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"Amal": a viagem de uma marioneta gigante carregada de esperança

Robert Hradil

O projeto "The Walk" tem um lema: "Não se esqueçam de nós". Em conjunto com várias organizações culturais e humanitárias, o festival itinerante pretende reproduzir o percurso de uma criança refugiada síria em busca da sua mãe. Amal começou a sua jornada na Turquia e irá passar por oito países, num total de 8.000 quilómetros.

Amal é uma criança síria de nove anos que se viu obrigada a percorrer milhares de quilómetros para fugir da guerra. Sonha reencontrar a mãe, poder voltar à escola e começar uma nova vida. A história pode ser igual à de milhões de crianças refugiadas que atravessam fronteiras em busca de uma vida melhor. A única diferença é que Amal - que em árabe significa "esperança" - é uma marioneta de 3,5 metros e este percurso é um festival itinerante.

O projeto “The Walk” (“A caminhada” em português) pretende espalhar uma mensagem: “Não se esqueçam de nós”. O percurso de Amal tem como objetivo chamar a atenção para os desafios que os migrantes atravessam - em especial as crianças. Mas, mais do que consciencializar para a situação dos migrantes, os produtores deste evento recolhem também fundos para ajudar os refugiados a construir uma nova vida.

Este espetáculo surge numa altura em que há milhões de crianças em risco no Afeganistão, depois da tomada do poder pelos talibã.

“A pequena Amal representa os centenas de crianças que, tal como ela, fugiram da guerra e da perseguição e precisam do nosso apoio para reconstruir as suas vidas.”

Ao todo, Amal vai percorrer 8.000 quilómetros a pé, entre a cidade turca de Gaziantep e Manchester, em Inglaterra. Pelo meio, passa pela Grécia, Itália, França, Suíça, Alemanha e Bélgica.

Em cada paragem, Amal irá encontrar-se com a comunidade local e participar em eventos preparados em conjunto com diversas organizações culturais, humanitárias e grupos comunitários.

O percurso foi idealizado para representar as diferentes rotas de migrantes que chegam à Europa.

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A caminhada de Amal foi inspirada na peça “The Jungle”, a primeira obra de “teatro de esperança” produzida pela companhia britânica Good Chance. A peça foca-se na vida dos refugiados que habitavam o campo de Calais, em França, demolido em outubro de 2016.

O projeto conta ainda com a participação da sul-africana Handspring Puppet Company, que desenhou e concebeu a pequena Amal. Para enfrentar as dificuldades de um percurso com 8.000 quilómetros, a companhia optou por usar cana e fibra de carbono para que a marioneta fosse resistente e, ao mesmo tempo, leve.

Para conduzir Amal são necessárias três pessoas: duas para movimentar os braços e uma, no interior da marioneta, para caminhar e controlar as animações do rosto.

A caminhada começou no dia 27 de julho, em Gaziantep, Turquia, e termina a 3 de novembro, em Manchester, Reino Unido.

Nota: Este artigo será atualizado à medida que Amal faz o seu percurso

► Turquia: o início do percurso

A vigem da pequena Amal começou na cidade de Gaziantep, localizada a cerca de 30 quilómetros da fronteira entre a Turquia e a Síria. A escolha do ponto de partida deste festival itinerante não foi um acaso, uma vez que a cidade acolhe dezenas de milhares de migrantes sírios que procuram fugir da guerra.

O centro da histórica cidade encheu-se de luz, mostrando a Amal o caminho que deveria seguir. No castelo, um concerto deu as boas-vindas à jovem síria, motivando-a a continuar a busca pela mãe.

Amal admirou os monumentos de Adana, encontrou-se com amigos em Izmir e ficou a conhecer as tradições do país.

Em cada cidade que visitou, multidões seguiam-na e crianças corriam para a abraçar. A jovem síria ia agradecendo a todos o carinho, enquanto seguia o percurso.

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► Grécia: protestos e alteração do itinerário

A chegada de Amal à Grécia não foi bem aceite por todos. Em Meteora e Larissa, duas das cidades que integravam o percurso, a organização do festival enfrentou problemas com a comunidade.

Em Meteora, o concelho municipal chegou mesmo a banir a passagem de Amal pela vila, que é conhecida pelos históricos mosteiros ortodoxos. A comunidade afirma que é desrespeitoso ter uma marioneta que representa uma criança muçulmana a atuar num local de grande importância para a religião ortodoxa.

Mas essa não foi a única razão: os cidadãos de Meteora acusam a iniciativa de estar a promover a vinda de refugiados para o país, mostrando-lhes que caminho devem seguir.

A Grécia tem sido um dos países mais atingidos pelo aumento de migrantes que atravessam o mar Mediterrâneo: entre 2015 e 2016, mais de um milhão de refugiados chegaram ao país oriundos, principalmente, da Síria, Iraque e Afeganistão.

A resistência à presença de Amal fez com que o itinerário fosse alterado: “Se não somos bem-vindos, não vamos” disse David Lan, um dos produtores do espetáculo “The Walk”, ao New York Times.

Nesta cidade estava previsto que Amal passasse perto dos mosteiros históricos e que fizesse um piquenique com crianças locais. David Lan garante que tinha a aprovação das entidades regionais para realizar o evento.

