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Exposição "Sherlock Holmes: The Man Who Never Lived and Will Never Die", Londres, 2014

Stefan Wermuth

Ficam na Suíça e não teriam ganho particular notoriedade não o fosse o facto de terem sido o dramático cenário onde alegadamente foi interrompida a vida de um dos mais notáveis consultores privados saídos da literatura de ficção. Situadas nos Alpes suíços, as Cataratas de Reichenback assistiram ao duelo final que opôs Sherlock Holmes ao malévolo Professor Moriarty.

Foi um escocês nascido em Edimburgo há exatamente 161 anos que deu origem à mais marcante figura de entre as figuras cuja vida foi consagrada à investigação criminal. Formado em medicina na universidade da capital escocesa, Arthur Conan Doyle iniciou-se nas artes da escrita ainda durante os tempos de estudante, muito tempo depois de rejeitar a sua formação católica num colégio de Jesuítas. Abraçada a carreira médica, a praxis clínica foi exercida a bordo de dois navios até ancorar num consultório partilhado com um colega e amigo em Plymouth. A parceria não correu bem e o jovem médico decidiu seguir o seu próprio caminho que o conduziria a um pequeno e modesto gabinete em Portsmouth no sudeste de Inglaterra. Corria o ano de 1882 e a fraca afluência de pacientes terá em muito contribuído para uma aposta cada vez mais direcionada para a escrita, cuja estreia auspiciosa aconteceria em 1887. Foi nesse ano que a revista Beeton's Christmas Annual publicou “Um Estudo em Vermelho” (“A Study in Scarlet” no original), a primeira história a contar com Sherlock Holmes como protagonista.

A história, editada em livro um ano depois da estreia, é obrigatória para quem queira iniciar-se no universo deste mestre da arte da dedução, pois é em “Um Estudo em Vermelho” que são contadas as circunstâncias em que o excêntrico Holmes encontra o seu parceiro de aventuras e destas narrador exímio, o Dr. John Watson. Juntos, formarão uma das mais célebres duplas da ficção policial, novamente em ação no magnífico “O Sinal dos Quatro”, originalmente publicado em 1891 na “Lippincott's Monthly Magazine”, uma revista norte-americana de Filadélfia também conhecida por publicar trabalhos de Oscar Wilde ou Rudyard Kipling. No verão desse mesmo ano, a notoriedade de Holmes e do seu autor alcançam um fulgor que não mais se extinguirá quando, em junho, a “revista de seis pence que vale um xelim” inicia a publicação de vários contos que aproximam ainda mais Holmes e Watson de uma crescente legião de seguidores. “The Strand” torna-se assim a estampa preferencial das peripécias do detetive que nunca quis ser visto dessa forma, publicando regularmente os contos de Sir Arthur Conan Doyle até 1930, ano da sua morte.

Sir Arthur Conan Doyle na sua mansão na Escócia, 1822

Sir Arthur Conan Doyle na sua mansão na Escócia, 1822

A herança literária de Doyle abarca os domínios da Ficção Científica, da Poesia, do Ensaio, do Teatro e do Romance Histórico, mas será para sempre lembrado como o criador de Sherlock Holmes e Dr. Watson; este estará seguramente ligado à própria experiência pessoal de Conan Doyle, nomeadamente à sua heróica participação enquanto médico-cirurgião na frente de batalha na Guerra dos Boers, que teve lugar na África do Sul na viragem do século XIX para o século XX. Arthur Conan Doyle viria a ser nomeado Cavaleiro em resultado da sua participação no conflito.

Cataratas de Reichenbach, Suíça

Cataratas de Reichenbach, Suíça

Sherlock Holmes foi a figura central de quatro romances e 56 contos assinados por Conan Doyle que, algo cansado da personagem que ele próprio criara e que acabava por desviá-lo de outros projetos, decidiu extingui-la em 1893, consequência de um confronto mortal com o seu arqui-inimigo Professor Moriarty nas já referidas Cataratas de Reichenback. Contudo, os leitores reagiram de maneira tão crítica à “morte” do seu herói que Conan Doyle foi obrigado a retomar as suas aventuras, designadamente em “A Casa Vazia”, parte integrante de um conjunto de 13 contos agregados em “O Regresso de Sherlock Holmes”, editado em 1903. Os seguidores dos resilientes habitantes do número 221B de Baker Street tiveram assim oportunidade de acompanhar durante mais algum tempo as peripécias da dupla que mereceria um interesse muito especial por parte do cinema e da televisão. Sobretudo neste capítulo, e para os menos propensos aos prazeres da leitura – que, ainda assim, se recomenda sem qualquer reticência - é fundamental referir duas séries que, em estilos muito distintos, souberam agarrar com segurança e mestria na obra de Conan Doyle e tranformá-la em mais que apetecíveis produtos televisivos.

Desde logo, o conjunto de episódios que, entre 1984 e 1994, engrandeceu e muito o portfólio da Granada Television, muito graças ao impressionante desempenho de Jeremy Brett no papel do famoso detetive. Ao longo de 41 episódios, a música de Patrick Gowers soube envolver a sólida produção britânica em outros tantos registos criados por Conan Doyle. “Silver Blaze”, “O Intérprete Grego” ou o inevitável “O Cão dos Baskervilles” são apenas alguns dos muitos exemplos que justificam o visionamento sem demora desta série extraordinária.

Benedict Cumberbatch e Martin Freeman na série "Sherlock"

Benedict Cumberbatch e Martin Freeman na série "Sherlock"

BBC

Modernizada e adaptada aos nossos dias está “Sherlock”, que abrilhantou a nossa vida enquanto espectadores entre 2010 e 2017. Com a chancela da BBC, esta renovadíssima versão de Holmes e Watson foi criada por Steven Moffat e Mark Gatiss e protagonizada por Benedict Cumberbatch e Martin Freeman. A série é um poderoso exercício de criatividade e de arriscada reinvenção de um legado literário que muitos consideravam impossível de afastar dos cânones de referência. “Sherlock” conseguiu-o sem mácula, assegurando um insólito equilíbrio entre a obra de Conan Doyle (marcadamente histórica) e os novos azimutes da sociedade contemporânea. Notável. Como Doyle e Sherlock, sem omitir o caro Watson.

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