Opinião

"O FC Porto não vai morrer"

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Adiados.

Adiado foi todo o processo eleitoral que, em condições normais, levaria os sócios do FC Porto às urnas no próximo dia 18.

Adiada foi a conclusão do campeonato e adiadas foram decisões que já poderiam ter sido tomadas no futebol profissional, à semelhança do que já ocorreu com os escalões de formação, por iniciativa da FPF.

Adiada foi a situação de muitas famílias e empresas, embora o impacto negativo já seja grande. Com a aprovação pelo governo do decreto-lei que prevê a suspensão do pagamento dos créditos dos particulares e das empresas até Setembro, o país vive esta sensação de adiamento.

Estamos adiados, mas com muita coisa para fazer.

Num país em que, às vezes, as prioridades andam trocadas e as políticas desconchavadas, manda a essencialidade do ventilador. Tudo o resto parece demasiado pequeno, num Mundo que — a avaliar pelas reações iniciais de Trump e Bolsonaro, por exemplo — chegou a colocar a pandemia numa prateleira de uma loja de chineses.

A pandemia é mais do que uma chinesice e a questão maior é saber se — depois destas alterações impostas no planeta — o Mundo vai compreender que é preciso mudar. Perceber agora se a União Europeia terá, ou não, neste continente, um papel mais importante na revitalização das economias e na vida dos seus concidadãos.

Adiados, pois, mas com a percepção clara de que é preciso mudar. A visão dos partidos, a eficácia das medidas e a moralização fiscal, o papel dos bancos e os sistemas de regulação.

No futebol, também. Adiado, mas com a noção de que nada pode ser como antigamente, e as recentes declarações do presidente da FIFA vão nesse sentido.

O FC Porto, primeiro classificado do campeonato português à data da paragem, é apenas um entre muitos exemplos de que o actual paradigma não serve.

O FC Porto conheceu um crescimento notável sob o ideário estratégico de José Maria Pedroto e Jorge Pinto da Costa, tornou-se hegemónico em Portugal e ganhador, inclusive, no futebol internacional, e agora que se fala de curvas é evidente o seu achatamento, com a gestão dos últimos anos a ser colocada em causa e vigiada de perto pela UEFA.

Esse controlo da UEFA por via do chamado fair-play financeiro também pode ser adiado, mas não deixou de existir. E assim como a sensação de alívio das famílias e das empresas é assim a modos como uma almofada para atenuar as dores nas costas, este tempo de paragem e de adiamento dos ‘timings’ normais dos mecanismos de vigilância não eliminam a maleita.

O FC Porto, antes da pandemia, já impunha a si próprio um certo adiamento, por força da obra erigida, durante décadas, pelo seu líder máximo. Jorge Pinto da Costa já não é um líder forte, mas conta sempre com a força do regime, mesmo que este vacile, sem cair.

As eleições do FC Porto, que ninguém sabe quando serão realizadas, reconduzirão Pinto da Costa ao seu 15.º mandato, porque ninguém com estofo para ser presidente quer ir a votos contra o dragão-mor.

O imperativo de mudança e regeneração do FC Porto não muda com a Covid-19. Já existia. Apenas foi adiada. Deveria ter sido iniciada com Jorge Pinto da Costa e estimulada por ele, porque desse modo a transição seria menos traumática.

O FC Porto precisa de novos modelos de governação e a verdade é que, não obstante os tempos difíceis, o FC Porto dinamizou-se com Pinto da Costa, mas começou antes dele e vai continuar depois dele.

Neste tempo de más notícias, a boa notícia é que olhamos para a periferia do FC Porto e vemos gente activa e capaz.

Rui Moreira tem sido particularmente activo na crise da pandemia, e não só. Diligente, arguto, oportuno.

Rui Rio, achado injustamente como uma espécie de opositor a Pinto da Costa, nos seus tempos de presidente da autarquia do Porto, quando afinal o único ‘crime’ que cometeu foi não se deixar capturar pelo poder do futebol, está a demonstrar que é possível fazer ‘política com

ética’ e vem protagonizando, como líder da oposição a este Governo, uma postura responsável, séria, à altura do momento difícil que Portugal atravessa.

E o FC Porto tem André Villas-Boas, Vítor Baía e gente que cresceu dentro do clube, capaz de promover novas ideias e sobretudo novas posturas.

O FC Porto está adiado, como vivemos todos um tempo de adiamento, mas o FC Porto não vai morrer. O FC Porto falhou o objectivo de se modernizar com um novo discurso e novos comportamentos, mas haverá um dia que compreenderá como foram nocivos os algozes de uma certa comunicação.

Adiados, mas determinados a sair desta crise - e temos de ser todos, unidos como nunca, a vencer o campeonato das nossas vidas. A derrota da Covid-19 é a vitória da esperança num novo Mundo, e só então tudo recomeçará.