Livrai-nos da guerra

"Ai minha mãe, ó mãezinha, ó mãezinha..."

"Ai minha mãe, ó mãezinha, ó mãezinha..."

O testemunho dos intervenientes na Grande Reportagem Livrai-nos da Guerra.

Idílio Amaral, de Viseu, esteve em Angola entre 1964 e 1966. Regressou com sequelas psíquicas, mas capaz de ter uma vida normal. Casou com a mulher com quem se correspondia na guerra. Ainda hoje sonha com o adeus da despedida no cais da Rocha de Conde d'Óbidos, em Lisboa.

Não teve ninguém da família na partida para África. "Talvez tenha sido melhor assim, uma despedida... é doloroso demais", diz, recordando que aquelas cerimónias no cais "eram uma fachada, porque havia gente que desmaiava e chorava e quanto mais choravam mais a fanfarra tocava..."

Idílio conta na Grande Reportagem SIC como contribuiu para a construção de uma capela dedicada à Senhora de Fátima em Angola. A mulher, Maria de Lourdes, revela o que sentia à distância: "Consoante ele sentia aquela fé, eu sentia na mesma e ouvia uma voz que dizia «está tudo bem»... não sei se era a minha cabeça ou estava a ficar louca".

Era "uma sensação", deduz Idílio, que mantém uma forte devoção pela Senhora de Fátima. A correspondência era a forma de se segurarem mutuamente. Idílio contava tudo o que passava na guerra, "porque ela queria que lhe contasse", até ao dia em que desconfiaram que uma carta fora violada.

"Ele é que sofreu as guerras lá, mas eu cá passeia-as na mesma", lembra Maria de Lourdes, que entendia Idílio e sentia que a correspondência "era uma ajuda" para os dois.

Durante anos a tratar soldados com stress pós-traumático, Luísa Gonçalves, psiquiatra no Hospital Militar de Lisboa, testemunhou que "há uma vivência horrível de sofrimento com o medo de perda de uma pessoa que está longe", e esse medo "da perda de uma pessoa que se ama é muito violento, às vezes mais do que o medo de perder a própria vida".

A médica realça a fé como elemento importante para ajudar a superar estas situações, no momento e posteriormente: "por vezes é necessário acreditar que há uma proteção porque a guerra é um fenómeno tão brutral que qualquer ser humano vem dela perturbado".

Emocionado, Idílio conta o episódio a que assistiu da morte de um camarada após um combate: "Levou três tiros no pescoço. Só teve tempo de dizer: «ai minha mãe, ó mãezinha, ó mãezinha...». Por fim, só se percebia a mímica: «mãe». Morreu com a mãe atravessada no coração".