Esquecidos

“Depois do ataque, pensei em matar-me”

Adrienne Surprenant / Collectif

Sarar feridas visíveis e invisíveis da violência sexual na República Centro-Africana. A violência sexual tornou-se uma questão de saúde pública na República Centro-Africana (RCA) na última década, com as mulheres e menores a serem os grupos mais afetados.

Num país marcado por anos de guerra civil e a enfrentar uma crise que se arrasta há muito tempo, os ataques são cometidos não apenas por membros de grupos armados; frequentemente são-no por alguém que a pessoa atacada conhece. O acesso a cuidados médicos e psicológicos melhorou ao longo dos anos, mas a resposta permanece insuficiente face à escala das necessidades existentes.

“Depois do ataque, pensei em matar-me”, recorda Charlotte*, de 18 anos e sobrevivente de violência sexual, oriunda da capital da RCA, Bangui.

A mãe de Charlotte morrera e o pai rejeitou-a, pelo que a jovem vivia com a tia e o tio quando este a violou um dia em casa, enquanto o resto da família se encontrava fora. A tia não acreditou nela e Charlotte sentiu-se completamente sozinha e desesperada. Foi à polícia, mas nada conseguiu, e, depois de conversar com uma das primas que considera ser como irmã, decidiu procurar ajuda.

Charlotte estava muito fragilizada, tanto física como mentalmente, quando chegou ao centro de apoio Tongolo, que é gerido por equipas da Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Tongolo significa “estrela” em sango, a língua local, e refere-se a esperança, como uma estrela que brilha num céu escuro. Charlotte é uma das mais de seis mil pessoas sobreviventes de violência sexual que receberam cuidados médicos, psicológicos e psicosociais das equipas MSF desde que o projeto de Tongolo iniciou atividades em Bangui em 2017.

Célestin*, outro sobrevivente que vive em Bangui, também não esperava que algo tão traumático lhe acontecesse. Inocentemente, ofereceu abrigo a alguém que pensava conhecer até que foi sexualmente assediado numa noite. “Eu estava a dormir e ele apareceu de repente com más intenções”, conta Célestin.

“Ele estava bêbado e quis forçar-me a fazer coisas que eu não queria. Comecei a entrar em pânico, estava tão aterrorizado. Ele bateu-me, mas consegui escapar-me”, descreve.

Mulheres e menores, os principais grupos afetados pela violência sexual

A maioria das pessoas sobreviventes de violência sexual assistidas no Tongolo é de Bangui, cidade onde vivem 890 000 dos 4,5 milhões de habitantes da RCA. Porém, um em cada quatro dos pacientes é dos arredores da capital e uma pequena fração, mas que está a aumentar, chega de áreas mais remotas em outras províncias do país.

“A iniciativa Tongolo esforça-se para providenciar um programa de elevada qualidade e gratuito de cuidados completos acessíveis a todas as pessoas”, explica a coordenadora do projeto, Bilge Öztürk, detalhando que os serviços são adaptados de acordo com a pessoa ser do sexo feminino ou masculino, criança ou adolescente.

Inicialmente a funcionar em duas estruturas diferentes em Bangui – em Bédé-Combattant e no Hospital Comunitário –, o projeto abriu em agosto de 2020 o Centro Tongolo, perto do Parque do Cinquentenário, no bairro de Lakouanga.

Este novo centro complementa o trabalho desenvolvido nos outros dois locais e está integralmente dedicado a sobreviventes de violência sexual.

Apesar de a maioria de pacientes serem mulheres e raparigas – mais de 1 900 em 2020, ou seja, quase 95% do total de pessoas assistidas no Tongolo – também 111 homens procuraram cuidados neste programa no ano passado. De entre o total de sobreviventes, 52% são menores, um número considerado alarmante pela conselheira médica do centro, Axelle Franchomme, que crê que os dados compilados pelo Tongolo são representativos do problema de violência sexual que se pode verificar noutras partes do país.

Os menores são os mais vulneráveis e também os mais sensíveis a que prestar cuidados, uma vez que se encontram a construir a sua identidade a cada dia, com base nas situações e acontecimentos que vivenciam. Se não forem tratados com a seriedade devida, tais eventos de violência podem ter um impacto duradouro no futuro e deixar marcas para o resto da vida.

Uma crise crónica conducente à violência sexual

Com o país assolado por anos de guerra civil – e cujo conflito se intensificou desde dezembro de 2020 – e a população repetidamente exposta a deslocações forçadas, a elevados níveis de violência e a abusos de direitos humanos, a violência sexual tornou-se também numa questão de saúde pública.

Há alguns anos, sobreviventes identificavam homens armados como sendo os agressores na maior parte dos casos. Atualmente, com o programa de Tongolo aberto a mais largas partes da sociedade, a experiência da MSF mostra que quem comete os ataques de violência sexual é frequentemente alguém que a pessoa atacada conhece bem e é até parte do seu círculo mais próximo, sejam amigos, vizinhos ou familiares. Em 2020, 56% das pessoas assistidas pelas equipas MSF declararam conhecer o atacante. Com a retomada do conflito no país em dezembro passado, esta tendência inverteu-se e indivíduos armados são de novo os mais frequentes agressores.

E o que se segue ao ataque não vem sem desafios.

“Para as famílias, quando um parente é agredido sexualmente, a culpa recai na pessoa que foi violentada. Não compreendem que elas próprias podem ser alvo de abuso”, frisa o conselheiro em saúde mental Aimé-Césaire Likosso. “Culpam sempre a pessoa que foi abusada, a qual está já numa situação difícil e que não conseguiu defender-se do agressor.”

