Pandemia

"Para nós é muito difícil estender a mão à caridade. É a pior coisa que nos podem fazer"

Graça Costa Pereira

Graça Costa Pereira

Editora de Cultura SIC

Espetáculos adiados e cancelados, espaços fechados ou com lotação limitada, profissionais sem rendimento. A cultura revelou-se ainda mais frágil com o surgimento da pandemia. Foram criados novos problemas e ampliados os já existentes. Na Grande Reportagem falámos com trabalhadores de várias áreas da cultura: da música à literatura, do teatro à música de baile, do circo aos festivais de verão. O setor que não se faz só de artistas está "Fora de Cena" e sem prazo para regressar aos palcos.

Concerto na cozinha

Chegou uns minutos atrasado. Foi a Lagos, porque - disse ele, envergonhado - é "como as meninas" e quis dar um jeito ao cabelo. Chegou com uma t-shirt preta com Paris gravada no peito, mas trocou-a por um pólo laranja que lhe fez sobressair o tom. É músico de baile e vive em Espiche, no Algarve.

Cláudio Rosário tem 31 anos. Tem a música como única profissão, mas a pandemia ameaça mudar-lhe o futuro.

Fez o último espetáculo dia 8 de março. E depois, o país parou. Cláudio não chegou a fazer meia dúzia de espetáculos, desde a reabertura.

"Este ano, em seis meses, toquei 4 vezes", disse à SIC. "Logo no início houve a preocupação de as entidades ligarem, desculparem-se pela situação. Mas isto tornou-se tão banal que, hoje em dia, quase não há telefonemas para desmarcar. Nós não temos culpa e as pessoas também não. Era com aquele valor que punha pão na mesa e ia ficar sem ser faturado. Foi difícil encarar isso. Onde é que a gente ia buscar dinheiro se cada vez iam cancelando mais espetáculos?"

Para controlar as despesas, vive em casa da mãe com a mulher e com a filha, que nasceu este ano. A casa que tem teve de ser alugada, para garantir à família algum rendimento.

Faz da cozinha da mãe o estúdio de gravação. É ali que monta o órgão portátil. E foi na cozinha que cozinhou a canção "Pimba do Covid", que sonha levar ao palco.

Sem rendimentos na música, Cláudio está a chegar ao limite. Diz-nos que vai tirar a carta de pesados, para - quem sabe? - ser camionista.

Noite de estreia

Negro total atrás dos panos. Três folhas de papel ao alto desfilam indicações de posição e mudança de cenário. Há silêncio. A sala mantém-se vazia. O chão estala debaixo dos pés do assistente de produção que revê os últimos detalhes.

A música ambiente dispara às 21h30, meia hora antes do início do espetáculo. A máscara esconde o rosto dos que se cruzam nos bastidores. O público, meia-sala, há-de sentar-se com cadeiras de intervalo. Bate uma porta pesada. Vozes do outro lado do palco, últimos retoques e medos que se apagam. Click. Já se foi.

Vejo caixas de microfones e cabos que se alinham ao meu lado; alguns destes caixotes não sairão daqui tão cedo. Pressinto nervoso miudinho nos que vão entrar em cena, mas a sala continua vazia. 21h43: passos leves, o chão de madeira que range, o pano ainda fechado. Está prestes a estrear a peça que faz regressar ao palco 5 atores, após uma paragem forçada pela pandemia.

Entram.
Torno-me invisível.
Risos silenciosos e até ansiosos.
2 minutos.
A atriz vai ao papel para um último olhar às dicas. A madeira ainda fala debaixo dos pés. Sombras desfilam à minha frente enquanto uma luz de telemóvel ajuda a procurar caminho. Vem descalço, o assistente.
Um minuto.
Pé ante pé.
Toca um telefone.
São 10 horas, vamos a isto.
Abre o pano e ouvem-se aplausos para a Palco 13, no Teatro Diogo Bernardes, em Ponte de Lima.

Alexandre Carvalho é o primeiro a entrar em cena: "Acho que as pessoas começaram a perceber que a cultura é mesmo vital. É mesmo bom frisar isso porque não são só os atores: se não houvesse um luminotécnico para me dar luz eu fazia as cenas todas às escuras, se não houvesse um técnico de som para nos por música ou para nos micar as pessoas não ouviam... Há uma equipa gigante por trás de um espetáculo de teatro. Estou expectante, mas altamente feliz por poder voltar a fazer aquilo que amo."

Fora de Cena

Margarida Moreira entra no estúdio de iluminação do Teatro da Malaposta com um sorriso nos olhos. Há outro por detrás da máscara.

