Forçados Amadores

Ford Transit, Gloria Mundi

O realizador John Ford em 1942

Anonymous

Montes, vales e planícies. Amplas paisagens naturais. Índios, “cowboys” e a Cavalaria. Um vasto leque de figuras lendárias: Wyatt Earp, William Cody (“Buffalo Bill”), o bando de Jesse James, Billy the Kid, Touro Sentado, James Butler Hickok (“Wild Bill Hickok”), Martha Jane Canary-Burke (“Calamity Jane”) e por aí fora.

Romances, folhetins, cinema e televisão perpetuaram no tempo a memória dos nomes e as aventuras vividas, entre mito e realidade, pelos que enriqueceram aquilo a que hoje se chama de “Velho Oeste”. Neste domínio merece destaque uma figura de proa que conquistou por mérito próprio e resoluto um lugar de honra na História do cinema: John Ford.

Comecemos, porém, por dois nomes de quem poucos terão ouvido falar: James Warner Bellah e Willis Goldbeck. E não surpreende que pouco se tenha ouvido sobre eles, uma vez que boa parte das suas vidas foi passada a escrever coisas para outros lerem e dizerem. O primeiro viveu intensos 77 anos, até um ataque cardíaco fulminante lhe quebrar o curso de uma vida que o levou a combater nas duas guerras mundiais, a ser ele próprio correspondente de guerra, pioneiro da aviação e profícuo viajante, sendo que a escrita foi sua íntima amiga sobretudo nas décadas de 30 a 50 do século XX, traduzida em inúmeros contos, argumentos e uma vintena de romances em que o “western” era tema principal. Já Willis Goldbeck focou a sua vida no cinema, onde foi produtor, realizador e argumentista numa vida iniciada em 1898 e concluída em 1979, três anos depois da morte do seu companheiro de argumento de um dos mais notáveis filmes de John Ford: “The Man Who Shot Liberty Valance” (“O Homem Que Matou Liberty Valance”). Realizado em 1962, o filme que terá porventura os maiores bifes na história do cinema, foi um dos últimos trabalhos assinados pelo magistral realizador cuja carreira se havia iniciado em... 1917.

Filmado a preto e branco, com uma exemplar fotografia assinada por William Clothier – parceiro habitual de Ford e nome obrigatório em inúmeros “westerns” – o filme conta a história de dois homens que lutam inesperadamente pela mesma mulher e contra a ameaça constante de um vilão brutal e sem escrúpulos, num combate travado em função do caráter de cada um dos seus intervenientes. O filme, incontornável e obrigatório para os amantes do cinema ou adeptos do grande entretenimento, ficou curiosamente conhecido por uma frase escrita pela dupla de argumentistas acima referenciada: “Isto é o Oeste, senhor. Quando a lenda se torna um facto, imprima-se a lenda.” O mais extraordinário é que a frase – ausente do romance de Dorothy M. Johnson no qual o filme foi baseado – é proferida já quase no final da história e por um personagem bem secundário nesta trama bem urdida por mão do experiente realizador.

Deste, valerá ainda a pena destacar (que não significa reduzir) mais duas obras-primas: “Stagecoach” (“A Cavalgada Heróica”), de 1939, que tem a particularidade de projetar para o estrelato um ator que andava a tentar mostrar-se em séries incipientes chamado... John Wayne. Seria o início de uma longa e estreita colaboração entre realizador e ator cujo ponto mais alto de entre pontos altos terá sido o inesquecível “The Searchers” (“A Desaparecida”). A dramática busca de anos pelo resgate de uma sobrinha raptada pelos índios foi considerado o melhor “western” de todos os tempos pelo American Film Institute e é uma das películas guardadas nos arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Obra a todos os títulos admirável, “A Desaparecida” merece ser vista vezes sem conta, pelo que há que aproveitar a sua exibição esporádica no Canal Hollywood que, em boa hora, tem presenteado os seus espectadores nesta época de recomendada permanência no domicílio com uma série de filmes que têm no faroeste o seu território.

Também por isso aqui deixo a sugestão de visionamento de “Rio Bravo”, obra maior do grande Howard Hawks que, realizado em 1959, é ainda hoje justamente considerado o epítome de muito do que se fez e ainda se faz em matéria de “westerns”. A este propósito sublinhar que, em tempos mais recentes (e que ainda assim já vão distantes) são dignos de nota o divertido e agitado “Silverado”, dirigido em 1985 pelo sempre seguro Lawrence Kasdan, “Heaven´s Gate” (“As portas do Céu”), um épico de quase quatro horas realizado em 1980 pelo incompreendido Michael Cimino ou, claro, “Unforgiven” (“Imperdoável”), que valeu quatro óscares a Clint Eastwood, entre os quais os de Melhor Filme e de Melhor Realização em 1992.

De referir por último que todos os filmes aqui referidos estão disponíveis em venda direta (a preços módicos) ou nas plataformas de “streaming”, via prioritária para muitos que, em casa, não abdicam do melhor que o cinema tem para oferecer.

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