Saúde Mental

"O teu cérebro não funciona da mesma maneira das outras pessoas e não há qualquer problema com isso'"

SIC

António Raminhos sofre de Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC) e ansiedade. Aos 18 anos percebeu que algo se passava e decidiu procurar ajuda pela primeira vez. O humorista conta à SIC como a doença o continua a afetar hoje em dia.

António Raminhos conta que um dia ligou para a irmã a chorar e a dizer que não conseguia sair de casa, não era capaz de se apoiar quando andava de autocarro, nem de andar na rua e pisar qualquer coisa que temesse que o podia infetar de alguma forma.

"Ninguém consegue controlar os pensamentos, mas podemos escolher aqueles a que vamos dar atenção"

Os pensamentos eram persistentes e na altura o humorista pensou: "Preciso de ajuda".

Raminhos diz que o primeiro passo que as pessoas devem tomar é pedir ajuda, perceberem que sozinhas não conseguem e não terem medo ou vergonha de procurar ajuda num psicólogo ou psiquiatra.

"Se há algo que as incomoda, se há algo que sabem que está a limitar a sua vida, procurem ajuda. Vão a um psicólogo porque é a partir desse momento que começam a perceber que não são pessoas assim tão estranhas. (...) Ninguém consegue controlar os pensamentos, mas podemos escolher aqueles a que vamos dar atenção".

O humorista de 40 anos considera que é obsessivo-compulsivo desde pequeno, mas só reparou nisso já em adulto. Diz que em criança tinha determinados comportamentos que hoje em dia, quando pensa neles, crê que era a doença a dar sinais.

À SIC, contou que um dia chegou a casa e disse à família que tinha encontrado uma seringa na rua. A sua maior preocupação foi que podia ficar doente e sem se aperceber já estava a ter uma série de pensamentos que o levavam a questionar: "se eu fico infetado", "se a seringa tinha sangue", "se isto me vai fazer mal".

Mas nesta história, recordada pela irmã do comediante, há um pormenor interessante: Raminhos encontrou a seringa na rua, mas nunca lhe tocou com um dedo que fosse. "Provavelmente nem a pisei", acrescenta.

"Ser obsessivo-compulsivo é como ser toxicodependente"

António Raminhos compara-se, enquanto pessoa com POC, a um toxicodependente na medida em que a sua droga é a procura pela segurança e por respostas que muitas vezes não encontra.

"Eu tive uma crise grande de ansiedade, perdi completamente o controlo e entrei outra vez nestes 'loops'. É como se estivesse a voltar a tomar a droga".

No início, o comediante deparou-se com muitas questões ligadas ao medo da infeção e da contaminação. Por exemplo, se estivesse num café e fosse utilizar um guardanapo para se limpar e se, porventura, esse guardanapo tivesse uma mancha vermelha, mínima que fosse, Raminhos diz que já não se limpava com ele porque iria pensar que a mancha era de sangue.

No entanto, assume que o que devia fazer era uma de duas opções: ou ficar com o guardanapo na mão ou utilizá-lo para se limpar e assim lidar com a ansiedade.

"Tinha de atirar uma bolacha para o chão, apanhá-la e comê-la. Foi horrível"

A certa altura, o psicólogo de Raminhos recomendou-lhe um exercício para combater o receio da infeção. Passava por andar o dia inteiro com um pacote de bolachas e, quando se lembrasse, tinha de atirar uma bolacha para o chão, ficar algum tempo a olhar para ela e de seguida apanhá-la do chão e comê-la.

Admite que "foi horrível" das primeiras vezes que teve de fazer o exercício. "Eram picos de ansiedade e a minha cabeça andava por sítios que eu não controlava", afirma.

Esta e outras técnicas serviram para que ultrapassasse o medo e conseguisse lidar com a ansiedade. Diz que apesar de lhe ter custado muito, ao fim de muitas vezes a fazer sempre o mesmo, já achava alguma graça quando o fazia na rua e as pessoas ficavam a olhar.

"Há um conjunto de coisas que se pode fazer, mas é muito difícil e causa muita dor", sublinha.

"Percebi que estava a precisar outra vez de fazer um 'reboot'"

A chegada do verão costuma provocar ansiedade em António Raminhos. "Começo a panicar com os sinais, o sol e o cancro", conta.

O humorista revela que há uns meses visitou a dermatologista, que já conhece a sua condição, e depois da especialista analisar todos os sinais do seu corpo, concluiu que estava tudo bem. Raminhos diz que pouco tempo depois de ter saído do consultório, questionou-se: "E se eu tenho sinais na cabeça e ela não viu?".

Este foi o sinal de alerta que o levou a concluir que precisava novamente de ajuda e acompanhamento psicológico.

"Eu não tomo o comprimido para mascarar o problema"

Hoje em dia, Raminhos toma medicação que o ajuda a combater a ansiedade e a POC. Diz que não toma comprimidos "para mascarar o problema", mas sim para o ajudar a "resolver o problema".

Considera que, em certos casos, as pessoas mergulham num registo como se não houvesse salvação para o problema. Assume que há salvação, é o exemplo das pessoas curadas, mas prefere acreditar que a Perturbação Obsessivo-Compulsiva vai estar sempre a acompanhá-lo, mas que só depende dele mesmo aceitar que precisa de ajuda para ficar bem.

"O meu psiquiatra disse-me uma vez: 'Tem de te cair a ficha que tens um problema que é neurológico. O teu cérebro não funciona da mesma maneira das outras pessoas e não há qualquer problema com isso'", afirma.

"É muito complicado, afeta a vida familiar também"

Há cerca de cinco anos, o humorista começou a fazer meditação, entrou num processo de autoconhecimento que o tem ajudado "bastante", confessa.

Atualmente consegue controlar a ansiedade ao ponto de saber que ela está presente, mas não se deixar afetar por ela.

"No outro dia estava deitado no sofá e tive um pico de ansiedade, parecia que ia morrer. Mas consegui estar com a ansiedade e não lhe atribuir valor nenhum. Ou seja, eu estou a sentir isto, sei que é ansiedade, mas não vou relacioná-la com nada, vou só estar aqui", conta.

Em relação à forma como a mulher e filhas lidam com a ansiedade e a POC, diz que é complicado, uma vez que afeta a vida familiar.

"Eu estou sempre a pedir desculpa à minha mulher. E ela está sempre a dizer que não é preciso pedir desculpa. Mas é horrível. (...) Ela percebe quando eu estou em baixo e as miúdas também percebem".

"Temos de ter coragem para olhar para dentro de nós e perceber que temos um problema"

António Raminhos aconselha todas as pessoas a não terem medo de assumir o problema porque só quando aceitarem e procurarem ajuda é que vão conseguir ultrapassá-lo e aprender a lidar com ele da melhor forma. Para isso, diz que é importante que cada pessoa olhe para dentro de si e tente perceber o que realmente se passa com o seu corpo e a sua mente.

"Passamos a maior parte do tempo a olhar para fora, quando 10 minutos por dia a olhar para dentro de nós era o suficiente para percebermos que se calhar somos tão estranhos como um tipo que é obsessivo-compulsivo".

O humorista de 40 anos não se considera uma pessoa curada, diz que tem muitas crises e por isso é que fala do problema, para as pessoas perceberem que "é perfeitamente normal".

A Reportagem Especial da SIC “Todos somos estranhos até percebermos que é normal” leva-o a conhecer a como é viver com medos, ansiedades e angústias, mesmo antes da pandemia aparecer. Pode vê-la aqui.

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