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Viver com asma numa pandemia: o mundo ficou alerta, os asmáticos em dose extra

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Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

Falta de ar, tosse, pieira peito apertado e cansaço são realidades das pessoas com asma, uma doença respiratória crónica. Em 2020, a pandemia chegou a Portugal. Os alarmes soaram. Mais de um ano depois, a SIC Notícias procurou esclarecer algumas dúvidas.

A SIC Notícias foi falar com cinco asmáticos sobre a pandemia: o que sentiram, os cuidados que tiveram e possíveis alterações na doença. Paulo Melo e Ricardo Gôja de Carvalho são asmáticos e tiveram covid-19. Um deles - Paulo - esteve internado nos cuidados intensivos, num hospital de Lisboa, mas Ricardo teve apenas sintomas leves. Pedro e Sofia não tiveram covid, mas contam que estão em teletrabalho e mais protegidos. Tiveram receio, sobretudo pelos filhos. Tiago Alfaro, pneumologista e asmático, também ficou apreensivo no início da pandemia, mas o dever falou mais alto. Não apanhou o vírus e já foi vacinado.

Do receio à proteção extra

Há uma palavra comum nas conversas que a SIC Notícias teve com asmáticos: medo. Referiram-no quando questionados sobre o que sentiram quando ouviram falar do "novo coronavírus". O vírus era desconhecido. Não se sabia a que países tinha chegado, o que provocava nas pessoas doentes e nas restantes, nem as sequelas de uma possível infeção. O mundo ficou alerta e os asmáticos em dose extra, por já terem uma doença respiratória.

Pedro Mendonça é asmático desde que se lembra. Com receio da pandemia, marcou uma consulta com o médico imunoalergologista que o acompanha há alguns anos. Conta que antes "não tomava os medicamentos religiosamente", sobretudo no verão, que é quando tem menos crises.

"O médico disse-me que, com a pandemia, era para tomar a medicação preventiva religiosamente. Naquele segundo disciplinei-me", diz, em entrevista à SIC Notícias.

Depois, com o teletrabalho e os filhos em telescola, pôde ir uns tempos para a casa que tem no Algarve. É lá que se sente melhor porque o clima é mais seco. "A humidade afeta-me imenso", adianta. Os convívios com amigos acabaram. E longe do trânsito de Lisboa, o stress, que provoca alterações no diafragma e na respiração, diminuiu "imenso". Faz triatlo há mais de 10 anos e reconhece que é viciado. Faz dois treinos por dia. São cerca de 20 horas por semana. Com a pandemia, passou a treinar em casa: "Isolei-me completamente até começar o risco a diminuir".

"Transformei os meus treinos. Durante o confinamento treinava mais de mil quilómetros por mês em casa", conta.

Sofia Pinto, de 34 anos, também asmática, lembra a "nuvem negra que pairou na cabeça". Tem dois filhos pequenos. "Aquilo que tu ouvias era que esta doença deixa-te de cama", recorda. Gestora de produto, lembra a conversa que teve com o chefe: "Em setembro do ano passado algumas pessoas foram convidadas a voltar para a empresa e eu fui clara com o meu chefe". Disse-lhe que não queria voltar ao trabalho presencial porque tem asma e dois filhos bebés.

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Também Ricardo Gôja de Carvalho, que tem asma alérgica, reconhece que ficou "um pouco assustado" porque era um vírus desconhecido. Asmático há 28 anos, passou a sair de casa só para o essencial: fazer compras, trabalhar e apanhar ar.

"Não saio para encontros sociais, por exemplo. Enquanto a maior parte da população portuguesa não estiver vacinada, não me sinto seguro para fazer jantares com amigos", diz.

Apanhou covid no final de novembro do ano passado, através da irmã, que estava a fazer um tratamento oncológico no hospital.

"Estava sempre a ver as notícias para ver se já havia casos em Portugal. Fiquei com receio", recorda Paulo Melo, de 45 anos, diagnosticado com asma aos 13 anos.

Paulo tem dois trabalhos, que lhe ocupavam os dias e onde estava em contacto com pessoas. Veio para casa por ser asmático e, dias depois, foi diagnosticado com covid-19. Esteve mais de 40 dias internado nos cuidados intensivos e temeu pela vida.

Tiago Alfaro, pneumologista, dá-nos os "dois lados da moeda". Por um lado, como médico, sentia que tinha de estar na linha da frente do combate à pandemia. Mas por outro, tinha asma e "algum receio" do que o vírus pudesse provocar. Depois o tempo passou, alguns dados foram chegando e o pneumologista ficou mais descansado: "Rapidamente o 'lidar com a pandemia' se sobrepôs a todos os outros cuidados. Acabei por estrar envolvido desde o início na resposta à covid-19 no meu hospital e correu tudo bem. Não tive a doença e acabei por ser vacinado como todos os médicos".

