Esquecidos

Autocuidados na saúde da mulher: mais escolhas, autonomia e vidas salvas

Isabel Corthier

Ao assinalar-se o Dia Internacional da Mulher, a 8 de março, a Médicos Sem Fronteiras mostra o quanto é possível alcançar na capacitação das mulheres e raparigas em comunidades afetadas por crises, de forma a terem vidas mais saudáveis, tal como acontece com mulheres em quaisquer outras partes do mundo.

Todas as pessoas querem ter o poder de investir no seu próprio bem-estar: de ser capaz de cuidar da própria saúde emocional, física e mental. Mas sem informação fiável e ferramentas adequadas, opções razoáveis e apoio apropriado, isso nem sempre é possível.

Os autocuidados estão a mudar a face da saúde. Esta abordagem põe o enfoque em capacitar e equipar – e confiar – que as pessoas assumam um papel central na sua saúde. Para as mulheres, é algo que envolve uma importante mudança no sentido de passarem a tomar decisões sobre os seus próprios cuidados de saúde quando, em alguns casos e contextos, podem não ter essa autonomia.

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem testemunhado também como os autocuidados podem melhorar o acesso e a qualidade dos cuidados de saúde.

O que são autocuidados?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define os autocuidados como “a capacidade de as pessoas individualmente, as famílias e as comunidades promoverem a saúde, prevenirem doenças, manterem a saúde e enfrentarem doenças e incapacidades com ou sem o apoio de um prestador de cuidados de saúde”.

A MSF tem vindo a adotar os autocuidados numa abordagem centrada nas pacientes, prestando apoio às pessoas com a partilha de conhecimento e de capacidades para assumirem os autocuidados de forma segura, mantendo em simutâneo o acesso a serviços formais de cuidados de saúde quando desejados ou necessários.

Os autocuidados de saúde incluem a autogestão na toma de medicação, tratamento, exames e inoculações, os autotestes desde a recolha de amostra à triagem, ao diagnóstico e à monitorização, e a autoconsciência que abrange autoajuda, autoeducação, autorregulação, autoeficácia e autodeterminação.

Os autocuidados não são algo em que as pessoas tenham de lidar sozinhas com as questões de saúde sem apoio. São sobre ter confiança que as pessoas façam a gestão de parte dos seus cuidados de saúde se é essa a sua escolha.

Testes e tratamentos simplificados, aparelhos de cuidados de saúde e tecnologias móveis têm vindo a tornar os autocuidados cada vez mais possíveis nos anos recentes – e com enormes potenciais benefícios para as mulheres e raparigas.

Por que são os autocuidados tão importantes para as mulheres?

Muitas mulheres no mundo inteiro ainda não têm acesso a cuidados essenciais de saúde e debatem-se com grandes dificuldades para conseguirem gerir questões de saúde sexual e reprodutiva que podem ter associado algum estigma.

Praticamente uma em cada quatro mulheres em idade reprodutiva ainda não tem acesso a contracepção moderna para a ajudar a planear ou limitar as gravidezes. Mais de metade das pessoas maiores de 15 anos que vivem com VIH em todo o mundo são mulheres. O aborto não seguro permanece, a nível mundial, como a maior causa de morte das grávidas que não têm acesso a alternativas seguras.

Isabel Corthier

As muitas barreiras sociais, económicas e logísticas que existem no acesso a cuidados de saúde podem ser ainda mais agravadas por violência e discriminação. Os obstáculos são igualmente mais exacerbados em crises humanitárias.

Atualmente, a pandemia da COVID-19 amplificou as discrepâncias nos serviços de saúde nestes contextos, tornando bem piores os resultados em matéria de saúde sexual e reprodutiva. E, apesar de os confinamentos terem sido adotados para a segurança de todos, tambérm aumentaram os perigos para algumas mulheres dentro das suas próprias casas.

Em alguns casos, os obstáculos podem ser tão grandes que as mulheres não procuram nem pedem cuidados de saúde, mesmo precisando deles.

Os autocuidados constituem uma oportunidade de solução, como foi reconhecido pela OMS nas orientações emitidas, pela primeira vez, em 2019, sobre as intervenções e programas de autocuidados, e desenvolvidas especificamente para a saúde sexual e reprodutiva.

Como é que os autocuidados melhoram os cuidados de saúde e a saúde?

Os autocuidados podem expandir o acesso a cuidados de saúde em locais remotos, em contextos de instabilidade ou em áreas com poucas infraestruturas de saúde. Podem expandir os cuidados de saúde para além dos hospitais ou das clínicas, para além de profissionais médicos ou de enfermagem. Podem ser uma resposta pragmática onde os recursos de cuidados de saúde estão puxados ao limite das suas capacidades, ao mesmo tempo que possibilitam a ligação à prestação de cuidados onde antes não existiam.

