Muro de Berlim caiu há 30 anos

Modelo que nasceu com a queda do Muro de Berlim "está a ficar obsoleto"

Herbert Knosowski / AP

Especialistas em relações internacionais alertam que as mudanças podem não ser pacíficas.

Especialistas em relações internacionais, ouvidos pela Lusa a propósito dos 30 anos da queda do muro de Berlim, a 9 de novembro, defendem que a ordem regional que nasceu com a queda do muro de Berlim e a reunificação da Alemanha está a ficar obsoleta, mas alertam que as mudanças podem não ser pacíficas.

"Tal como aconteceu em 1989/90, é altamente provável que o modelo da ordem regional que nós adotámos há 30 anos esteja a ficar obsoleto", considerou o analista político Miguel Monjardino.

Para Miguel Monjardino, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, a diferença é que em 1989 os acontecimentos foram muito rápidos e agora é tudo mais lento.

"Isso dificulta a leitura dos acontecimentos, quer por parte das sociedades quer por parte dos líderes políticos", considerou, sublinhando acreditar que "vem aí um novo modelo de ordem regional".

Também a investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais Patrícia Daehnhardt acredita que a mudança é inevitável, mas avisa que a transição "pode não ser tão pacífica como a que aconteceu no final dos anos 1980". "Aprendemos que pode haver uma transição da ordem internacional pela via pacífica", mas "também aprendemos que isso foi um momento excecional nas relações internacionais", referiu a investigadora.

"O grau de consenso alcançado na altura terá mais a ver com uma certa fraqueza estratégica, para não dizer falência estratégica, da URSS e incapacidade de impedir a entrada do território da antiga Alemanha Democrática na NATO e, em última instância, o alargamento da NATO".

A investigadora sublinha que, ainda hoje, a Rússia reage a este alargamento.

"Um dos argumentos que a Rússia de [Presidente Vladimir] Putin usa é que terá sido feita uma promessa por parte do Ocidente, por parte dos Estados Unidos, de que a NATO não se iria alargar para o leste europeu e, inclusive, que não iria incluir o território da antiga Alemanha Democrática, mas sabemos que essas promessas - que talvez tenham existido numa fase inicial da negociação - não passaram de promessas verbais".

Patrícia Daehnhardt salienta as novas relações EUA, Europa, Rússia, Turquia.

"Apenas passaram 30 anos, mas estamos num momento de tal complexidade nas relações entre EUA, Europa, Rússia, Turquia que, de facto, as incertezas são muitas e aumentaram: temos o Brexit, temos populismos diversos, temos uma relação transatlântica em crise, temos alguma incerteza quanto à permanência dos EUA enquanto potência pacificadora devido ao pivot asiático e também temos os países europeus que mantêm uma postura algo ambígua relativamente à sua própria segurança e defesa".

Também para Miguel Monjardino, as mudanças de 1989/90 têm repercussões no contexto da atualidade.

"Quando o modelo proposto por Helmut Kohl [então chanceler da Alemanha Ocidental] é adotado [em 1990] , implicou a transposição das instituições euro-atlânticas, - na altura, a NATO e a Comunidade Europeia - para o centro e leste da Europa", disse, explicando que "a exportação do modelo da Europa ocidental para a Europa central e a de leste era atraente" por "ser rápida" e porque "os principais interlocutores conheciam o sistema".

Mas isto teve consequências.

"A primeira é que a Rússia fica de fora" e "num estatuto ambíguo e marginal. Essa marginalização acentua-se ainda mais quando a URSS entra em colapso um ano depois", referiu, explicando que a reação da Rússia a um modelo de ordem regional" com o qual "não se conforma" levou Putin a entrar numa guerra contra o separatismo da Geórgia, em 2008, e a anexar a Crimeia, em 2014.

A segunda consequência, adiantou o professor, é que a Alemanha vive um problema de coesão, quer devido à migração externa quer à interna.

"Trinta anos depois da queda do muro de Berlim e da unificação da Alemanha (...) a maior parte das pessoas jovens na Alemanha e altamente qualificadas não querem viver no leste do país, querem todas viver no centro e no Oeste", referiu Monjardino, lembrando que o leste da Alemanha é o território "onde a extrema-esquerda e a extrema-direita têm mais votos".

Por fim, referiu as consequências da exportação da ordem regional da Europa ocidental para a Europa central e de leste a seguir a 1990 em países como a Polónia ou a Hungria.

Apesar de a situação ter permitido, então, a integração desses países na União Europeia e na NATO, "esses países não estão dispostos a abdicar de um certo tipo de nacionalismo que sempre caracterizou a sua história porque sempre foram dominados".

Por outro lado, a antiga Europa de leste também sente que "a ordem regional, da forma que está organizada, deixou de ser altamente benéfica para as suas sociedades".

Lusa

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