O receio entre os asmáticos foi reconhecido pelo médico imunoalergologista João Gaspar Marques, imunoalergologista e coordenador do Grupo de Interesse de Asma e Alergia no Desporto da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica:

"No início, os doentes asmáticos em particular tiveram um medo enfatizado por acharem que vão ter uma problema adicional porque a covid-19 é uma doença respiratória e a asma também. Passaram a ter mais atenção, a cumprir melhor a terapêutica".

Em entrevista à SIC Notícias, o especialista, coordenador do Grupo de Interesse de Asma e Alergia no Desporto da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, referiu também que a utilização de máscara e o distanciamento físico contribuíram para a diminuição das infeções respiratórias. Esta tendência foi reforçada pela pneumologista Cláudia Chaves Loureiro, que acrescentou que os asmáticos ficaram mais protegidos das "agressões ambientais" por terem ficado mais tempo em casa.

Entre asmáticos, não há maior frequência de covid-19 nem maior gravidade

À SIC Notícias, três especialistas esclarecem que as pessoas com asma controlada não têm maior risco de apanhar covid-19, nem de ter complicações em caso de infeção. Mas a probabilidade de desenvolverem sintomas mais complicados aumenta se se tratarem de doentes com asma grave - "doentes que não conseguem estar sem sintomas, que não têm a asma controlada e que fizeram corticoide oral no último ano", explica a pneumologista Rita Gerardo. Esses doentes, com 16 anos ou mais, foram incluídos nos grupos prioritários da fase 2 da vacinação contra a covid-19.

"Existem muitos fatores que podem interferir negativamente com o risco associado à infeção de covid-19, como a obesidade e o tabagismo. Nesses casos, sim, pode haver uma maior gravidade da asma. Mas, na maioria dos casos, o que tem sido mostrado é que a covid-19 não influencia a asma", refere a pneumologista Cláudia Chaves Loureiro, reconhecendo que não há maior frequência de infeção nem maior gravidade da doença.

A médica Rita Gerardo, também coordenadora da comissão de Alergologia Respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, reafirma que, "com o passar do tempo", percebeu-se que a asma não é uma doença com risco para "internamento e eventual evolução fatal", em caso de infeção.

"Em termos de publicações internacionais, também são estes os dados em relação à asma. A asma não parece ser uma doença de risco quer para apanhar a doença, quer para ter uma evolução mais grave", afirma.

A ideia é reforçada pelo pneumologista Tiago Alfaro: "Fomos percebendo ao longo dos primeiros tempos que mesmo os doentes asmáticos que acabavam por contrair a doença, na maior parte dos casos, não tinham uma doença mais grave do que os não asmáticos. Depois de alguns estudos de maior dimensão percebemos que os únicos asmáticos que pareciam ter um risco aumentado eram aqueles com forma mais graves de asma tinham feito corticoide no último ano".

"Era como se ouvisse toda a gente à minha volta e não me conseguia mexer"

Paulo Melo, asmático desde os 13 anos, diz que, com a idade, sente cada vez mais cansaço. Aos 45 anos, usa a bomba três vezes por dia: de manhã, à tarde e à noite. Subir uma rua ou umas escadas e carregar um peso, mesmo que seja um saco de compras, tornaram-se desafios complicados.

Ao longo da vida esteve internado muitas vezes e passou por situações complicadas com a asma, como conta. Mas nenhuma como a que passou com a covid-19. Esteve internado no Hospital Curry Cabral 41 dias, muitos deles na Unidade de Cuidados Intensivos. Chegou a estar entubado. Um ano depois, recorda, em entrevista à SIC Notícias, o que sentiu. Lembra-se de lhe "passar tudo pela cabeça, pensar em toda a gente, como se nunca mais fosse ver ninguém". Diz que são "sensações que uma pessoa nunca espera passar".

"Já tive vários episódios de asma e nunca foi tão estranho e tão forte. Tive muita falta de ar mesmo, o oxigénio não chegava. Todos os dias era picado nos pulsos para me tentarem ver o oxigénio. Fui picado tantas vezes que a uma certa altura já não sentia os meus pulsos. É daquelas sensações que espero que não volte a acontecer. Estar preso, privado da liberdade, sem fazer nada é uma das piores coisas", afirma.

"Era como se ouvisse toda a gente à minha volta e não me conseguia mexer. O maior receio foi não conseguir sair do hospital. Passei dias e dias nos cuidados intensivos, num quarto sozinho. Parecia que as horas não passavam. Só via os médicos e enfermeiros quando precisavam de lá ir", recorda.

Não sabe onde apanhou o vírus, em março do ano passado. Começou a ter sintomas no dia 25. Três dias depois piorou e foi reencaminhado para o Hospital de São José, em Lisboa. "Foi tudo muito rápido", conta, até ser internado no Hospital Curry Cabral.

