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7 questões-chave para compreender a operação militar da Turquia contra os curdos

A incursão turca no norte da Síria vai alterar mais uma vez o mapa do conflito sírio, inflingido também um grande golpe nas forças curdas que lutaram contra o Daesh. O que pretende a Turquia conquistar na região? Quais os riscos e os desafios que enfrenta ao envolver-se mais na crise síria? Quais as consequências para a região, nomeadamente, há hipótese de um renascimento do Daesh?

Há muito que o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan ameaça mandar tropas para o noroeste da Síria para limpar a fronteira dos combatentes curdos sírios que a Turquia considera uma séria ameaça à segurança.

E a oportunidade surgiu com o súbito anúncio de Donald Trump de que as tropas norte-americanas - que combateram ao lado dos curdos contra o Daesh - vão ser retiradas da região.

A Turquia lançou uma ofensiva militar contra os combatentes curdos no norte da Síria a 9 de outubro, com ataques aéreos que atingiram a cidade na fronteira de Ras al Ain.

Obus do exército turco posicionados na fronteira turco-síria, perto da cidade de Akcakale, no sudeste da província de Sanliurfa, Turquia, 7 de outubro de 2019.

Obus do exército turco posicionados na fronteira turco-síria, perto da cidade de Akcakale, no sudeste da província de Sanliurfa, Turquia, 7 de outubro de 2019.

Reuters

É a terceira incursão turca desde 2016, mas o que pretende a Turquia conquistar na região? Quais os riscos e os desafios que enfrenta ao envolver-se mais na crise síria?

O que quer a Turquia?

A Turquia quer criar aquilo a que chama uma "zona de segurança" numa faixa de território na fronteira a sudeste com a Síria, atualmente controlada pelos combatentes curdos sírios, conhecidos como Unidades de Proteção do Povo (YPG), que a Turquia considera terroristas com ligações ao ilegalizado PKK.

Combatentes curdos das Unidades de Proteção do Povo (YPG) numa parada militar a celebrar a vitória sobre o Daesh em Qamishli, Síria, a 28 de março de 2019.

Combatentes curdos das Unidades de Proteção do Povo (YPG) numa parada militar a celebrar a vitória sobre o Daesh em Qamishli, Síria, a 28 de março de 2019.

Rodi Said / Reuters

Erdogan quer estabelecer uma "zona de segurança" com 30 km de largura ao longo de mais de 480 km até à fronteira com o Iraque. Inicialmente ainda contava com o apoio dos EUA, mas que já se revelou que não vai acontecer.

Depois de assegurada essa zona, Erdogan pretende que sejam aí instalados os cerca de 2 milhões de refugiados sírios. A recolocação de tantas pessoas, além de não se saber como, levanta grandes dúvidas aos grupos de direitos humanos.

O Presidente tem falado de planos para construir cidades, hospitais e escolas, mas também diz que a Turquia, que já gastou cerca de 40 mil milhões de dólares em refugiados, não pode continuar a fazê-lo sozinha. Erdogan anunciou já que quer convocar uma conferência de doadores para ajudar a cobrir os custos e pediu às nações europeias que partilhem o fardo, avisando que a Turquia pode ser forçada a abrir os "portões" o que dará origem a um afluxo de migrantes para as nações ocidentais.

Como são os curdos afetados?

As Forças Democráticas Sírias (SDF), lideradas pelos curdos, tentam há anos aumentar o controlo sobre o território no norte e no leste da Síria, ajudadas pela coligação liderada pelos EUA contra o Daesh.

Curdos e aliados criaram os seus próprios órgãos de governo, insistindo sempre que o seu objetivo é a autonomia, não a independência.

Com o avanço militar da Turquia, toda esta situação pode alterar-se e complicar-se.

O Conselho Democrático Sírio, aliado das SDF, afirma que um ataque vai provocar uma nova onda de deslocados. Uma retirada total dos EUA expõe a área aos avanços turcos, a um renascimento do Daesh ou a tentativas das forças apoiadas pelo Irão e pela Rússia de ganharem terreno.

Confrontados com a perspectiva de retirada dos EUA no ano passado, os curdos iniciaram negociações com Damasco para um eventual posicionamento sírio e russo na fronteira. As negociações não avançaram, mas podem ser de novo uma opção com a retirada dos EUA e o avanço da Turquia.

Uma combatente das Forças Democráticas Sírias (SDF) no momento do anúncio de que o Daesh já não controlava o leste da Síria, a 23 de março de 2019.

