Esquecidos

As perigosas viagens dos afegãos para receberem assistência médica

Andrew Quilty

Safia estava grávida de sete meses quando foi atingida por uma bala perdida à porta de casa. O bebé que desejava há quatro anos acabou por não sobreviver. Foi mortalmente alvejado dentro do útero. Shamila, de 31 anos, também perdeu o bébe a caminho da maternidade. Murad Khan tem tuberculose e para ir ao hospital receber tratamento tem de ficar várias horas à espera que os combates diminuam. Histórias de pacientes que enfrentam diariamente a insegurança no Afeganistão mesmo com o “processo de paz”.

População afegã ainda não viu melhoras no acesso a cuidados de saúde

O ano de 2020 é considerado histórico para o Afeganistão. Em fevereiro, 20 anos passados desde a invasão liderada pelos Estados Unidos, foi assinado um acordo entre o Governo norte-americano e o Emirado Islâmico – os taliban – para abrir caminho à retirada do país, sob condições, das tropas norte-americanas. Em setembro arrancaram em Doha conversões entre os taliban e o Governo afegão.

2020 marca também 40 anos desde que a Médicos Sem Fronteiras (MSF) começou a trabalhar no Afeganistão e aquilo que as equipas da organização médica-humanitária testemunham no país demonstra que a população afegã ainda não viu melhoras tangíveis no acesso a cuidados de saúde.

Os afegãos continuam a não ter grande escolha que não a de fazer viagens muito perigosas para receberem assistência médica. Estes desafios persistem em plena segunda vaga da COVID-19 e no contexto das consequências, que se sentirão muito em breve, da redução no financiamento dos doadores internacionais a um país com crescentes necessidades humanitárias.

Por todo o Afeganistão, são muitas as histórias que revelam aquilo com que os pacientes da MSF continuam a confrontar-se quando tentam obter cuidados de saúde, assim como o que é testemunhado pelas equipas da organização quando as pessoas as conseguem alcançar.

Safia estava grávida de sete meses quando foi atingida por uma bala à porta de casa

Cidade de Lashkar Gah, província de Helmand. Safia estava grávida de sete meses quando foi atingida por uma bala perdida à porta de casa. Após viajar várias horas para chegar à estrutura de saúde disponível mais próxima – para o que teve de fazer um caminho bem mais longo de forma a evitar os combates –, deu entrada no hospital provincial Boost onde a MSF presta apoio na cidade de Lashkar Gah, capital da província de Helmand.

Esta unidade hospitalar, com 100 camas, estava na altura lotada de feridos resultantes de intensos combates que preduravam há 24 horas, e as equipas da MSF encontravam-se em modo de resposta de emergência a um grande fluxo de pacientes quando viram Safia chegar. Foi prontamente submetida a uma cesariana de urgência e, apesar de todos os esforços feitos, o bebé que desejava há já quatro anos acabou por não sobreviver. Tinha sido mortalmente alvejado dentro do útero.

“Sentei-me ao lado da Safia naquela manhã”, recorda a coordenadora da MSF no hospital de Lashkar Gah, Marianna Cortesi. “A sua força e capacidade de superação estavam ainda presentes, mas a dor profunda pela qual ela estava ali a passar na enfermaria consome-me até hoje. No útero e no túmulo, o primogénito dela não teve paz”, descreve.

A MSF trabalha no hospital provincial Boost desde 2009 e a escalada da violência vista em outubro passado foi de uma intensidade que não era ali testemunhada desde 2016. Em apenas uma semana, e só no que respeita ao fluxo de feridos, as equipas da organização médica-humanitária trataram 62 pacientes com ferimentos causados por balas, lesões resultantes de estilhaços causados pelos bombardeamentos e ferimentos por bombas e dispositivos explosivos improvisados.

As preocupações das equipas eram não apenas com os feridos que ali chegavam. Todas as semanas durante aquele mesmo período, o número de pacientes que passaram pela triagem dos serviços de urgência baixou em 700 e o número geral de admissões hospitalares em Boost diminuiria à volta de 100. Isto é indicativo de que pessoas com ferimentos ou doenças potencialmente fatais, mas sem relação com o conflito, não estavam a conseguir alcançar o hospital devido à insegurança vivida nas estradas

A estrada para ir buscar os medicamentos para a tuberculose já não era segura

Cidade de Kandahar, província de Kandahar. Murad Khan é paciente do programa da MSF de tratamento da tuberculose em Kandahar. Este afegão contou às equipas da organização que a estrada que costumava usar para ir buscar os medicamentos para a tuberculose já não era segura.

Frequentemente, na deslocação que tinha de fazer de uma província para outra, de forma a chegar ao centro da MSF, ele tinha de ficar muitas horas à espera que os combates diminuíssem antes de poder retomar caminho. Fez a viagem com quatro dos filhos, que também têm tuberculose.

