Opinião

Os Beatles nunca existiram?

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

As canções dos Beatles constituem matéria essencial de “Yesterday”, o novo filme de Danny Boyle. Eis um bom pretexto para relembrarmos e revermos o trabalho inovador do quarteto de Liverpool (também) no domínio cinematográfico.

O inglês Danny Boyle, realizador de obras como Trainspotting (1996), A Praia (2000) ou Quem Quer Ser Bilionário (2008), gosta de desafios insólitos. Por exemplo: encenar um mundo em que um jovem dedicado à música, à procura de construir uma carreira, é o único ser humano que se recorda de que existiram... os Beatles!

Assim acontece no novo filme de Boyle que vai buscar o seu título a uma das mais lendárias canções dos quatro rapazes de Liverpool: “Yesterday”. Como é que a situação evolui? Sem querer revelar ao leitor os segredos do próprio filme, digamos que tudo se passa num registo em que a ironia e o humor se combinam bem com as canções dos Beatles: “Yesterday”, “Let it Be”, “I Want to Hold Your Hand”, “Hey Jude”, “The Long and Winding Road”, etc., etc., etc.

Seja como for, vale a pena acrescentar que, por vezes, perversamente, a memória universal das canções dos Beatles faz esquecer a importância da sua carreira cinematográfica. Dois filmes bastariam para lhes conferir um lugar muito especial na história moderna do cinema: “A Hard Day’s Night” (1964) e “Help” (1965) — o primeiro lançado entre nós com o título surreal de “Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso”; o segundo, mais linearmente, “Socorro!”.

Ambos foram dirigidos por Richard Lester, nome fundamental da “nova vaga” britânica (nascido nos EUA, em 1932). E são por vezes citados como narrativas premonitórias do conceito de teledisco ou videoclip, apenas consolidado no mercado audiovisual a partir da eclosão da MTV, em 1981. Na verdade, através de um misto de celebração e paródia, Lester soube inventar novas formas de encenação da música, de algum modo abrindo caminho para uma reinvenção iconográfica do próprio conceito de “juventude”.

Os Beatles surgiram também em “Magical Mystery Tour” (1967), uma produção televisiva, e ainda em dois títulos que têm tido sortes bem diferentes: “O Submarino Amarelo” (1968), de George Dunning, há muito reconhecido como um clássico dos desenhos animados [foto], e “Let It Be” (1970), de Michael Lindsay-Hogg, registo documental das gravações do álbum homónimo que permanece quase desconhecido das novas gerações (o seu muito justificado relançamento tem suscitado muitas especulações, mas permanece adiado).

Com os Beatles, e através dos Beatles, a música popular conquistou também novos terrenos de expressão visual. E não bastam os clichés mais ou menos “românticos”, tantas vezes repetidos a propósito dos anos 60, para dar conta da sua peculiar e contagiante energia. Talvez que o filme de Danny Boyle possa ajudar a favorecer a redescoberta que se impõe.

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