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Chile a ferro e fogo com violência a alastrar na capital

Chile a ferro e fogo com violência a alastrar na capital

Depois de um fim de semana de relativa acalmia, os confrontos voltaram a subir de tom esta 2.ª feira, com a polícia a carregar sobre os manifestantes, que responderam com pedras em Santiago do Chile.

Desde o início dos protestos já morreram pelo menos 20 pessoas e mais de 2.000 ficaram feridas.

As autoridades estão também a investigar mais de 800 casos de alegados abusos como torturas, violações ou espancamentos de forças de segurança.

À 4.ª semana de protestos, falhou nova tentativa para apaziguar ânimos

A oposição chilena rejeitou hoje a proposta do Governo liderado pelo Presidente Sebastian Piñera para uma alteração constitucional iniciada e conduzida por parlamentares, exigindo que o processo seja mais participativo e alargado à oposição e a todos os chilenos.

Numa altura em que os protestos populares no Chile entram na quarta semana, apesar de já terem sido anunciadas várias medidas sociais, as forças da oposição chilena reagiram com críticas ao anúncio feito no domingo por Sebastian Piñera sobre a preparação de um projeto de alteração da atual Constituição, promulgada durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Após o anúncio de Piñera, o ministro do Interior, Gonzalo Blumel, esclarecia, depois de uma reunião com outros membros do executivo e deputados da coligação no poder, os passos seguintes do futuro processo.

"Concordamos em iniciar o caminho para avançar para uma nova Constituição. Entendemos que é um trabalho que devemos fazer a pensar no país", disse Blumel, explicando que o plano é que os parlamentares se reúnam com "todos os setores" para elaborar um texto que será votado posteriormente num plebiscito.

Para o presidente do Partido Socialista do Chile (PSC), Álvaro Elizalde, "deve-se convocar uma votação para iniciar um processo constitucional" e "os chilenos devem pronunciar-se se querem ou não uma nova Constituição (...) e sobre o mecanismo de elaboração".

Carlos Maldonado, líder do Partido Radical (PR), defendeu, por sua vez, que o melhor mecanismo para elaborar um novo texto constitucional é através de um plebiscito e uma Assembleia Constituinte, apelando ao Governo para coordenar com a oposição o roteiro da alteração constitucional.

"Esta vontade expressa pelo Governo deve materializar-se necessariamente através de um amplo acordo com a oposição, para que o processo seja legítimo, credível, claro e concreto", acrescentou Maldonado.

Na mesma linha de pensamento, o Partido Comunista do Chile (PPCH) assegurou numa declaração que "os cidadãos não irão validar uma Constituição proveniente do Congresso (Parlamento] mesmo quando, de forma enganosa, lhe é atribuído o nome de constituinte".

Aprovada em 1980 num controverso referendo e em plena ditadura de Pinochet, a Constituição chilena foi revista ao longo dos anos mais de 40 vezes, mas continua a ser foco de críticas por causa do seu espírito neoliberal e por favorecer a iniciativa privada em setores encarados como essenciais como a saúde, a educação ou o sistema de pensões.

A redação de um novo texto constitucional é uma das principais exigências da vaga de contestação popular que afeta o Chile desde o passado dia 18 de outubro.

Os protestos já provocaram a morte de 20 pessoas, cinco delas diretamente relacionadas com a repressão das forças de segurança das manifestações, e milhares de feridos e de detidos.

Também têm existido denúncias de abusos e de atos de tortura por parte de elementos das forças de segurança.

As manifestações no Chile surgiram inicialmente em protesto contra um aumento do preço dos bilhetes de metro em Santiago, decisão que seria suspensa e posteriormente anulada pelo Governo liderado pelo Presidente chileno Sebastián Piñera.

Mas apesar do recuo das autoridades, as manifestações e os confrontos prosseguiram devido à degradação das condições sociais e às desigualdades no país.