Os programas de autocuidados podem providenciar opções de cuidados de saúde, sustentadas em evidências e com baixo risco, de forma direta e discreta nas comunidades ou nas casas das pessoas, como a contracepção autoinjetável. Possibilitando uma maior conveniência ou confidencialidade, as abordagens de autocuidados podem permitir diagnósticos mais precoces e cuidados médicos mais atempados, como os autotestes de VIH.

E ao centrarem-se nas necessidades individuais da mulher, podem também melhorar a qualidade dos cuidados recebidos: cuidados que são apropriados, que respeitam e que assentam na confiança.

Isabel Corthier

Para algumas mulheres, os autocuidados podem até ser a única alternativa segura de que dispõem, sem os quais se podem ver forçadas a procurar serviços que não são seguros ou perder a esperança de conseguirem obter os cuidados necessários. No caso da autogestão de medicação para a interrupção da gravidez de forma a evitar um aborto não seguro, os autocuidados podem salvar vidas.

Como podem as mulheres capacitar-se através dos autocuidados?

Os autocuidados capacitam as mulheres porque lhes dá acesso a informação e a serviços que lhes permitem tomar decisões sobre o que funciona melhor para elas. As mulheres ganham escolhas e autonomia.

Esta abordagem pode também permitir às mulheres ajudar ou cuidar de outras pessoas nas comunidades, através da partilha de informação fiável entre pares, da prestação de cuidados como trabalhadoras comunitárias de saúde e interagindo com pessoas com as mesmas experiências e necessidades de saúde.

Como é que a MSF presta apoio nos autocuidados?

A organização médica-humanitária está a desenvolver capacidades de autocuidados integradas numa abordagem de cuidados de saúde centrados nas pacientes.

A MSF tem vindo a testar diferentes tipos de ações e programas, para melhor compreender o que funciona e para quem. A experiência mostra que frequentemente são as comunidades que lideram neste caminho e nenhum modelo serve para todas de igual forma.

Por exemplo, no programa na província de Ituri, na República Democrática do Congo, foi integrada a possibilidade de as mulheres obterem contracepção autoinjetável de longa ação que podem autoadministrar em casa a cada três meses e para a qual é prestada informação e instruções sobre o uso correto.

Em Essuatíni, país com a mais elevada taxa de prevalência de VIH/sida no mundo, são disponibilizados desde 2017 autotestes orais para o VIH no programa de prevenção e tratamento de VIH e de tuberculose.

No projeto de VIH, tuberculose e saúde sexual e reprodutiva dirigido a mulheres trabalhadoras do sexo no Malawi, os autocuidados de saúde foram desenvolvidos como ponto central num modelo liderado por pares na própria comunidade e integrados no pacote abrangente de cuidados de saúde prestados.

Em Nablus, na Cisjordânia, no projeto da MSF especializado em saúde mental, as pacientes, face aos confinamentos da COVID-19, começaram a trabalhar no ano passado com os profissionais da organização médica-humanitária para desenvolver planos e regimes de autocuidados para as ajudar a reduzir a ansiedade e a manterem-se em segurança.

E no Zimbabwe, foi desenvolvido em 2020 em Gutu um estudo no programa de prevenção e tratamento precoce do cancro do útero que concluiu que o esfregaço para deteção da infecção pelo vírus do papiloma humano era feito de forma igualmente eficaz tanto por profissionais de enfermagem como pelas próprias pacientes. O estudo mostrou que, dotado dos recursos humanos, formação e equipamentos necessários, este método pode amplificar significativamente o acesso a diagnóstico para as mulheres que não podem aceder a profissionais ou clínicas de saúde.

Inovar para superar a exclusão

Isabel Corthier

Isabel Corthier

Qualquer que seja a opção de autocuidados adotada, a MSF assegura que as mulheres têm acesso a profissionais de saúde quando querem ou precisam e que são encaminhadas para o nível seguinte de tratamento sem demoras.

Este aspecto é extremamente importante, porque os autocuidados não devem substituir cuidados de saúde formais. Devem ser parte da continuidade dos cuidados desde o sistema formal de saúde até aos modelos de cuidados comunitários. E têm de acrescentar valor, não tomar a posição de segunda melhor opção para pessoas que de outra forma ficariam excluídas de aceder a cuidados de saúde.

A MSF tem desde sempre procurado inovar para superar a exclusão e, tendo as mulheres e raparigas como parceiras, nos autocuidados de saúde perfila-se uma enorme oportunidade para inovar ainda mais.

Há um potencial enorme para expandir os cuidados de saúde de qualidade e centrados nas pacientes através da abordagem de autocuidados, especialmente nos contextos em que a MSF trabalha: em locais afetados por graves crises ou aos quais é difícil chegar.

Mulheres e raparigas ficam capacitadas ao confiar-se que, com a informação e ferramentas corretas, elas podem participar e adquirir autonomia nos seus próprios cuidados para se manterem saudáveis, e contribuir para o seu próprio bem-estar, independentemente de onde vivam.

VEJA TAMBÉM:

Esquecidos é um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.