Incêndio na Notre-Dame

Este não é o relato da jornalista que viu a Notre-Dame arder

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É uma lição sobre adiarmos momentos na nossa vida.

14 de abril de 2019. Chegava a Paris para umas curtas férias em família. Era a primeira vez que visitávamos a capital francesa.

Chamem-lhe um acaso, mas nesse domingo à tarde uma fila extensa à frente da catedral fez-nos adiar a visita. Achávamos que, porventura, a uma segunda-feira, a multidão que se acumulava para entrar seria menor.

Não podíamos imaginar que no dia a seguir veríamos, a poucos metros de distância, um dos maiores símbolos de França arder.

15 de abril de 2019. Era o final da tarde. Depois de vários quilómetros e de visitarmos alguns dos pontos mais emblemáticos da capital francesa, decidimos regressar para a zona junto ao hotel onde estávamos hospedados, perto da Notre-Dame. Era essa a última paragem do dia, a que tinha sido adiada desde o dia anterior.

Ao longe, uma coluna de fumo esbranquiçado indicava que se estava a passar qualquer coisa.

Só iríamos perceber o quê ao chegar mais perto. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o grupo que se acumulava na rua. Todos a olhar para o mesmo sítio e de telemóveis em riste. Foi nesse momento que me apercebi que a Notre-Dame estava em chamas.

Não sei se por instinto ou decisão consciente, a primeira coisa que fiz foi avisar, cá em Lisboa, a redação. Mandei umas fotografias e vídeos, avisei que não sabia bem o que se estava a passar, mas que se viam labaredas a sair por um dos lados.

Fiz uma rápida pesquisa pelas redes sociais e nada. Nenhum site francês estava a avançar nada. Nem mesmo quem estava na rua, a olhar diretamente para as chamas, conseguia perceber bem, naquela altura, a dimensão do acontecimento.

Ao meu telemóvel chegavam-me mensagens a pedir “mais", até porque tínhamos muitos milhares de leitores no site a querer informações.

Acumulavam-se já centenas, senão milhares de pessoas junto ao rio. Toda a gente queria ver. Ouvia-se um burburinho e, ocasionalmente, cruzava-me com alguém que estava a chorar (esses certamente já conscientes da importância do que se estava a passar). O resto, estávamos todos incrédulos. Ninguém sabia bem o quê, muito menos o porquê ou como.

Desligando do meu lado de jornalista, vivi intensamente todos os momentos que se seguiram.

Começava a aperceber-me, aos poucos, que talvez nunca chegasse a entrar na Notre-Dame. Que naquela noite podia perder-se uma das mais antigas catedrais da Europa. Que aquele pedaço de história nunca mais seria esquecido.

Acho que nunca me vou esquecer que, durante essa noite, não houve um minuto em que não se ouvissem sirenes na rua. O resto, nos dias que se seguiram, pode ser recordado aqui.

14 de abril de 2020. Ainda hoje, um ano depois, me parece surreal ter vivido esse momento ao vivo e a cores, sem ser pela televisão ou pelo feed de uma qualquer rede social com atualizações ao minuto, ou até mesmo a dar a notícia de última hora atrás de um ecrã de computador e de um teclado da redação do online da SIC Notícias (ainda que, de certa forma, o tenha feito).

14 de abril de 2020. Um ano depois, sou encorajada por uma colega jornalista (e amiga) a escrever este texto. Diz-me que, cada vez que fala sobre o incêndio na Notre-Dame, se lembra de mim e conta esta história.

15 de abril de 2020. Um ano depois, a Notre Dame continua a ser reconstruída e não se sabe muito bem quando os trabalhos estarão completos. Há três possibilidades apontadas pelas autoridades para a origem do incêndio, mas continuam a não haver certezas.

A única certeza que tenho é que quando regressar a Paris, quando a catedral for reaberta ao público, a primeira coisa que vou fazer é visitá-la, mesmo que seja domingo e a fila tenha umas boas centenas de metros.

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