Tal expressa-se também na forma como pacientes comunicam. Algumas das línguas na República Centro-Africana não usam a palavra “violação” porque é considerada tabu e vergonhosa.

“O silêncio resulta em ambições destruídas, famílias desfeitas, doenças, relacionamentos disfuncionais e vidas arruinadas”, sustenta a supervisora das atividades MSF de saúde mental, Gisela Silva. E o conselheiro Aimé-Césaire junta ainda: “Quem sobrevive a violência sexual merece o respeito e apoio psicológico por parte da família, mas frequentemente não é isso que acontece.”

Cicatrizes invisíveis

As consequências invisíveis da violência sexual abrangem desde transtornos de stress pós-traumático a ansiedade e a depressão. Algumas pessoas pensam em suicídio e até o tentam cometer. Como o assunto permanece tabu, sobreviventes são obrigadas na maioria dos casos a não falarem do ataque que sofreram, devido à vergonha que isso traria à família.

O problema é resolvido privadamente dentro da comunidade ou entre familiares, esquecendo que se trata de uma emergência médica que tem de ser cuidada.

Adrienne Surprenant / Collectif

Para sobreviventes do sexo masculino, é ainda mais complicado. Muitos têm demasiado medo de falarem sobre o abuso e apenas alguns procuram as estruturas do projeto Tongolo. Ficam relutantes em pedir ajuda e há significativa pressão e estigmatização nas comunidades.

Neste complexo contexto, o acesso a apoio psicológico é essencial para prevenir e reduzir o nível de transtorno psicológico e de sofrimento provocados pela violência sexual. Sobreviventes que apresentam sintomas devem receber cuidados e ser encaminhados para profissionais de psicologia ou psiquiatria sem demoras.

E uma vez que as necessidades de saúde e de saúde mental de sobreviventes não podem ser abordadas de forma adequada sem ter em consideração o contexto social, sobreviventes assistidos no Tongolo são também referenciados para apoio de assistência social.

“O objetivo é acompanhar as pessoas que sobrevivem a violência sexual ao longo da jornada de cura, ajudá-las a resolverem os problemas que enfrentam e a fortalecerem-se suficientemente para conseguirem retomar as suas vidas”, explica a conselheira médica Axelle Franchomme.

É crucial procurar ajuda prontamente

Após uma violação, é fundamental fazer tão rápido quanto possível – até três dias depois – tratamento preventivo do VIH e outras infeções sexualmente transmissíveis, assim como vacinação contra a hepatire B e o tétano. Porém, apenas 26% das pessoas atendidas pela MSF em 2020 chegaram dentro de 72 horas passadas desde o ataque sexual. Equipas de promoção de saúde comunitárias e anúncios divulgados pela rádio são formas de aumentar a consciencialização desta necessidade nas comunidades.

“Ouvimos na rádio que devemos ir ao Centro Tongolo assim que possível para que lá consigam resolver os nossos problemas”, conta Célestin.

Axelle Franchomme sublinha que “as pessoas sobreviventes estão já traumatizadas quando chegam, pelo que mitigar outros aspectos de saúde relacionados com o ataque sexual é muito importante”.

Após a administração daquela medicação aos pacientes, são organizadas consultas de seguimento para verificar a continuação do tratamento, de forma a prevenir possíveis efeitos colaterais ou complicações. Pacientes do sexo feminino recebem também contraceção de emergência para prevenir uma gravidez indesejada e são disponibilizadas opções de planeameno familiar para todas as pessoas em todas as estruturas do projeto Tongolo, visando mitigar a estigmatização ligada a uma criança nascida de violação.

Necessidades ainda sem resposta

A procura de ajuda tão prontamente quanto possível assim como a partilha da experiência traumática com especialistas em saúde mental são vitais para sarar tanto as feridas visíveis como as invisíveis da violência sexual. E reconstruir a vida e o futuro após a agressão pode também ser assustador devido às necessidades jurídicas e socioeconómicas que dali advêm.

Há muito poucos serviços disponíveis nesta área no país atualmente, o que deixa muitas pessoas sobreviventes de violência sexual sem os necessários apoios. E há um problema de impunidade da violência sexual, em que os processos criminais só existem na capital, Bangui.

Adrienne Surprenant / Collectif

Adrienne Surprenant / Collectif

No Centro Tongolo, foi criado há alguns meses um espaço para organizações locais e internacionais especializadas em apoio legal, socioeconómico, em proteção e em educação, para que as pessoas sobreviventes tenham acesso a todos os serviços num único local, integrando um circuito sistemático de encaminhamento. A coordenação e colaboração entre os diferentes grupos estão a ser reforçadas ao longo deste ano.

Outros desafios têm resultado do recolher temporário e das restrições às deslocações adotadas pelo Governo durante o período de instabilidade política. Por exemplo, muitas pessoas sobreviventes de violência sexual costumavam ir ao Hospital Comunitário à noite para evitar a estigmatização, mas, desde janeiro de 2021, e nos meses próximos, isso não é possível.

Há ainda um longo caminho a precorrer para identificar, tratar e assistir adequadamente todas as pessoas que sobrevivem a violência sexual na República Centro-Africana.

A MSF trabalha no país desde 1997, em 13 projetos localizados em Bangui, Bria, Bangassou, Bambari, Kabo, Batangafo, Paoua, Bossangia e Carnot. A componente de assistência em casos de violência sexual foi integrada em todos estes projetos, e as equipas do Tongolo, juntamente com a equipa móvel de emergência Eureca, desenvolve atividades também em outros locais no país onde se regista um aumento da violência, incluindo de violência sexual, como em Liton.

* Nomes alterados para preservar a identidade de pacientes

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Esquecidos é um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.