Opinião

O banco mundial do Facebook

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Opinião de Lourenço Medeiros.

Os actuais membros da Libra Association que vai tomar as decisões chave do sistema.

Isto de lhe chamar cibermoeda tem muito que se lhe diga. Claro que a Libra, a moeda virtual que o Facebook quer lançar para o ano que vem, é uma cibermoeda no sentido em que é dinheiro que existe na Internet, nos computadores, depende da tecnologia, no caso pelo menos parcialmente, de blockchain. Mas tem pouco que ver com o conceito de cibermoeda a que nos habituámos, goste-se ou não, as cibermoedas têm sido criadas para serem livres do “sistema”, podemos ver isso do lado bom, da liberdade individual, ou do lado que tem de facto sido o mais comum, lavagem de dinheiro, especulação selvagem, comércio ilícito, podem continuar a lista…

O Facebook, com a sua coligação de 28 empresas - não há mais capitalista que este conjunto de companhias - lança então uma moeda que cavalga esta ideia de liberdade, mas avisa que não vai servir para especulação, diz que é sobretudo para os pobres que nem têm acesso a contas bancárias e que vai começar pelo Whatsapp, Messenger e Instagram onde eles vão poder fazer transações e transferências na nova Libra, ao que parece. Sou só eu que vejo aqui uma ligeiríssima contradição?

O Facebook cria uma entidade central, muito simbolicamente centrada na Suíça, que vai servir de entidade independente de governance da Libra, se isto não é um Banco Central privado, o que é? E um Banco Central privado de um país com 2,4 mil milhões de cidadãos, nada mal. Não admira que se propunham fazer transações a preços irrisórios em relação aos praticados no mercado, se a coisa pega será uma das maiores cash cows algumas vez imaginadas, não estou a esquecer que é feito para os pobrezinhos, é com eles, que são muitos, que se consegue mais dinheiro, basta ver o exemplo dos impostos.

Para já, garantem que as transações de cada um não serão usadas para outros fins, nem sequer para publicidade direccionada. Claro que vamos todos acreditar que o Facebook, a Visa, Mastercard, a marca de venda de produtos de luxo nascida em Portugal a Farfetch, a Uber, a Lift e por aí fora só estão a pensar na nossa privacidade. Sem ironia, agora até podem estar. Mas a história ensina que estas coisas mudam. Só como exemplo, no sistema de créditos sociais na China, em alguns casos, os gastos mais ou menos sensatos do cidadão já contam para a pontuação. O cidadão pode ficar mais ou menos bem visto, ganhar ou perder direitos em função de muitos parâmetros mas esse, é um deles.

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