Queda do BES

Queda do GES. 25 arguidos acusados pelo Ministério Público

Ricardo Salgado

JOSE SENA GOULAO

Decisão foi conhecida esta terça-feira.

A acusação do Ministério Público (MP) sobre a queda do Grupo Espírito Santo foi conhecida esta terça-feira.

"O Ministério Público do Departamento Central de Investigação e Ação Penal deduziu acusação contra 25 arguidos, 18 pessoas singulares e 7 pessoas coletivas, nacionais e estrangeiras, no âmbito do processo principal do designado “Universo Espírito Santo”, lê-se na nota do MP.

Além do ex-presidente do banco Ricardo Salgado foram ainda acusados José Manuel Espírito Santo; Manuel Fernando Espírito Santo; Amílcar Morais Pires - ex-braço direito do antigo banqueiro; Isabel Almeida, antiga administradora financeira do banco; Francisco Machado da Cruz, antigo contabilista do GES; António Soares, Paulo Ferreira, Pedro Costa, Cláudia Faria, Pedro Serra, Nuno Escudeiro, Pedro Pinto, Alexandre Cadosch, Michel Creton, João Martins Pereira, João Alexandre Silva e Paulo Jorge.

O comunicado termina com a indicação de que a "(...) investigação levada a cabo (...) apurou um valor superior a onze mil e oitocentos milhões de euros, em consequência dos factos indiciados, valor que integra o produto de crimes e prejuízos com eles relacionados."

Ricardo Salgado acusado de 65 crimes incluindo associação criminosa

O ex-presidente do Banco Espírito Santo foi acusado de 65 crimes, incluindo associação criminosa, corrupção ativa no setor privado, burla qualificada, branqueamento de capitais e fraude fiscal.

Ricardo Salgado foi acusado de um crime de associação criminosa, em coautoria com outros 11 arguidos, incluindo os antigos administradores do BES Amílcar Pires e Isabel Almeida. Está também acusado da autoria de 12 crimes de corrupção ativa no setor privado e de 29 crimes de burla qualificada, em coautoria com outros arguidos, entre os quais José Manuel Espírito Santo e Francisco Machado da Cruz.

O Ministério Público acusou ainda o ex-líder do BES de infidelidade, manipulação de mercado, sete crimes de branqueamento de capitais e oito de falsificação.

Defesa diz que Ricardo Salgado não praticou qualquer crime

A defesa de Ricardo Salgado já respondeu, diz que o ex-banqueiro não praticou qualquer crime e esta acusação "falsifica" a história do Banco Espírito Santo. O advogado considera que a resolução do banco em 2014 foi desastrosa e está a condicionar a Justiça.

“É uma acusação pré-anunciada desde o dia 3 de agosto de 2014, data em que o Governador cessante do Banco de Portugal anunciou a morte do BES (depois deste banco ter sido afundado em provisões ilegais) e proferiu a "sua sentença" para justificar o desastre da resolução, que agora, está a condicionar a Justiça.”, refere a defesa.

MANUEL DE ALMEIDA

“A partir dessa desastrosa decisão que não foi sua, o Dr. Ricardo Salgado sempre soube que todos os pecados dos que tomaram esta decisão seriam expiados na sua pessoa e que, com enorme probabilidade, passaria o resto dos seus dias a lutar por Justiça nos Tribunais”, lê-se na nota da defesa de Ricardo Salgado.

O antigo banqueiro diz que lutará até às últimas consequências.

Queda do BES

Graves prejuízos e a disputa na sucessão dentro da família Espírito Santo abriram uma crise no interior do grupo. Nem a joia da coroa - o BES - escapou, dando origem ao Novo Banco.

Esta é uma investigação que decorre desde 2014, altura em que o maior grupo económico do país ruiu.

Foram precisos seis anos para o Ministério Público concluir aquela que pode vir a ser a maior acusação de sempre e que deverá superar as quatro mil páginas da Operação Marquês.

Nas últimas semanas, alguns dos principais arguidos voltaram a ser interrogados e foram confrontados com novos indícios.

"Ricardo Salgado fez tudo para que a troika não entrasse no banco. Esse erro foi fatal"

Ricardo Costa diz que a demora do processo se justifica porque a Justiça portuguesa precisava de muita documentação que estava no estrangeiro, nomeadamente na Suíça. No Jornal da Noite da SIC, Ricardo Costa sublinha que este caso é a "maior falência e fraude bancária do pós-25 de Abril".

Ricardo Costa considera ainda que se a troika tivesse entrado no Banco Espírito Santo, o banco ainda existia nos dias de hoje, teria o mesmo nome e não estava lá Ricardo Salgado. E teriam sido poupados muitos milhões de euros aos portugueses.

José Gomes Ferreira diz que Ricardo Salgado não tem condições para escapar à acusação do Ministério Público, uma vez que era o líder da instituição bancária.

No Jornal da Noite da SIC, José Gomes Ferreira explica que a acusação conhecida esta terça-feira é assente em dois pontos principais: “falsificação de documentos e a questão de se arranjar dinheiro do próprio banco para entregar ao grupo que estava falido”.

Salgado obrigado a pagar multa de 3,7 milhões por atos de gestão ruinosa no BES

Depois do Tribunal Constitucional rejeitar o recurso por duas vezes, Ricardo Salgado foi mesmo obrigado a pagar uma multa de 3,7 milhões de euros devido a atos de gestão ruinosa no Banco Espírito Santo.

A coima ao antigo banqueiro, confirmada pelo Tribunal Constitucional, tinha sido determinada pelo Banco de Portugal. Para além da multa, ficou também impedido, durante 10 anos, de exercer funções sociais em instituições financeiras e de crédito.

O percurso de Ricardo Salgado

Ricardo Salgado liderou o Grupo Espírito Santo durante mais de 20 anos. Foi com ele que o império se reergueu depois das nacionalizações do pós-25 de Abril, mas também foi com ele que acabaria por se afundar.

Os amigos mais próximos dizem que ficou sozinho e isolado, o que lhe deu tempo para escrever um livro de memórias, polémico, que deverá ser publicado em breve.