Igreja católica, mas a história tem revelado uma insípida colegialidade. Podiam ir mais longe. A documentação produzida, não fazendo "lei" na gestão e opções de cada bispo diocesano, que só responde ao Papa, apresenta-se sobretudo como meramente indicativa ou reativa. Veja-se o caso da resposta à Amoris Laetitia, com cada diocese a elaborar procedimentos para enquadrar os divorciados recasados num possível reencontro sacramental.

Neste quadro, perde-se a oportunidade de realçar a posição concertada das igrejas locais, beneficiando a centralização em Roma.

Nas últimas décadas, a CEP foi correspondendo às exigências da comunicação. O que mais conta, na rotina da CEP, é a possibilidade dada pelas semestrais assembleias plenárias e pelas intercalares reuniões do Conselho Permanente, para a Igreja se pronunciar publicamente, fixando posições.

É aqui que a figura do presidente pode fazer a diferença. O desafio de José Ornelas é por isso enorme. Reforçar, fora, o espaço de intervenção e legitimidade. Ganhar, dentro, um espaço já ocupado pelos habituais prelados dos tempos mediáticos.

Sendo um bispo com invulgar matriz periférica, tem o fator da novidade e atravessará o expectável impacto social e político da pandemia, a exigir à Igreja, também enquanto agente de ação sociopolítica, uma voz firme e focada, mas coerente, cooperante e capaz de fazer pontes, sob risco de a erosão se acentuar.

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