Livrai-nos da guerra

"Regressei, mas alguns ficaram lá..."

"Regressei, mas alguns ficaram lá..."

O testemunho dos intervenientes na Grande Reportagem Livrai-nos da Guerra

Manuel Antunes, Wasaga Beach, Canadá - Moçambique 1967-1969

A viver em Wasaga Beach, no Canadá, depois de circular por outras terras da diáspora portuguesa, Manuel Antunes não larga as memórias da guerra em África. Esteve em Moçambique de 1967 a 1969. Confessa que não sentiu a vida em risco durante a comissão, mas passou fome "ao som de morteirada" e lembra que "todos os dias havia perigos e incertezas".

Vem anualmente a Portugal, para visitar a Fátima. A Grande Reportagem acompanhou-o na chegada ao aeroporto de Lisboa e em mais uma ida ao santuário, acompanhado pela mulher, canadiana, e pelo filho. A devoção, escreveu-a em Moçambique, onde "rezava a Senhora de Fátima todos os dias".

Andava sempre com uma pequena carta no bolso, uma espécie de curriculum vitae abreviado: "caso alguma coisa acontecesse, saberiam o meu nome, quem eram os meus pais, onde tinha nascido e que tinha fé em Deus e Nossa Senhora".

Hoje, guarda este papel como lembrete, uma espécie de amuleto para espantar os fantasmas da guerra. É uma folha azul, já gasta, com palavras consumidas pelo tempo, através das quais pede a proteção da "Senhora de Fátima para regressar a casa".

Receando as consequêcias, "não falava muito alto" sobre a guerra em Moçambique, com a qual, diz, discordava. "A minha fé foi fortificada na guerra", desabafa, dizendo que vem anualmente a Fátima "apenas para agradecer, não para pagar promessas".

Emocionado, chora ainda a morte de alguns camaradas: "regressei mas alguns ficaram lá".