Histórias de 28mm

"Houve fases da doença em que quis morrer, mas depois conformei-me"

Rui Caria

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

Uma História 28MM

O voo de São Salvador para Lisboa foi o último que fez como comissário de bordo; poucos meses depois, estava numa cadeira de rodas. Uma encefalopatia, segundo refere, foi o diagnóstico que resultou de mais de três anos a percorrer diversos hospitais.

Élio Barcelos, agora com 51 anos, luta com a enfermidade desde os 43.

Rui Caria

Os sintomas de vertigem e tonturas começaram ao chegar a Lisboa, vindo do Brasil. Élio não imaginava, ao aterrar, que aquela tinha sido a sua última viagem, não apenas de avião, mas da vida que tinha e gostava de ter. "Tenho saudades dos meus aviões, da minha casa em Lisboa e da azáfama daquela cidade que é a mais bela do mundo".

Rui Caria

Esteve amarrado a camas de hospital durante semanas enquanto as convulsões lhe tomavam o corpo já torcido pela doença. A consciência também o abandonou durante meses, "o meu corpo estava lá, eu é que não; tenho vagas memórias daqueles meses e o que sei, foi porque me contaram. Eu parecia um bicho."

Conta, com a voz trémula, mas ao mesmo tempo ansiosa, como se as palavras quisessem sair todas ao mesmo tempo; "fiquei assim com este falar acelerado e engasgado, deixei de saber ler porque trocava as letras todas. Ainda hoje tenho de pensar para perceber algumas palavras que leio."

O Élio diz não saber que doença tem, e até hoje nenhum médico arriscou dar-lhe um nome mais específico do que "doença no cérebro". A última viagem de avião do Élio, já como passageiro, aconteceu de Lisboa para a Ilha Terceira, onde vive agora numa casa gerida por uma instituição de solidariedade social.

Veio para perto da família, mas prefere ter a sua independência garantida, mesmo que vestir um simples casaco signifique vários minutos de luta entre a peça de roupa e os movimentos descoordenados do corpo. Por vezes, esmaga a sanduíche ao levá-la à boca, já que não tem sensibilidade na mão que ainda consegue pegar nalguma coisa.

Rui Caria

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"Vou morrer com 100 anos", diz a sorrir, porque apesar da doença ser degenerativa progressiva, como lhe disseram os vários médicos que consultou, o Élio tem vindo a fazer progressos e a contrariar o rumo das previsões que chegaram a ser de morte em poucos meses. Resiste a sorrir.

Está sempre a sorrir, este homem que teve de voltar a aprender coisas que ninguém se lembra de ter aprendido; como andar, comer ou falar.

"Nada é adquirido nesta vida. Nunca pensei que depois de uma viagem de trabalho vinha a ficar neste estado. Houve fases da doença em que quis morrer, mas depois conformei-me e aceitei que era assim que tinha de ser."

Rui Caria

Teve o apoio dos amigos da companhia aérea portuguesa, que numa semana conseguiram angariar dinheiro para lhe comprarem um pequeno carro eléctrico. Nele percorre a cidade da Praia da Vitória, mas é junto ao mar que gosta de passar mais tempo. É fascinado pelo Sol porque diz que este lhe sabe a vida e a esperança.

O Élio está reformado por invalidez e embora não lhe sobre muito dinheiro em cada mês, diz ter essa parte da vida resolvida. A outra parte, a que realmente importa, fica por conta daquele Sol; o Sol que espera poder ver, até aos 100 anos.

Rui Caria

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