Forçados Amadores

O Gene

O elenco do Star Trek original, Hollywood, 2004

Gene Blevins

Foi no Estado da Estrela solitária que a texana cidade de El Paso assistiu aos primeiros passos de Eugene Wesley Roddenberry. O nascimento aconteceu a 19 de agosto de 1921 e deixou de o ser a 24 de outubro de 1991. Entre uma e outra datas todos os dias pertenceram a Gene Roddenberry.

A eles correspondeu com uma vida plena de ação e talento, reconhecida no plano civil e militar. Foi herói na II Guerra Mundial, condecorado após cumprir 89 missões ao serviço da Força Aérea. Finda esta, trocou os aviões de combate pelas linhas comerciais. Piloto do seu próprio destino, este o levaria a seguir o percurso paterno ao serviço da polícia de Los Angeles. A cidade do cinema levou-o direto para a televisão. De argumentista incipiente passou a figura requisitada no particular universo da escrita para o pequeno ecrã. Não que ficasse propriamente à espera de oportunidades, antes procurando criá-las com a criatividade saída da sua imaginação e das histórias pintadas pela sua pena. Dela saíram textos avulsos para séries já em exibição, deixando aos poucos a sua condição de escritor fortuito para se tornar autor com assinatura exclusiva num produto de razoável sucesso.

“The Lieutenant” preencheu os serões televisivos dos sábados de milhares de norte-americanos entre 1963 e 1964, ano em que Gene Roddenberry gastou dois dólares para registar o nome de uma série por si criada, junto da Associação de Argumentistas da América. A série, ainda à espera de aprovação, precisaria de dois anos até chegar e estrear a 8 de setembro de 1966. Chamava-se... “Star Trek”.

Consta que a ideia embrionária de “O Caminho das Estrelas” terá sido potenciada depois de Roddenberry ter assistido a “Master of the World”, um filme de reduzido impacto realizado em 1961 por William Witney e escrito por Richard Matheson, na modesta opinião do escriba um dos grandes nomes (e dos mais ignorados) da literatura norte-americana. O filme, assente na sombra tutelar das aventuras de Júlio Verne, fala-nos de uma nave que cruza os céus do mundo em nome de uma paz forçada pela alegada superioridade militar do seu comandante. Pondo de parte o lado bélico e os propósitos mais que duvidosos da nave e da sua tripulação, Roddenberry chamou a si o conceito de uma nave espacial e das várias missões a desempenhar em nome da paz planetária.

Leonard Nimoy (à esquerda) com Gene Roddenberry, Los Angeles, 1985

Leonard Nimoy (à esquerda) com Gene Roddenberry, Los Angeles, 1985

Wally Fong

Curiosamente, a série original de “Star Trek” não teve um êxito estrondoso, tendo sido cancelada ao fim da terceira temporada, na primavera de 1969. Para trás ficariam os desempenhos de Leonard Nimoy (“Spock”) e Nichelle Nichols (“Uhura”), que já antes haviam trabalhado com Gene Roddenberry, bem como os de William Shatner (o lendário comandante “James Tiberius Kirk”), DeForest Kelley (“Dr. McCoy”), James Doohan (“Scott”) ou George Takei (“Mr. Sulu”). Contudo, uma simples decisão mudaria para sempre o destino de “Star Trek” e transformaria a criação de Roddenberry numa marca de culto.

No final de 1969, os direitos de exclusividade que pendiam sobre “Star Trek” foram cedidos e consequentemente alargados para um mercado que abraçou sem reservas o projeto que se pensava perdido para sempre. Largas dezenas de estações televisivas no vasto território norte-americano exibiram repetições da série original e, num incrível e curto espaço de tempo, o projeto de Roddenberry foi premiado com um novo e sustentado fôlego que levou “Star Trek” a expandir-se para o ainda vasto mercado internacional que, juntamente com o mercado doméstico, tornou a série num muito raro fenómeno de popularidade e admiração. A consequência de tudo isto foi a edificação de um inaudito império de “franchising” e “merchandising” que só tem paralelo com a saga cinematográfica “Star Wars”.

É, de facto, extraordinário, pensar que os 79 episódios da série original de “O Caminho das Estrelas” tenham dado origem a 13 filmes e uma série de animação, bem como tenham inspirado mais sete séries televisivas na plataforma convencional e três séries nas plataformas de “streaming”, sem contar, naturalmente, com a enorme diversidade de livros, de banda desenhada, de exposições e venda de produtos licenciados. E sem esquecer a criação de uma língua própria: o Klingon.

Gene Roddenberry esteve sempre envolvido com o universo que ele próprio criou, e assim aconteceu até à sua morte em 1991. Uma saúde frágil potenciada pelo abuso de álcool e drogas determinaram o desfecho inevitável. Mas o seu legado permanece - muitos dirão até que mais vívido que nunca. E está disponível nas diversas vertentes, onde importa não esquecer a qualidade das diversas bandas sonoras, assim como o icónico tema inicial, da autoria de Alexander Courage.

Termino recomendando naturalmente o (re)visionamento da série original de “Star Trek” e, num outro extremo, a muito curiosa e não menos interessante “Star Trek – Picard”, estreada em janeiro deste ano e disponível por “streaming”, onde o grande Patrick Stewart retoma o personagem que substituiu Kirk à frente da nave “Enterprise”, num enredo entre o místico e a busca interior de respostas às questões que continuam a afligir o agora aposentado comandante. Se dúvidas houvesse sobre a importância do trabalho de Gene Roddenberry, a longevidade da sua criação é a prova inequívoca da imortalidade daquele que foi o primeiro argumentista com o nome inscrito no Passeio da Fama de Hollywood.