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O princípio do fim da "era Merkel" 

Michael Sohn

Depois de 16 anos dedicada à construção de uma Alemanha centrista, Angela Merkel vai deixar o cargo. A saída da chanceler alemã é apontada como um dos maiores riscos para a Europa em 2021.

Quatro mandatos depois, a mulher forte da Alemanha e da Europa vai deixar a liderança da quarta maior potência mundial. Tem sido, desde 2005, uma das forças políticas mais estáveis e duradouras. Navegou várias crises: económica, migratória, pandémica, climática. Pelo caminho, ainda avançou com a desnuclearização da Alemanha e deparou-se com a saída do Reino Unido da União Europeia.

Agora deixa o país com a sua própria marca de "merkelismo": a política pragmática de centro marcada pela gestão de alianças, pró-europeísta, e crente nas relações transatlânticas. Educada na antiga Alemanha Oriental, dominou a arte de governar pelo silêncio. Como diz o seu biógrafo Dirk Kurbjuweit:

"Ela espera e espera para ver para onde está a seguir o comboio, só depois salta."

Franka Bruns

Em termos de política interna, Angela Merkel, eleita pela CDU (União Democrata-Cristã), aboliu o recrutamento militar, aceitou - mesmo contra as suas próprias convicções - o casamento entre pessoas do mesmo sexo e apoiou a introdução do salário mínimo. O percurso na política europeia ficou marcado pela gestão da crise financeira, em 2009.

Ao longo da chancelaria, Merkel foi capaz de se transmutar para se adaptar ao clima político, conseguindo ordenar, em 2011, o encerramento de oito das 17 centrais nuclares do país, uma medida que a conduziu às políticas de transição energética. Decidiu fechar, gradualmente, todas as centrais nucleares até 2022.

Merkel esteve novamente em destaque em 2015, durante a crise dos refugiados. Contra todas as probabilidades, aceitou receber mais de um milhão de sírios no país, fazendo ouvidos moucos às críticas que se iam multiplicando, muitas vindas de dentro do partido.

Riscos da Europa pós-Merkel

O fim da "Era Merkel" foi apontado pela consultora Eurasia como um dos principais riscos para a Europa em 2021, a par das tensões entre China e os Estados Unidos e da pandemia de covid-19.

Com a porta de saída já entreaberta, a chanceler alemã continuou a trabalhar por uma Europa mais unida. Foi uma das defensoras do histórico fundo de recuperação de 750 mil milhões de euros em resposta à pandemia, uma oportunidade política para fortalecer o multilateralismo.

"Sem as hábeis habilidades políticas de Merkel, a UE teria enfrentado uma divisão interna sem precedentes, entre a Polónia e a Hungria, de um lado, e os 25 Estados membros restantes do outro", aponta a consultora. "A recuperação económica do continente estaria em risco, com muito mais pressão sobre o Banco Central Europeu."

Markus Schreiber

Para o futuro, antevê-se uma Europa mais fragmentada. A consultora considera que há risco de o populismo europeu crescer à medida que aumenta a falta de consenso entre os países.

Em termos de política externa, a Turquia apresenta um desafio para a UE. Sem Merkel para atuar como negociadora forte, os esforços diplomáticos para resolver disputas territoriais e de energia no Mediterrâneo serão difíceis, assim como o processo de paz no Chipre liderado pela ONU.

"A posição da UE tornar-se-á mais agressiva à medida que a França recrutar mais Estados membros na sua missão de endurecer castigos à Turquia, com mais sanções e aumentando a probabilidade de ruptura diplomática. Isso, por sua vez, levará Ancara a ameaçar outra crise de refugiados para desestabilizar a Europa, bem como movimentos no Mediterâneo Oriental que podem reacender um impasse naval e o risco de conflito direto", escreve a consultora no site.

Quem vai substituir Angela Merkel


Este domingo, a Alemanha realiza a primeira eleição em que o chanceler em exercício não é candidato. A saída de Merkel significa que, pela primeira vez desde 1949, a mudança é inevitável.

Depois dos últimos quatro anos, o resultado mais provável seria um governo de continuidade liderado pelos democratas-cristãos (CDU), possivelmente em coligação com os Verdes. Poucos avaliaram a possibilidade de o partido social-democrata alemão, atual parceiro do Governo de Merkel, conseguir um bom resultado na eleição. O partido teve o seu pior resultado em 2017, não conseguiu uma resposta positiva nas europeias de 2019 e deu sinais de uma severa divisão interna.

O seu líder, Andrea Nahles, deixou o cargo depois do desastre eleitoral europeu e o vice-chanceler e ministro das Finanças de Merkel, Olaf Scholz, perdeu uma votação para a liderança. Acabou, mesmo assim, por ser o escolhido para ser o candidato social-democrata a chanceler.

Matthias Schrader

A CDU, partido de Merkel, escolheu Armin Laschet como candidato, uma jogada que não tem sido favorável aos democratas cristãos depois de uma campanha difícil. O momento que mais manchou a ação de Laschet foi a sua reação às inundações no oeste da Alemanha, com risos e brincadeiras com os colegas do partido enquanto o presidente federal fazia um discurso solene de homenagem às vítimas.

Pediu desculpa, mas o estrago estava feito. Segundo uma nova sondagem divulgada esta sexta-feira, a vantagem do social-democrata Olaf Scholz sobre o conservador Armin Laschet é de um ponto percentual. O Instituto de Estudos de Opinião Allensbach atribui a Scholz (SPD) 26% das intenções de voto, seguido de Laschet (CDU/CSU) com 25%, numa sondagem encomendada pelo diário Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Os Verdes também não têm tido uma campanha auspiciosa. A candidata Annalena Baerbock foi alvo de críticas por alegado plágio. Enquanto isso, Scholz foi ganhando terreno nas sondagens, com o público alemão a responder bem à sua maneira sóbria, focada na política centrista, quase que uma reminiscência de Merkel.

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