Uma combatente das Forças Democráticas Sírias (SDF) no momento do anúncio de que o Daesh já não controlava o leste da Síria, a 23 de março de 2019.

Rodi Said / Reuters

Até onde pode a Turquia ir?


A região da fronteira nordeste da Síria, atualmente controlada por forças lideradas pelos curdos, estende-se por a 480 km - do rio Eufrates, no oeste, até a fronteira com o Iraque, a leste. Apesar de estar sob controlo curdo, esta parte da fronteira tem uma forte presença árabe.

O objetivo imediato da Turquia será numa seção da fronteira, entre as cidades de Ras al Ain e Tel Abyad, a cerca de 100 km de distância uma da outra. Ras al Ain foi alvo de ataques aéreos a 9 de outubro.

Tropas dos EUA e da Turquia numa operação conjunta na fronteira com a Síria, 8 de setembro de 2019.

Tropas dos EUA e da Turquia numa operação conjunta na fronteira com a Síria, 8 de setembro de 2019.

Rodi Said / Reuters

Que partido tomam a Rússia e o Irão?

A Rússia e o Irão, outras duas grandes potências estrangeiras na Síria, são os mais fortes apoiantes do Presidente Bashar al-Assad - ao contrário da Turquia e dos Estados Unidos, que querem a sua destituição e têm apoiado os rebeldes que lutam para derrubá-lo.

A Rússia diz que a Turquia tem o direito de se defender, mas o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse na segunda-feira que a integridade territorial da Síria deve ser preservada e que todas as forças militares estrangeiras "com presença ilegal" devem deixar a Síria.

Se os EUA retirarem todas as suas tropas do nordeste da Síria, o governo de Damasco - apoiado pela Rússia - pode tentar retomar o controlo de grande parte da região que a Turquia não conquiste.

Presidente russo, ministro da Defesa russo e Presidente sírio visita, a base aérea síria Hmeymim a 11 de dezembro de 2017.

Presidente russo, ministro da Defesa russo e Presidente sírio visita, a base aérea síria Hmeymim a 11 de dezembro de 2017.

Sputnik Photo Agency / Reuters

E dos países ocidentais aliados da Turquia?


Não há um apoio público dos aliados ocidentais da Turquia para o plano de Erdogan de instalar 2 milhões de sírios - mais da metade dos refugiados atualmente no país - no nordeste da Síria.

A maior preocupação dos aliados da Turquia é que uma grande afluência de sírios árabes sunitas numa região maioritariamente curda mude a demografia da região.

A União Europeia quer que a Turquia impeça a saída de refugiados para a Europa.

Campo de refugiados de Nizip, em Gaziantep, perto da fronteira entre a Turquia e a Síria.

Campo de refugiados de Nizip, em Gaziantep, perto da fronteira entre a Turquia e a Síria.

Umit Bektas / Reuters

Que consequências terá para Bashar al Assad?


Embora o território em questão já esteja fora do controlo do governo sírio, uma incursão turca pode significar um desequilíbrio de forças: um território que deixa de ser controlado por uma força não hostil à Síria - a SDF - para passar a ser controlado pela Turquia e pelos rebeldes que tentaram derrubar Assad.

Damasco há muito que vê Ancara como uma potência ocupante com projetos no norte da Síria. Tem ponderado fazer acordos com os curdos, mas nunca alcançaram nenhum.

Presidente sírio Bashar al-Assad a 17 de fevereiro de 2019.

Presidente sírio Bashar al-Assad a 17 de fevereiro de 2019.

Reuters

Uma nova hipótese para o Daesh?

O caos resultante de todos este conflito pode oferecer ao Daesh uma nova oportunidade de renascimento. O SDF tem vindo a realizar operações contra as células adormecidas do Daesh desde que capturou o último bastião da organização terrorista no início deste ano.

Os líderes curdos sírios alertam há muito tempo que o SDF pode não ser capaz de continuar o combate e a manter prisioneiros do Daesh numa situação de desiqulíbrio e destabilização provocados por uma invasão turca.

O SDF ainda mantém prisioneiros 5.000 combatentes do Daesh de nacionalidade síria e iraquiana e mais 1.000 estrangeiros de mais de 55 outros Estados, segundo o departamento de relações externas da administração liderada pelos curdos no norte da Síria.

Uma bandeira do Daesh - autoproclamado Estado Islâmico - numa casa destruída em Raqqa, Síria.

Uma bandeira do Daesh - autoproclamado Estado Islâmico - numa casa destruída em Raqqa, Síria.

Erik de Castro / Reuters