"Estou muito contente por ter tido a oportunidade de vir aqui dar uns toques e brincar um bocadinho aos espetáculos, já não faço isso há uma data de meses". Pedimos-lhe que fizesse o desenho de luz para a entrevista que deu à Grande Reportagem da SIC. Este ano, Margarida tinha uma digressão nos Estados Unidos com os californianos Testament. É uma banda de metal com a qual a portuguesa tem trabalhado. É freelancer, tal como o marido, que também gasta os dias nos bastidores dos espetáculos.

"A liberdade é muita, mas a proteção é nenhuma. Tanto eu como ele estamos habituados a guardar dinheiro. Nós tínhamos bastante dinheiro guardado, por isso foi dando. Metade com subsídios, metade com esse dinheiro. Fomos cortando todas as despesas supérfluas e chegámos a uma despesa mensal que nos aguenta, sei lá, acima da linha da água, que nos aguenta durante uns meses. O resto é na base do: "Olha, acredito"."

Tem colaborado como voluntária com a União Audivisual. O grupo formado em março para apoiar profissionais do setor da cultura ajuda, por mês, 250 famílias. "Ver as pessoas que chegam e os pedidos de ajuda que são feitos, isso traz-nos – a mim traz-me – muita revolta e muita amargura. Vamos sabendo de casos pontuais de colegas que tiveram que deixar a casa, que estão a viver em casa dos pais, que estão a viver em situações muito pouco dignas."

Caixa de Vento

Quando Diogo Soares acabou o curso, em julho, já sabia que o esperava um começo de carreira difícil. Toca vários instrumentos, mas é na flauta tranversal que reconhece o seu maior talento. Aos 23 anos, conseguiu um trabalho temporário, a dar aulas semanais de piano numa academia de artes, no Parque das Nações.

Diogo sabe que precisa de mais, para ser músico e viver só da modalidade. Tem tido o apoio da família que lhe tem garantido meios de subsistência e de estudo.

"O primeiro instrumento que tive foi um piano, que foi a minha mãe que comprou lá para casa. Comprei a minha primeira flauta - que me foi oferecida por um tio. Comprei, depois, uma outra flauta, que me foi oferecida pelo meu avô; mais recentemente, outra flauta, também oferecida pelo meu avô. E houve o processo da guitarra - porque sou um autodidata na guitarra - e um tio meu também me ofereceu a guitarra. Portanto, posso dizer que não cheguei a investir nenhum do meu dinheiro, mas sem a ajuda dos meus familiares teria sido impossível estar onde estou". E quanto valem esses instrumentos, pergunto. Diogo pensa uns bons segudo para fazer as contas: "35 mil euros", conclui.

Na Escola Profissional Metropolitana, onde estudou, fez amigos e formou um quinteto. Os "Caixa de Vento" juntam a flauta e o oboé, a trompa, o fagote e o clarinete. Ainda nem todos terminaram o curso. Esperam, em conjunto, e num futuro menos restritivo para a cultura, atuar com público. A carreira ainda agora começou, mas os aplausos já fazem falta.

São algumas das personagens de um setor abalado pela pandemia. Como nos diz a escritora Dulce Maria Cardoso, "a pandemia, o que fez foi ampliar as fragilidades preexistentes".

Os bastidores da reportagem Fora de cena

Na Grande Reportagem "Pandemia - Fora de Cena" procuramos fazer um retrato da forma como se (sobre) vive na cultura, nas várias áreas, em todo o país.

Numa altura em que se discute o orçamento para 2021, as perpetivas são pouco animadoras e muitos dos que precisam de ajuda não vão poder contar com o Ministério da Cultura. As características do setor colocam muitos trabalhadores - e entidades - nas dependências de outras áreas governativas, como a economia e a segurança social. O processo de recuperação será lento e, para boa parte das pessoas, parece distante. Nalguns casos, será impossível.

FICHA TÉCNICA:

JORNALISTA: Graça Costa Pereira

REPÓRTERES DE IMAGEM: Edgar Ascensão e Euclides Semedo

IMAGEM DRONE 4K FLY

EDITORA DE IMAGEM: Marisabel Neto

GRAFISMO: Tiago Vieira

PRODUÇÃO EDITORIAL: Diana Matias

COLORISTA: Rui Branquinho

PÓS-PRODUÇÃO ÁUDIO: Octaviano Rodrigues

COORDENAÇÃO: Amélia Moura Ramos

DIREÇÃO: Marta Brito dos Reis e Ricardo Costa

A PÁGINA DO ESPECIAL PANDEMIA