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Covid-19. “Vacinar mais gente com uma dose não garante marcha acelerada para imunidade de grupo"

Miguel Castanho analisa as possibilidades para responder ao atraso no fornecimento das vacinas.

Está a ser analisada a possibilidade de atrasar a toma da segunda dose da vacina contra a covid-19, de forma a que haja mais pessoas vacinadas. Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, explica que essa opção não “acelera a chegada ao ponto que se quer da imunidade de grupo”.

“Há duas escolhas legítimas: ter mais gente com uma proteção menor ou ter menos já com a proteção total que as vacinas podem garantir. Não há nada de muito factual ou concreto que aponte que uma solução é melhor que a outra. São escolhas que se podem fazer, mas, do ponto de vista coletivo, estarmos a vacinar mais gente com uma só dose não garante uma marcha mais acelerada para a imunidade de grupo. Isto é que é importante compreender”, explica o investigador à Edição da Tarde.

Miguel Castanho defende que, tendo em conta os que se sabe dos ensaios clínicos de ambas as vacinas aprovadas, se deve “manter um rigor no plano e fazer a administração da forma que está demonstrada que tem eficácia”.

Sobre a possibilidade de atingir a imunidade de grupo em agosto deste ano, tendo em conta o atraso na entrega das vacinas, é “um pouco contraditório”. O investigador explica que para atingir a imunidade de grupo é necessário que haja 70% da população imunizada, uma vez que nas restantes 30% o vírus não se multiplica e não alastra.

“Dizer que 70% [da população] está imunizada não é a mesma coisa que dizer que 70% das pessoas estão vacinadas. Porque as vacinas não garantem 100% de proteção, ainda que a atividade se mantenha alta, e porque nós temos entre nós agora estas variantes e o grau de proteção da vacina baixará em relação àquilo que foi garantido nos testes”, acrescenta Miguel Castanho.

O investigador lembra ainda que só iremos ter noção da eficácia do plano de imunização no próximo outono/inverno e que devemos evitar uma “euforia” durante o período do verão, podendo vir a "pagar isso" no início do outono.

“Nós podemos entrar numa certa euforia pelo verão que é semelhante à euforia que tivemos no Natal. No Natal era porque era uma época festiva e porque começou a vacinação. No verão pode ser porque há uma acalmia do vírus respiratório, porque estamos em fase de férias e porque temos a noção – ilusória ou não – de que chegámos à imunidade de grupo. Podemos vir a pagar isso mais tarde, no início do outono, quando retomarmos a atividade das escolas e social e com o início das condições climatéricas que são propícias ao vírus”, explica.

A longo prazo, o investigador considera que o novo coronavírus poderá tornar-se “menos perigoso ou pelo menos mortal” e passar a fazer parte do leque de vírus responsável pelas constipações sazonais, lembrando que alguns desses vírus fazem parte da mesma família que o SARS-CoV-2.

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