Seja um ferimento de bala ou um diagnóstico de tuberculose, o resultado é o mesmo para as pessoas que não têm uma estrutura de saúde onde obter tratamento. Muitos afegãos não conseguem aceder nem aos limitados serviços que lhes estão disponíveis devido à insegurança, aos custos ou porque chegam a uma unidade sem capacidade para tratar aquilo de que sofrem.

E para as mulheres afegãs obter cuidados de saúde é um desafio ainda maior, uma vez que é preciso que sejam acompanhadas por um familiar do sexo masculino que queira e possa fazê-lo.

Disseram-lhe que ela teria de aguentar as dores até de manhã

Cidade de Khost, província de Khost. Shamila, de 31 anos, tem seis filhos. Chegou à maternidade que a MSF opera na cidade de Khost em novembro passado. No nascimento dos primeiros quatro filhos, problemas familiares impediram-a de ir ao hospital para ter os partos, mas acabou por conseguir convencer familiares do sexo masculino a acompanharem-na ao hospital para o parto dos últimos dois bebés, uma vez que se sentia bastante fraca.

Quando Shamila começou a ter contrações no final da gravidez mais recente, ela voltou, como nas duas anteriores, a pedir aos homens na família para que a levassem ao hospital. Era de noite e responderam-lhe que não, apontando que seriam atacados durante a viagem.

Os familiares disseram-lhe que ela teria de aguentar as dores até de manhã. No dia seguinte, quando se encontravam a caminho da maternidade, Shamila perdeu o bebé.

Qamar Gull sente que ainda não é seguro regressar a casa com as filhas

Cidade de Herat, província de Herat. Qamar Gull vive com as filhas há três anos num campo de deslocados internos em Herat, na região Oeste do Afeganistão. Chegou a Herat depois de ter partido da província de Faryab, de onde é oriunda e onde o posto de controlo onde o marido trabalhava foi alvo de um ataque. Desde então que não sabe nada dele, nem sequer se está vivo ou morto.

Em dezembro de 2018, a MSF montou o que inicialmente se destinava a ser apenas uma “clínica de inverno” para provindeciar cuidados de saúde às crianças das populações deslocadas que tinham procurado refúgio em Herat. Conforme o número de pessoas e a dimensão das necessidades nos campos de deslocados aumentaram, e em simultâneo outras organizações deixaram a zona, aquela clínica tornou-se a única estrutura disponível.

Apesar das prolongadas e grandes dificuldades vividas num acampamento improvisado que pensara ser apenas uma solução temporária, Qamar Gull sente que ainda não é seguro regressar a casa com as filhas.

Atacantes mataram 16 mães que estavam na maternidade, uma parteira e duas crianças

A deslocação até unidades de saúde no Afeganistão é muito arriscada, mas chegar a elas também não é uma garantia de segurança para os pacientes. As pessoas atendidas pela MSF assim como os profissionais que formam as equipas viveram essa dolorosa experiência na manhã de 12 de maio passado, quando um grupo de homens armados invadiu a ala da maternidade que a organização opera no hospital Dasht-e-Barchi, unidade com 100 camas na região Oeste de Cabul, a capital do Afeganistão.

Os atacantes dispararam de forma sistemática e mataram 16 mães que estavam deitadas nas camas da maternidade, incluindo cinco que estavam prestes a ter os bebés, e ainda a parteira da MSF Maryam, duas crianças que se encontravam no local para receber vacinação de rotina e mais seis outras pessoas.

Este ataque brutal ocorreu cinco anos desde que um ataque aéreo dos Estados Unidos destruiu o centro de trauma da MSF em Kunduz, no qual foram mortos 24 pacientes, 14 membros das equipas da organização médica-humanitária e quatro pessoas que acompanhavam pacientes.

Andrew Quilty

O Afeganistão continua a viver ataques contra instalações médicas, com o total de 67 incidentes registados pela Organização Mundial de Saúde entre janeiro e outubro de 2020.

A violência indiscriminada persiste como causa principal de morte dos civis e atividades do quotidiano, como as deslocações até às unidades de saúde e de regresso a casa, põem as pessoas em grave perigo de sofrerem ferimentos ou serem mortas. As estradas estão frequentemente intrasitáveis devido aos combates ativos ou encontram-se minadas de dispositvos explosivos improvisados.

Apesar de o acesso a cuidados médicos estar entre as mais urgentes necessidades humanitárias no Afeganistão, a MSF testemunha com extrema apreensão que pessoas a precisarem de assistência são apanhadas no conflito enquanto tentam chegar às unidades de saúde. A organização médica-humanitária observa também que existe uma discrepância entre a narrativa oficial sobre os avanços no sistema público de saúde afegão, apoiado internacionalmente, e a realidade que é vivida no terreno.

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Esquecidos é um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.