Também na cidade de Larissa, a presença do festival provocou algum descontentamento. Enquanto uma procissão de pessoas seguia a marioneta e a recebia de braços abertos, um pequeno grupo organizou uma manifestação contra a presença de Amal na cidade. A polícia foi obrigada a intervir.

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► Itália: o reencontro com a bisavó

Amal chegou a Bari de barco, onde foi recebida pela bisavó - foi feita em papel machê pelo mestre italiano Putignano Domenico Galluzzi.

Depois de lhe ter dado conselhos para superar os obstáculos da longa da viagem, as duas abraçaram-se, num momento de emoção.

A chegada do festival a Itália marca também a ligação a um outro percurso de migrantes. A par com a Grécia, também Itália tem sido um dos principais pontos de chegada à Europa para requerentes de asilo que vêm do norte de África.

Amal seguiu em direção a norte, com paragens nas principais cidades do país. De Nápoles a Sanremo, passando por Roma ou Milão, Amal foi recebida pelas comunidades com músicas e danças tradicionais e nem a tempestade que se abateu sobre o país assustou a jovem síria, que resistiu à chuva, ao frio e à trovoada.

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► Vaticano: Papa Francisco tornou-se num amigo

Quando esteve em Roma, Amal fez um desvio e foi ao Vaticano. E foi aqui que fez um novo amigo: o Papa Francisco recebeu a marioneta e pediu às crianças que a acompanhavam que rezassem por ele.

O Papa Francisco é um fervoroso apoiante da integração dos refugiados e um promotor dos direitos dos migrantes. Ao ver a jovem síria de 3,5 metros de altura, o sumo pontífice estendeu a mão para agarrar na da marioneta, dando-lhe depois a bênção. O encontro aconteceu no pátio de São Damasco.

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Momentos antes, Amal tinha atravessado a colunata da praça de São Pedro e passeado nas largo à frente da imponente basílica. Parou também junto à estátua dos “Angels Unaware”, que representa os migrantes que perdem a vida na travessia, e abraçou-a.

A comitiva de "The Walk" foi recebida pelo cardeal Michael Czerny, responsável pelo Dicastério do Vaticano para a promoção do desenvolvimento humano..

“Amal é grande e bonita, e conhecê-la é um prazer”, disse o cardeal, citado pelo Vatican News, “mas ela lembra-nos imediatamente que conhecermos migrantes vulneráveis, trabalhadores inseguros e requerentes de asilo entre nós requer mais do que apenas um olhar. Cada um deles, com a sua bagagem de sofrimento e sonhos, necessidades e talentos, espera que abramos os nossos ouvidos, as nossas mentes e os nossos corações, os nossos olhos e estendamos as nossas mãos.”

► França: a visita às montanhas de Briançon

A chegada de Amal a França foi um momento de festa: a jovem síria participou num cortejo festivo pelas ruas de Marselha, onde cumprimentou o grupo de crianças e adultos que a esperava.

Mas um dos momentos deste percurso pelo país, foi a chegada à cordilheira de Briançon, que marcam a fronteira com Itália. Estas que são as mais altas montanhas de França, são também um dos percursos usados por refugiados para entrar no país. Neste local de tamanho simbolismo neste percurso, Amal observou uma exposição fotográfica que retrata os objetos e roupas deixados para trás pelos migrantes.

Em Lyon, Amal teve o privilégio de passar pelo portão do Parc de La Tête d'Or, que só abre em situações muito especiais.

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A jovem síria irá voltar novamente a França, depois de visitar a Suíça, a Alemanha e a Bélgica. Será a partir da cidade de Calais, no canal da Mancha, que irá fazer a travessia para para Inglaterra.

► Suíça: as Nações Unidas e a "Broken Chair"

Em Genebra, a principal paragem de Amal foi em frente da sede europeia das Nações Unidas. Acompanhada de um grupo de crianças, a jovem síria aproveitou também a passagem pela cidade para prestar homenagem às vítimas das minas, prostrando-se perante a gigante estátua da "Broken Chair" - "Cadeira partida" em português -, uma obra da autoria do escultor Daniel Brest.

► Alemanha: um amigo de luz

Ao chegar à Alemanha, Amal encontrou um amigo de luz: Dundu - que é uma junção das palavras alemãs "Du und Du", ou seja "Tu e Tu" - é uma marioneta gigante feita de luz que foi criada em 2006, por Tobias Husemann.

O encontro, em Estugarda, causou algum receio à menina síria, mas logo os dois se entenderam e Amal até sonhou com o seu novo amigo.

Depois de uma noite descansada, a criança continuou o seu percurso em direção a Colónia, onde visitou uma das mais alta catedrais do mundo. Antes de seguir em direção à Bélgica, Amal parou ainda em Rwcklinghausen.

► Bélgica: milhares de pessoas à sua espera

Foi, talvez, uma das maiores receções que Amal teve: em Antuérpia, as ruas encheram-se de pessoas que queriam dar as boas-vindas à crianças.

Depois de milhares de quilómetros percorridos, e com outros tantos pela frente, o calor dos cidadãos belgas alegrou o coração da menina.

Amal já tinha passado por Bruxelas, capital da Bélgica. A visita ao país inclui apenas três cidades, sendo Bouillon, a última paragem no caminho até ao canal da mancha. Aí, Amal diz adeus à União Europeia e atravessa em direção ao Reino Unido.

► Amal vai agora a caminho do Reino Unido...

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