Ricardo teve sintomas leves, mas o vírus desenvolveu a doença da irmã

Ricardo Gôja de Carvalho, que apanhou covid-19 em novembro do ano passado, não ficou surpreendido com a infeção. Primeiro apanhou a irmã, que vivia na mesma casa que ele. "Não usamos máscara em casa, obviamente que ia ter um teste positivo", diz. O professor de 31 anos teve sintomas leves: "uma pequena crise" de rinite e perdeu o olfato durante duas semanas. Ficou "a 100%" um mês depois de ter ficado infetado. No entanto, o vírus levou-lhe a irmã.

"Infelizmente, a minha irmã faleceu em janeiro de 2021 por causa do cancro da mamã. A covid-19 ajudou acelerar o desenvolvimento da doença", conta.

Recuperação depende da alguns fatores. Há casos de cansaço "muito intenso"

No caso dos asmáticos que estiveram infetados com covid-19, a recuperação vai depender "do grau de compromisso pulmonar que a infeção covid implicar", explica Cláudia Chaves Loureiro, pneumologista e professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Já a pneumologista Rita Gerardo diz que não tem observado diferenças na função respiratória, no entanto, reconhece que alguns ficaram com cansaço muito intenso.

"Os níveis de oxigénio estão normais e as provas respiratórias também, mas mantêm o cansaço, que é algo que pode durar, à luz do conhecimento atual, várias semanas, se não for mais tempo", conta.

Foi o que aconteceu com Paulo Melo, que é acompanhado pela pneumologista Rita Gerardo:

"Consegui fazer provas respiratórias - avaliação da função respiratória e pulmonar. Por acaso ele tinha feito provas um mês antes de ter a doença e consegui fazer outras passado uns meses de ter tido a doença e, na verdade, estão bastante sobreponíveis ou até ligeiramente melhores".

Um ano depois da infeção, o homem de 45 anos ainda não conseguiu voltar aos dois trabalhos. O motivo é o cansaço. "Não ia conseguir aguentar", desabafa. Paulo está a tomar antidepressivos e comprimidos para dormir porque não conseguia ter uma "noite descansada". Também tem ansiedade:

"Se eu estiver na minha zona de conforto, tudo bem, mas se for a algum sítio com muita gente, fico com muita ansiedade. Começo a transpirar e fico com receio de passar por aquilo de novo".

"Foi bom porque estou vivo, mas é um ano que eu nunca vou esquecer de certeza absoluta", afirma.

No caso de Ricardo Gôja de Carvalho, a asma não piorou depois de ter apanhado covid-19. O professor tem a asma controlada. Usa a bomba - broncodilatador - todos os dias e sprays por causa da rinite alérgica. Com o tempo, aprendeu a controlar a doença e a ansiedade com técnicas respiratórias: inspirar e expirar pela barriga, exemplificou. Toma medicação para a ansiedade, mas está "bastante controlada". Também deixou de ser alérgico aos morangos, ao chocolate e ao pelo do cão.

"Para mim, foi um pouco estranho [quando era mais novo] não poder comer morangos e chocolates. Só podia comê-los em dias de festa e em pequenas quantidades", conta.

Covid "veio alertar a comunidade" para sintomas respiratórios

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Sobre o diagnóstico da asma durante a pandemia, a pneumologista Cláudia Chaves Loureiro admite que o SARS-CoV-2 possa ajudar.

"A asma é uma doença muito subvalorizada e às vezes há diagnósticos tardios. Esta infeção covid veio alertar a comunidade em geral para os sintomas respiratórios", afirma

A ideia é corroborada pelo pneumologista Tiago Alfaro:

"Houve um número muito elevado de doentes que acabou por chegar aos cuidados de sáude porque teve covid ou suspeita. Esses doentes acabaram por fazer mais exames, mais avaliação. Tivemos alguns diagnósticos de asma e de outras doenças respiratórios nesse contexto".

É preciso "desmistificar" o receio da vacinação, alertam especialistas

Os doentes asmáticos não têm contraindicações em relação à vacinação contra a covid-19. A médica e professora universitária Cláudia Chaves Loureiro alerta que é preciso "desmistificar um pouco esse receio inicial que se fez sentir". A exceção é apenas para alergias "muito específicas" a medicamentos.

"Um doente com asma, por si só, não tem risco de desenvolver reação alérgica à vacina. O risco existe se tiver uma alergia conhecida a um dos componentes da vacina ou se já teve uma reação alérgica grave, uma reação anafilática, com necessidade de administração de medicação específica a fármacos ou a alimentos. Nesses casos a administração deve ser feita em meio hospitalar", esclarece a pneumologista Rita Gerardo, também coordenadora da comissão de alergologia respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, à SIC Notícias.

Em comunicado enviado à SIC Notícias, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia recomenda a vacinação contra a covid-19 e reforça que as reações alérgicas são raras e que nenhuma doença alérgica "contraindica de forma absoluta a toma". Mas salienta que há casos que devem ser "previamente avaliados".

Os doentes com asma grave com uma terapêutica com corticoides sistémicos foram incluídos no grupo prioritário para vacinação contra a covid-19 na fase 2, segundo a Norma n.º 002/2021 de 30/01/2021, atualizada no passado dia 21 de abril.

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