Livrai-nos da guerra

"Estes rapazes sentiam uma proteção: diziam «vela por mim Mãe», como diriam à sua mãe"

"Estes rapazes sentiam uma proteção: diziam «vela por mim Mãe», como diriam à sua mãe"

O testemunho dos intervenientes na Grande Reportagem

As "cartas" a Nossa Senhora sobre a guerra em África, reveladas na Grande Reportagem "Livrai-nos da guerra", são sobretudo escritas por mulheres, confirmando o caráter maioritariamente feminino da experiência devocional de Fátima. Nestas mensagens perpassa a ideia de um acolhimento incondicional e maternal como leitura do divino.

O historiador Carlos Azevedo, bispo-delegado do Conselho Pontifício da Cultura, realça que "há uma expressão afetiva para com a mãe e um transporte da dimensão existencial dessa expressão para a vivência espiritual". A "ligação com a devoção mariana" faz-se também como "forma de apaziguar o coração". No contexto da guerra em África, explica o prelado, eram as mulheres que ficavam para trás e "acabavam por transmitir a aflição do regresso ou não dos entes queridos".

O feminino, acrescenta Marco Daniel Duarte, responsável pelo Arquivo do Santuário, "é o polo da humanidade que mais facilmente se coloca na posição de pedir e nestas mensagens parece que isso se pode confirmar".

Foi o que verificou Ana Bela Vinagre. Casada com um deficiente das forças armadas, escreveu um livro sobre a mulher "nas malhas da guerra colonial". Sempre viveu em Leiria e durante a guerra via as mulheres em peregrinação, a pé, a caminho de Fátima. Ana Bela Vinagre relaciona o símbolo devocional e maternal com o risco de vida experimentado pelos soldados: "Nossa Senhora é mãe também, era o símbolo a que eles se podiam agarrar, se calhar esperavam o tal milagre".

Entendendo a figura de Nossa Senhora de Fátima como "«alguém» a quem as pessoas se dirigem com confiança", o historiador António Matos Ferreira interpreta os testemunhos de fé dos ex-combatentes, "gente que se safou na guerra", como sinais de uma "religiosidade de gratidão". Uma leitura que se ajusta a Manuel Antunes (Moçambique, 1967-1969): "A minha fé foi fortificada na guerra". Este ex-combatente, emigrado no Canadá, visita todos os anos o santuário na Cova da Iria.

Graça Alves, autora do livro "Cartas no Intervalo da Guerra", entende que a Nossa Senhora que acompanhou os militares em cenário de guerra - fosse uma imagem na forma de escultura, uma pagela, uma medalha ou apenas uma referência para rezarem - é também "a imagem da mãe" (biológica). A investigadora considera ter sido "importante para estes rapazes sentirem que havia ali uma proteção. Diziam «vela por mim Mãe», como diriam à sua mãe".

Um desses "rapazes" foi Joaquim Gregório (Angola, 1961-1963), hoje taxista na Batalha. Esteve nos primeiros contingentes em Angola e participou na emblemática tomada de Nambuangongo. Foi ferido com gravidade, chegou a ser dado como morto. "A fé para mim valia tudo. A gente tinha muita fé", assegura, lembrando que, assim que regressou de Angola, foi a Fátima a pé acompanhando vizinhas que tinham rezado por ele.

"O saber-se amado dá coragem" e "a mãe é uma palavra de proteção, de amor incondicional: «faças o que fizeres, venhas como vieres, eu amo-te»", diz a psiquiatra Luísa Gonçalves. Médica no Hospital das Forças Armadas, onde acompanha ex-combatentes vítimas de stress pós-traumático, Luísa Gonçalves valoriza a dimensão religiosa: "há uma Mãe do Céu, que lhes dá fé e que, independentemente do que lhes aconteça e em que se transformem, os vai sempre acolher, e isso era preciso" para atenuar o sofrimento.

Emocionado, Idílio Amaral (Angola 1964-1966) conta como assistiu à morte de um camarada: "Levou três tiros no pescoço. Só teve tempo de dizer: «ai minha mãe, ó mãezinha, ó mãezinha...». Por fim, conclui, "só se percebia a mímica: «Mãe». Morreu com a mãe atravessada no coração". O presidente da Liga dos Combatentes reconhece a força do sentimento religioso nas circunstâncias limite, constatando que, entre a vida e a morte, "um soldado normalmente tem duas expressões: ou chama pela mãe ou diz «ó meu Deus»". Mas só conhecendo "a experiência concreta", defende Joaquim Chito Rodrigues, é possível saber "se chama pela mãe física ou pela mãe transcendente".

Os capelães militares eram, por vezes, o derradeiro refúgio espiritual nos momentos mais difíceis. O padre Agostinho Brígido (Angola, 1967-1975) diz que "havia soldados que confiavam mais na proteção da Mãe - Nossa Senhora - do que nas armas que tinham". Soldados como José Vieira (Moçambique 1972-1974): "Muitas vezes pedia a Nossa Senhora que me protegesse e trouxesse são e salvo".

Há muito a estudar sobre a história de Fátima, a guerra em Africa, a religião e o país no século XX, a partir do simples testemunho de ex-combatentes devotos. Nomeadamente, o papel da fé em situações extremas e, vice-versa, o impacto destas na reconstrução do fenómeno religioso.

Nas comoventes despedidas dos soldados, no cais da Rocha de Conde d'Óbidos, em Lisboa, frei Bento Domingues, padre dominicano e teólogo, autor do livro "A Religião dos Portugueses", revia as procissões do adeus em Fátima: "as pessoas pensam que isto é uma fuga, mas não, é o inevitável, e quem não compreende isto não entende a dor de um país em guerra". Os filhos iam para a guerra "e as pessoas choravam lágrimas que ninguém pode contar..."

Mais informação no Especial Livrai-nos da Guerra

"Livrai-nos da Guerra" - I

"Livrai-nos da Guerra" - II