Livrai-nos da guerra

"Quando vim, não dormia"

"Quando vim, não dormia"

O testemunho dos intervenientes na Grande Reportagem Livrai-nos da Guerra

"Explodiu uma mina anti-carro reforçada... o corpo dele ficou feito em bocaditos... apanhei poucos quilos... são traumas... isto a mim afetou-me muito... quando vim, não dormia". É com controlada emoção que Manuel Valério relata um dos episódios que mais o narcaram na guerra. Esteve em Moçambique de 1970 a 1972, com a missão de socorro. Um dia teve um ferido grave: "Ele pedia-nos para a gente lhe dar um tiro, que ia morrer, e eu disse-lhe: «tem coragem, tu não morres pá, pede a Nossa Senhora, Nossa Senhora ajuda-te pá. E não morreu mesmo. Não morreu porque eu cuidei dele, não é... acho que foi um bom trabalho que fiz, pelo menos salvei a vida daquele homem".

Manuel Valério teve a ajuda da namorada para manter a ponte com Fátima. "A gente estava sempre com o pensamento em Nossa Senhora, para Ela nos proteger", conta este ex-combatente que vive na Batalha. A proximidade de Fátima fê-lo devoto ainda em criança. Na partida para a guerra, a namorada, hoje esposa, ofereceu-lhe um fio de ouro na condição de que, se voltasse vivo, o teria de entregar no santuário: "Quando viemos tirou-me o fio e foi lá a Fátima entregá-lo a Nossa Senhora".

Falavam de Fátima na correspondência e quando regressou trazia um poema: "Mãezinha vou-te dizer Que em terras de Moçambique É uma pura escravidão Nem ao meu maior inimigo Eu desejo tal castigo Mãezinha do coração..."