O bizarro explicado pela ciência

As alterações climáticas estão a destruir o rock

Bob Dylan com uma Fender Telecaster em 1974

RON FREHM / AP

Inundações e um besouro roedor ameaçam uma importante matéria-prima para o fabrico das guitarras elétricas.

A madeira que é usada para fazer as guitarras preferidas de alguns dos "deuses do rock" está a ser vítima das alterações climáticas.

Há mais de 70 anos que os mestres construtores da icónica guitarra Fender, usam uma matéria-prima especial para fazer guitarras elétricas - o "freixo do pântano" do Mississippi. Em inglês, o "swamp ash" ou "music ash" é essencial para o fabrico das Telecaster e Stratocaster - aquelas guitarras que dão um "sotaque" especial à música de Jimi Hendrix, Buddy Holly , Bob Dylan, Muddy Waters, Keith Richards dos Rolling Stones, Chrissie Hynde dos Pretenders ou dos The Strokes.

Mas há cada vez menos freixos após anos de inundações relacionadas com as alterações climáticas. E com a chegada de um besouro que rói esta árvore, revela a Scientific American.

A madeira que dá aos instrumentos um "som quente e cristalino"

No inverno e na primavera, as chuvas que caem no centro dos EUA juntam-se ao degelo da parte norte do rio Mississippi e inundam as terras a sul, onde crescem as árvores. Quando a água baixa e o solo seca no verão, os madeireiros começam a sua atividade, com preferência pelo freixo. Estas árvores que crescem nos pântanos têm células com membranas finas e com espaços entre si, o que cria uma madeira de baixa densidade - será essa a razão para que muitos considerem que dá o tal som especial às guitarras.

Desde a década de 1950 que o fabricante de guitarras Fender Musical Instruments adotou esta madeira abundante nos pântanos e barata e que cedo conquistou músicos de vários géneros.

Músicos de blues, como Muddy Waters, ou de rock como Keith Richards dos Rolling Stones, adoram as suas Fender e afirmam que a madeira com que são fabricadas dão ao instrumento "um som quente, mas cristalino". Chrissie Hynde criou recentemente a sua própria Fender.

Esta madeira de freixo tornou-se assim parte integrante do ADN da Fender ao longo das últimas décadas.

Os problemas começaram em junho de 2019 ao fim dos 12 meses mais chuvosos de sempre que causaram enormes inundações ao longo de todo o rio Mississippi.

"Temos chuvas intensas por causa das alterações climáticas que estão a aumentar a quantidade de água que vai para o rio. E como temos um sistema de represas, muros e diques - originalmente destinado a evitar inundações - está a tornar a situação ainda pior”, explicou à Scientific American Gerald Galloway, professor de engenharia civil e ambiental da Universidade de Maryland.

Mike Groll / AP

O segundo problema já tinha chegado em 2002:

O besouro broca-cinza-esmeralda é uma máquina de furar madeira. Nativo da Ásia, espalhou-se por 35 estados dos EUA e já matou milhões de freixos.

As larvas deste besouro abrem túneis através da madeira e interrompem o transporte de água e nutrientes dentro da árvore. Desde que foi detetada pela primeira vez nos EUA, no Michigan em 2002, a praga espalhou-se em 35 estados norte-americanos e cindo no Canadá, matando milhões de freixos nestes dois países.

“Acho que é o inseto de disseminação mais rápida que vimos a atacar árvores nos EUA”, lamentou Jennifer Koch, bióloga do Serviço Florestal dos EUA, à Scientific American.

Madeira de freixo para os modelos mais valiosos

Em agosto do ano passado, o vice-presidente executivo da Fender, Justin Norvell, anunciou que a empresa deixaria de usar a madeira nos seus modelos elétricos Stratocasters e Telecasters e explicou à Guitar World que não foi uma decisão leviana, uma vez que "o freixo faz parte do ADN do que fazemos na Fender".

A grande escassez forçou a Fender a decidir que passaria a reservar a madeira apenas para os modelos vintage mais caros.

"Para manter o nosso legado de consistência e alta qualidade (...) decidimos remover o freixo da maioria dos nossos modelos regulares. Toda a madeira de freixo que conseguirmos obter continuará a ser disponibilizada em modelos vintage selecionados e historicamente apropriados”, segundo a empresa.

Esta situação mostra como as consequências das alterações climáticas podem repercutir-se em todos os aspetos da sociedade - até no rock and roll. E a madeira de freixo destes pântanos pode muito em breve tornar-se uma verdadeira raridade, uma vez que o aquecimento global tem tudo para continuar a piorar e a aumentar a frequência das inundações, prejudicando estas árvores.

E esta é só uma "gota no oceano" das consequências das alterações climáticas para o nosso planeta.

Guitarras Fender leiloadas a preços astronómicos

Uma Fender Stratocaster utilizada pelo guitarrista David Gilmour, do grupo britânico Pink Floyd, chegou a ser a guitarra mais cara da história - quando foi arrrematada por 3,975 milhões de dólares (3,55 milhões de euros) num leilão da Christies's, em junho de 2019.

Um ano depois foi destronada pela guitarra semiacústica utilizada por Kurt Cobain na gravação do célebre álbum "Unplugged" dos Nirvana, em 1993 - rendeu num leilão da Julien's Auctions seis milhões de dólares (quase 5,4 milhões de euros).

Restos de uma guitarra elétrica Fender Stratocaster partida por Kurt Cobain expostos no Museu dos Grammy, em Los Angeles

Restos de uma guitarra elétrica Fender Stratocaster partida por Kurt Cobain expostos no Museu dos Grammy, em Los Angeles

REUTERS