Forçados Amadores

Sobrinhos do Tio Sam

Michael Moore em 2008, quando o documentário "Sicko" foi nomeado para os Óscares

Fred Prouser

O que sabemos nós da América? Na verdade quase tudo, na verdade quase nada, na mentira um pouco de ambas.

Vimos os filmes, as fotografias, os documentários, as imagens de arquivo, a História contada vezes sem conta. Sabemos da Route 66, da rocha esculpida do Mount Rushmore, da imensidão do Grand Canyon, da exuberância da Rodeo Drive, do “glamour” e dos escândalos de Hollywood, dos atentados, domésticos e externos, da influência geopolítica, do Superbowl, das excentricidades, do “El Dorado” que já foi para gerações de emigrantes, dos “gangsters” e da Lei Seca. Sabemos muito do pouco que sabemos. Por essa razão, o que sabemos nós da América?

A pergunta mais não é que um pouco festivo desfile de dúvidas, reforçado pela imagem de uma enfermeira que, num eloquente desabafo insurgente, lamenta de forma incontida não ter material suficiente de proteção individual, salvaguarda possível para a sua própria segurança e para todos os que a rodeiam no resiliente exército que combate as trevas com a luz que diariamente procura irradiar. E não é um hospital qualquer, se bem que pudesse ser um qualquer hospital: a imagem veiculada nos noticiários mostra atrás do desespero da enfermeira as letras que anunciam com orgulho o Mount Sinai Hospital, sito no número 1468 da Madison Avenue, em Nova Iorque. Os 1141 leitos hospitalares pecaram por defeito face às ocorrências causadas pelo prolongado surto pandémico que afetou e afeta o planeta.

Este exemplo, entre a eventualidade de outros que se não conhecem, pode servir como ponto de partida ao lançamento de interrogações sobre o serviço de saúde de um país onde, em 2017, nove dos dez antibióticos mais vendidos tinham proveniência... da China; um país com uma produção deficitária de penincilina; um país com um complexo e doloroso sistema de seguros de saúde que, em boa parte dos casos, penaliza severamente (e por vezes irreversivelmente) a quem eles adere.

Por esta e outras razões me permito sugerir vivamente o visinamento de “Sicko”, um incrível documentário produzido e realizado pelo pouco consensual Michael Moore no ano de 2007. São duas horas de um retrato inacreditável sobre o modo de funcionamento dos planos de saúde nos Estados Unidos, habilmente manipulados por grandes empresas que, sem qualquer pudor ou enquadramento ético, tornam reféns milhões de norte-americanos, dependentes do capricho e das elaboradas considerações legais que não entendem para poderem ambicionar uma assistência médica de que necessitam.

São histórias simultaneamente firme e pungentes de gente que perdeu o que já não tinha, não sabendo sequer o que já havia perdido. São histórias de indignação, incompreensão e resignação face a uma esperança que lhes foi dada e retirada pela força dos lucros que alimentam as seguradoras na exata medida em que adensam a subnutrição de quem delas precisa. Há sorrisos tristes, incredulidades, ironias trágicas e uma espécie de sufoco moral que perpassa por cada uma das situações retratadas, mesmo aquelas onde é suposto encontrarmos algum conforto.

É essa América menos conhecida que é mais exposta num documentário com uma redobrada atualidade face ao que foi e deixou de ser o programa nacional de saúde de Barack Obama e o que dele fez e quer fazer o atual inquilino da Casa Branca. O que remete para alguns estilhaços da questão inicial desta crónica: será mesmo possível conhecer a América? Ou, mais ainda: será possível explicá-la? Porque não é fácil explicar um país que, num contexto atual ou ancestral, ainda não aprendeu a lidar com a sua própria diversidade: social, económica, cultural e por aí fora. Dentro dos muros de Trump ergue-se um perigoso condomínio de injustiça, agravada pelos caprichos e verdades absolutas, que são relativas e que às vezes nem são verdades, numa altura em que o país mais precisava do seu presidente, de um presidente.

As imagens, os depoimentos e a narrativa de Michael Moore, disponíveis na íntegra no YouTube, podem até estar ligeiramente desajustadas no tempo, mas não são menos impressionantes no contexto de um país que apresenta a trágica aritmética dos números que somam morte e subtraem vida. Um país que parece mergulhado numa tempestade perfeita. Pois o que mais poderá dizer-se de uma Sala Oval cuja principal cadeira é ocupada por alguém que, em plena crise pandémica, parece mais preocupado em apresentar, de modo provinciano, uma Força Espacial quando a Terra enfrenta um dos seus maiores desafios? Talvez Trump, tão obcecado pela liderança dos Estados Unidos no planeta, consiga encontrar na desgraça que é o seu raciocínio político, a graça que o faz ignorar o primeiro lugar do pódio que agora ocupa: o do país com o maior número de vítimas da Covid-19.