Opinião

Por estes dias #dia13

Radu Sigheti

Ganhar ou morrer

O estado de emergência que vigorava naquele verão em Pristina incluía recolher obrigatório.

Como não era por razões sanitárias, mas porque a NATO atacava um país que poucos meses depois deixaria de existir, a vida até se mantinha «normal» durante o dia, mas à noite, com recolher obrigatório, as ruas e praças estavam como as de Portugal por estes dias.

Saíamos à sucapa do hotel, quando a noite caía, e umas ruas depois, havia um restaurante pequeno, com três ou quatro mesas apenas, quase sempre vazio.

Era lá que jantávamos, para evitar a comida de hotel, um lugar grande, frio, desconchavado, onde nada funcionava e que noutros tempos, nos grandiosos tempos da União Soviética, tinha sido a jóia da coroa da cidade.

Tal como muitos outros edifícios de estilo soviético, era imponente, desporporcionado, uma torre gigante diante de uma das praças mais concorridas de Prsitina, à época a cidade-rebelde contra Belgrado, e hoje capital de uma espécie de país.

O restraurante, de albaneses, dispostos a lutar contra os sérvios - a vitória chegaria quase uma década depois, sob a forma de democracia e reconhecimento internacional - tinha sempre uma figura presente.

O dono.

Chamava-mos-lhe «sapo».

Era um homem imenso, com um maravilhoso duplo queixo, de boca grande e larga e cigarros pendurados nuns lábios grossos.

«O sapo» acabou por meter conversa connosco numa das noites em que fazíamos questão de fazer de conta que tínhamos uma vida «normal».

A conversa era sobre como os albaneses do Kosovo acabariam por vencer os sérvios (do Kosovo), como a «razão» da disputa estava do lado deles (albaneses), como era injusto serem considerados gente de segunda (pelos sérvios) num território onde eram a maioria (demográfica), e um desfiar de ódios antigos que já ninguém sabia muito bem onde tinham começado.

Mas a história dos dois povos estava cheia de guerras, conflitos, histórias mirabolantes que passavam de geração em geração.

Para os albaneses, os sérvios eram inimigos ancestrais. Para os sérvios, os albaneses eram terorristas desde sempre.

Uns e outros viviam lado a lado, em prédios comuns, mas naqueles dias de estado de emergência e de recolher obrigatório, os vizinhos que antes partilhavam sal, açúçar, um ovo ou o campo de futebol ao fundo da rua, tinham-se tornado inimigos mortais.

O «sapo» relatava, com gosto, os albaneses que tinham morto o vizinho sérvio, os prédios «deles» cada vez maios vazios, a cidade cada vez mais sem «eles» e o seu povo, o povo dele, a ocupar tudo o que ficava vazio.

Falamos da guerra e daqueles dias.

Da loucura do ódio, da guerra, do medo e da morte.

Do que seres humanos que viviam lado a lado eram capazes de fazer no dia seguinte em nome de uma nacão, uma causa, um discurso político, uma ameça.

O «sapo» não admitia perder.

A palavra não lhe cabia no imenso corpo nem nos inúmeros pensamentos que desfiava para justificar tudo aquilo.

Para ele só havia duas soluções:

ganhar ou morrer.

Nós, que estamos em estado de emergência, mas sem recolher obrigatório, sem disparos de tropas, sem militares na rua, sem inimigo visível na porta ao lado, nós temos apenas uma hipótese.

E, curiosamentem só o conseguiremos se estivermos unidos, mas não juntos.

Afinal, o «sapo» não estava certo.

Não há duas. Só há uma solução nesta guerra.

Ganhar.