Livrai-nos da guerra

"Era a estupidez da guerra..."

O testemunho dos intervenientes na Grande Reportagem Livrai-nos da Guerra

Taxista na Batalha, Joaquim Gregório não dispensa uma boa oportunidade para falar da guerra. "Gosto de falar da guerra, para deitar fora aquilo que a gente sente ainda hoje, porque a guerra nunca passa, a gente sente-se toda a vida", explica. Foi para o norte de Angola num dos primeiros contingentes. Participou na emblemática operação da tomada de Nambuangongo, em 1961.

Foi ferido três vezes e chegou a ser dado como morto: "veio uma rajada e apanhou-me no peito, ainda saltei da viatura mas daí para a frente não me lembro de mais nada". A família chorou a perda durante mês e meio, até que ele deu notícias. Sobreviveu "por milagre" ao ferimento grave. Ainda tem fragmentos dos projeteis no corpo. Foi condecorado. As pessoas conhecidas ainda o tratam como "o morto-vivo".

Na Batalha houve uma corrente de oração e penitência por ele. "Houve senhoras que foram a Fátima a pé por mim e quando vim foram comigo lá pagar promessas", revela. Lembra que "todos os dias rezava o terço" em Angola. Continua a ir a Fátima, até em memória dos camaradas que também eram devotos: "a gente tinha muita fé".

Quase 60 anos depois, enquanto nos conduz de taxi pelas ruas da Batalha, resume em poucas palavras o lhe vai na alma: "aquilo era a estupidez da guerra..."